As autoridades do Irã anunciaram neste sábado (18) a retomada das restrições no acesso ao Estreito de Ormuz, rota por onde passar cerca de 20% do comércio mundial de petróleo. A decisão reverte uma tentativa recente de reabertura e, segundo o governo iraniano, ocorre em resposta à manutenção do bloqueio ao portos iranianos imposto pelos Estados Unidos.
A medida, de acordo com o historiador Fernando Horta, deixa mais nítida a condição de outros dois países como peças-chave no xadrez da geopolítica. Ele explica que os Estados Unidos buscam atingir os avanços da economia chinesa ao restringir rotas de petróleo. Além disso, destaca as ações militares de Israel como entraves para a paz duradoura na região.
“A China conseguiu uma negociação com o Irã, fazendo com que os seus navios pudessem passar pelo Estreito, mesmo que estivesse fechado, e isso não serve aos Estados Unidos”, destacou.
Ao mesmo tempo, o historiador destacou que Israel segue “massacrando os seus vizinhos e usando o conflito para manter a sua estrutura intocada. E o Irã entende que, se o país (Israel) não for contido pelas obrigações dos acordos de paz e de reparação, não vale a pena”, explicou.
Na avaliação de Horta, o cessar-fogo atual – com duração prevista até a próxima quarta-feira (22) – sempre foi instável. De acordo com ele, além de fatores globais, questões políticas internas dos Estados Unidos devem ser levadas em conta. Em novembro, o país terá eleições de meio de mandato, que vão renovar toda a Câmara dos Representantes (435 cadeiras) e cerca de um terço do Senado, além de governos estaduais.
“Trump vai ganhando tempo até as eleições, para ver se provoca uma outra crise adiante para tirar vantagem, a depender das pesquisas eleitorais dentro dos Estados Unidos”, aponta.
Horta também aponta que “os Estados Unidos não vão permitir que o Irã saia desse conflito como um vitorioso moral” e que, por isso, Trump pode estender a guerra. “Porque é teatro, né? Entregar o urânio, para os Estados Unidos não faz diferença nenhuma, mudar o seu regime para um regime mais aberto, para os Estados Unidos não faz diferença nenhuma. Tudo isso é apenas para mostrar para a população dos Estados Estados Unidos, pro apoiador do Trump, que Trump consegue impor aos seus inimigos as suas vontades”.
Para Horta, é necessário criar novas teorias ou ao menos revisar as teorias já existentes nas Relações Internacionais para explicar os conflitos que acontecem hoje, no cenário de “capitalismo tardio digital”: “Desde que alguns bilionários nos Estados Unidos se tornaram tão fortes a ponto de passar por cima das vontades nacionais, o maior pânico das teorias de relações internacionais aconteceu: você tem uma guerra hoje que é travada apenas pelos interesses de um ou dois grupos, e o resto praticamente fica sem ação conduzido pelos algoritmos. Isso é uma coisa que as relações internacionais nem imaginavam”.

