Guerra tecnológica e soberania digital: o que a China entendeu antes do mundo

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A advertência recente de Celso Amorim de que é preciso “preparar-se para o pior” diante da escalada de tensões no Oriente Médio não deve ser lida apenas sob a chave militar tradicional. A guerra no século 21 já não se define prioritariamente pela ocupação territorial, mas pelo controle de infraestruturas digitais, fluxos de dados e capacidades tecnológicas estratégicas. Em um sistema internacional progressivamente estruturado pelo poder informacional, a superioridade militar torna-se indissociável do domínio tecnológico, da inteligência de dados e do controle sobre redes, plataformas e sistemas digitais. Nesse contexto, conflitos contemporâneos não se iniciam necessariamente com tropas ou bombardeios, mas com vigilância massiva, rastreamento digital, interceptação de comunicações e capacidade de processar e integrar grandes volumes de informação em tempo real. 

É precisamente nesse cenário que a experiência chinesa adquire relevância analítica, ao ter antecipado que a soberania, na era digital, depende tanto do controle do território físico, mas também da capacidade estatal de governar seu próprio ciberespaço, suas infraestruturas informacionais e suas cadeias tecnológicas estratégicas. 

Nesse contexto, a pergunta “qual o papel das Big Techs em operações de guerra e inteligência?” deixa de ser retórica e passa a ser analiticamente central. A capacidade de localizar lideranças, monitorar deslocamentos, interceptar comunicações e mapear localizar lideranças, monitorar deslocamentos, interceptar comunicações e mapear padrões comportamentais depende, hoje, de um ecossistema tecnológico altamente concentrado. Plataformas digitais, serviços de nuvem, sistemas de geolocalização, infraestrutura de dados e redes de comunicação constituem a espinha dorsal da vida digital contemporânea, mas também da guerra informacional. 

A eliminação de altas lideranças em cenários de conflito, como observado no caso iraniano, suscita precisamente essa dimensão tecnológica da guerra. A inteligência contemporânea não se restringe mais à espionagem clássica, mas envolve análise massiva de dados, rastros digitais, inteligência de sinais, vigilância satelital e integração entre plataformas tecnológicas e estruturas de segurança nacional. Em tal configuração, o poder militar torna-se indissociável do poder informacional. 

A dimensão cibernética torna-se ainda mais evidente quando observamos episódios recentes na Venezuela, nos quais ataques a sistemas, comunicações e infraestrutura crítica antecederam operações diretas contra a liderança estatal, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro. Longe de uma ação puramente militar, o episódio revela que a superioridade tecnológica e domínio sobre redes e fluxos de dados criam as condições operacionais para neutralizar a capacidade de comando e controle do Estado antes mesmo do confronto visível.

Trata-se de um poder estrutural tecnológico que se projeta para além das fronteiras territoriais e permeia o funcionamento cotidiano do sistema internacional. As grandes empresas tecnológicas estadunidenses controlam parcelas significativas da infraestrutura digital global, incluindo serviços de nuvem, sistemas operacionais, plataformas de comunicação, mapas digitais, serviços de inteligência artificial e fluxos massivos de dados. Essa concentração cria uma assimetria estrutural, uma vez que países que dependem dessas infraestruturas operam sob condições de vulnerabilidade informacional. 

A China e o ecossistema digital soberano

A constituição de um ecossistema digital soberano na China deve ser compreendida como parte de uma estratégia estatal de longo prazo voltada à construção de autonomia tecnológica em um sistema internacional crescentemente estruturado pelo poder informacional. Longe de se restringir a medidas pontuais de regulação ou ao debate normativo sobre censura, a política chinesa de restrição, regulação e substituição de plataformas digitais estrangeiras insere-se em uma concepção mais ampla de soberania tecnológica, na qual o ciberespaço é tratado como infraestrutura crítica do poder estatal. Nesse sentido, dados governamentais, comunicações institucionais, sistemas estratégicos e fluxos informacionais são progressivamente internalizados em arquiteturas tecnológicas sob jurisdição nacional, reduzindo vulnerabilidades externas e ampliando a capacidade de governança digital. Tal orientação revela uma antecipação da centralidade do domínio tecnológico-digital como dimensão estruturante da segurança nacional, do desenvolvimento econômico e da competição geopolítica, evidenciando que, na experiência chinesa, o ecossistema digital não emerge como reação conjuntural a pressões externas, mas como projeto deliberado de construção de capacidades estatais técnico-digitais e de reorganização soberana das infraestruturas informacionais. 


