A escola de samba Acadêmicos do Tatuapé conquistou o 4º lugar no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo e agora participa do desfile das campeãs no próximo sábado (21). A agremiação levou ao sambódromo do Anhembi o debate sobre a reforma agrária e uma homenagem ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Com o samba-enredo Plantar para colher e alimentar: tem muita terra sem gente e muita gente sem terra, a escola recebeu 269.5 pontos na apuração feita nesta terça-feira (17) e conquistou o 4º lugar depois de ter sido vice-campeã em 2025. A campeã do carnaval em São Paulo foi a Mocidade Alegre.
Para Ana Chã, pesquisadora e integrante do MST, independente do resultado, levar o tema da luta pela terra, a reforma agrária e a alimentação saudável para o sambódromo é uma vitória para o movimento e para a sociedade brasileira, por tratar de um tema tão importante.
“Esse é um tema estrutural que precisa ser debatido por toda a sociedade, em especial quem mora nas cidades e acaba ficando distante dessa realidade. Mostrar que o campo é um lugar vivo, com gente alegre, que produzir comida boa e produz cultura também é valorizar essa luta histórica, reverenciando todos e todas que vieram antes como canudos, ligas camponesas, mas também apontar um futuro mais justo, digno, e a única possibilidade hoje de combate às mudanças climáticas e porque não ao avanço da extrema direita”, disse ao Brasil de Fato.
Eduardo dos Santos é um dos presidente da Acadêmicos do Tatuapé e celebrou o resultado. De acordo com ele, os resultados da escola mostram que a agremiação tem a tradição de disputar títulos, mas que a presença no desfile das campeãs mostra uma presença constante do grupo entre as escolas com melhor desempenho no estado.
“É claro que fizemos o nosso trabalho pensando na melhor posição possível. Mas o 4º lugar para um desfile concorrido e competitivo como o carnaval de São Paulo não deixa de ser um resultado muito bom e mantém a nossa trajetória de ficarmos entre as 5 primeiras em 8 das ultimas 10 edições. Então, mesmo trabalhando para sermos campeões, não deixa de ser um resultado para celebrar”, afirmou ao Brasil de Fato.
A escola foi campeã em duas oportunidades: 2017 e 2018. De 2016 para cá, a Acadêmicos do Tatuapé também foi vice-campeã duas vezes.
Carla Loop é da Coordenação Nacional do Coletivo de Cultura do MST e também celebrou o resultado. De acordo com ela, abordar esse tema é um trabalho fundamental para tornar o debate acessível aos brasileiros. Ela reafirma o papel do carnaval como um espaço de resistência e luta para o povo braisleiro.
“O Carnaval, além de festa, é historicamente um espaço de resistência, onde as vozes silenciadas ganham destaque em nível nacional. Tratar desse assunto cumpre papéis fundamentais, tornando a discussão acessível para milhões de brasileiros. Colocar o trabalhador do campo, o sem-terra, no centro do ‘maior espetáculo da Terra’ é um ato político e uma forma de pautar nossa identidade brasileira, a questão da terra é a base de quase todos os nossos problemas sociais históricos. Discuti-la é discutir a própria formação do Brasil”, afirmou ao Brasil de Fato.
Para quem estava no desfile, a expectativa era disputar o título, ainda mais depois de um ano em que a escola terminou em segundo lugar. Para a briga política, no entanto, o resultado foi expressivo já que coloca a escola no desfile das campeãs do final de semana.
“A gente sempre espera ganhar, o samba tinha esse potencial, a escola estava linda, fez um desfile maravilhoso, tecnicamente muito bom também, mas é uma competição e outras escolas vieram com enredos e desfiles muito bons. Temos certeza que vamos continuar ouvindo o povo cantar o enredo não só em São Paulo, mas no Brasil todo. Os sem terra se identificaram e vão continuar ecoando esse canto por reforma agrária e justiça social por muito tempo”, disse Ana Chã.
Para a escola, a parceria com o MST fez diferença na conquista do resultado deste ano. Eduardo dos Santos agradeceu aos integrantes do movimento na construção de um desfile que, para ele, ficará marcado na história do carnaval paulista por essa construção coletiva com um dos maiores movimentos populares do país.
“Foi um trabalho muito positivo e uma participação consistente do movimento. Isso nos ajudou e contribuiu para esse resultado. O quarto lugar tem a ver com essa parceria e com essa história que o movimento construiu ao longo dos anos. Brigamos pelas mesmas lutas e colocamos isso em um desfile para que as pessoas entendessem a necessidade dessa luta. Queria agradecer a todas as pessoas que se envolveram diretamente nisso e nos ajudaram nesse desfile maravilhoso”, concluiu.

