Identificação dos restos mortais de Camilo Torres reacende campanha por reparação histórica na Colômbia

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Sessenta anos após o seu desaparecimento, o nome do guerrilheiro, sacerdote e sociólogo Jorge Camilo Torres Restrepo volta ao centro do debate político e social na Colômbia. A recente confirmação da identificação de seus restos mortais, que estavam sob “segredo de Estado” desde 1966, deu origem à campanha “Camilo, 60&100pre Legado Vivo”. Por meio de uma carta movimentos populares de diversos países da América Latina reivindicam o lugar de Camilo na história colombiana.

A iniciativa, impulsionada por uma rede internacional de organizações e intelectuais, surge após o anúncio oficial feito em 23 janeiro deste ano pela Unidade de Busca de Pessoas Dadas por Desaparecidas (UBPD) e confirmado pelo presidente Gustavo Petro.

Petro declarou que o corpo do sacerdote será “respeitado e depositado com honras como fundador da Faculdade de Sociologia da Universidade Nacional e como fundador da teologia da libertação no mundo. Sacerdote e revolucionário”.

Para os signatários da carta aberta endereçada ao governo colombiano, a recuperação do corpo de Camilo é uma conquista coletiva que encerra décadas de busca iniciadas por sua mãe, Isabelita.

O documento descreve Torres como o primeiro colombiano universal, símbolo do amor às pessoas e compromisso com a mudança social, destacando seu papel como precursor da Teologia da Libertação, da Investigação-Ação Participativa (IAP), da Educação Popular na Colômbia e do “Socialismo Raizal”.

“É o primeiro colombiano universal, símbolo do amor às demais pessoas, de compromisso honesto com a mudança social, apóstolo da unidade dos setores oprimidos, e expoente do pensamento crítico e dos melhores valores do evangelho. É o epítome de uma geração que não poupou nem uma gota de suor e sangue para construir um país justo, próspero, solidário, humano”, diz a carta.

O texto enfatiza que o corpo deixa de ser um segredo para se tornar um símbolo de esperança nacional e uma referência que pode permitir o fim da guerra endêmica, servindo como ponto de partida para caminhos de reconciliação, verdade e justiça para todas as vítimas de desaparecimento forçado.

A campanha apresenta exigências claras ao Estado colombiano para garantir que a memória do sociólogo não seja alvo de manipulação, defendendo a necessidade de blindá-la contra manipulações políticas.

“Para que isso seja possível, precisamos blindá-lo de todo cálculo de ganho político e de toda forma de instrumentalização conducente à manipulação política, ao manuseio histórico, ao apoderamento personalista ou grupalista. Além disso, não deve ser usado como moeda de troca nas disputas de poder. Converter sua memória e legado nisso seria contrário à essência de Camilo.”

Os signatários afirmam que o Estado deve “coprotagonizar” a narrativa da reparação histórica e facilitar o diálogo com a sociedade civil, propondo a convocação de uma mesa ampla para traçar um roteiro que esclareça os fatos da morte e do desaparecimento.

Além disso, reivindicam a construção de uma instância pública de perdão pelo ocultamento deliberado do corpo e o desenho de uma política pública que reivindique o lugar de Camilo na história nacional.

“Propomos convocar uma mesa ampla que trace um ‘roteiro’ que permita: esclarecer os fatos da morte, desaparecimento forçado e reaparecimento; construir uma instância pública de perdão por parte do Estado colombiano pelo desaparecimento do corpo e seu ocultamento deliberado; e desenhar uma política pública que reconheça e reivindique o lugar que Camilo merece na história nacional.”

Os coletivos também convidam todos “a conhecer, difundir, articular, coadjuvar e participar das diversas iniciativas projetadas na Colômbia e no exterior, no âmbito da ‘Campanha Camilo, 60&100pre Legado Vivo’, que articula os sessenta anos de sua morte (2026) com o centenário de seu natalício (2029), respeitando a autonomia e a dinâmica popular.”

Camilo Torres: busca por memória

A busca pelos restos mortais de Camilo Torres foi iniciada oficialmente em 2019, após solicitação à UBPD. Os avanços mais relevantes ocorreram nos dois últimos anos, com o uso combinado de técnicas forenses, geomáticas (processamento de dados espaciais) e análise documental.

Figura simbólica na história política da Colômbia, Camilo, nascido em 3 de fevereiro de 1929, foi um dos fundadores da Faculdade de Sociologia da Universidade Nacional, onde atuou também como capelão. Em 1965, aderiu ao ELN, motivado pela crença de que a transformação social exige ruptura com as estruturas tradicionais de poder.

O ELN é a última guerrilha histórica de esquerda ativa na Colômbia. Segundo nota do grupo, a decisão de divulgar o achado foi motivada pelo silêncio do governo. Em nota assinada pelo Comando Central, o grupo afirma que o corpo do comandante foi identificado e será encaminhado à Universidade Nacional, “onde será depositado com dignidade”.

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