Nesse processo, a figura de Fang Binxing, engenheiro de computação e um dos principais arquitetos do sistema de filtragem e controle do ciberespaço chinês, conhecido internacionalmente como “Grande Firewall”, é particularmente emblemática. Sua relevância decorre não apenas de sua atuação técnica, mas de sua contribuição estratégica para a formulação de uma concepção de soberania digital centrada na segurança do ciberespaço nacional. Fang operacionaliza essa lógica ao sustentar que a autonomia tecnológica só pode existir quando o Estado é capaz de proteger, regular e estruturar seu próprio ambiente informacional. Isso implica controle sobre infraestrutura crítica, tais como dados, redes e plataformas, desenvolvimento de capacidades humanas e institucionais nacionais e a construção de mecanismos econômicos e regulatórios próprios. Trata-se, portanto, de uma concepção abrangente de soberania digital, que articula tecnologia, Estado e segurança.

Posteriormente, o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT), a partir de 2008, transforma essa base em política de Estado, por meio da criação de normas, padrões técnicos, exigências regulatórias para empresas tecnológicas e alinhamento estratégico com setores como 5G, computação em nuvem e infraestrutura digital avançada. O que se observa, portanto, não é uma reação conjuntural, mas um projeto de longo prazo de construção de autonomia tecnológica. 

Sob essa perspectiva, a construção de um ecossistema digital próprio, incluindo plataformas nacionais, infraestrutura de nuvem doméstica, redes soberanas e sistemas tecnológicos autônomos, deve ser interpretada não apenas como estratégia de sobrevivência estatal em um ambiente internacional marcado por guerra informacional, ciberconflitos e disputa por dados, mas também como inserção na principal fronteira tecnológica contemporânea. Trata-se de um campo decisivo para múltiplas frentes de inovação, geração de empregos qualificados, desenvolvimento industrial avançado e liderança em setores estratégicos como inteligência artificial, big data e computação em nuvem. 

Nesse contexto, a soberania digital ultrapassa a dimensão do controle informacional interno e passa a envolver a capacidade de estruturar cadeias tecnológicas nacionais, reduzir dependências externas e sustentar a competitividade econômica de longo prazo. Ao mesmo tempo, essa autonomia tecnológica possui implicações diretas para a segurança nacional, na medida em que o domínio sobre dados, redes e infraestruturas críticas condiciona a resiliência do Estado frente a pressões externas, espionagem tecnológica e vulnerabilidades sistêmicas. 

Palavras finais

A trajetória chinesa ilustra para o Sul Global o caráter estratégico das tecnologias digitais para o exercício da soberania no século 21. Essa centralidade tecnológica coincide com o aprofundamento das disputas sistêmicas e com o recrudescimento das formas contemporâneas de projeção de poder dos Estados Unidos, cada vez mais mediadas por instrumentos tecnológicos, financeiros, informacionais e regulatórios, que ampliam a capacidade de influência extraterritorial e reforçam assimetrias globais. É nesse cenário de transição sistêmica e intensificação da competição tecnológica que ganham relevância as iniciativas de articulação do Sul Global, particularmente no âmbito dos Brics, como tentativa de diversificação de parcerias, redução de vulnerabilidades tecnológicas e construção de alternativas diante da ordem digital centrada em Washington. E, nesse caso, a experiência chinesa contém lições valiosas para a atual quadra histórica. 

*Isis Paris Maia é historiadora, doutoranda em políticas públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), pesquisadora de instituições e governança na China

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