Igreja e movimentos sociais do RS reforçam articulação popular diante do avanço das desigualdades e da violência

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Em meio ao agravamento das desigualdades sociais, das emergências climáticas e do avanço do conservadorismo no Rio Grande do Sul, representantes de movimentos populares, pastorais sociais, juventudes, organizações comunitárias e lideranças da Igreja Católica reuniram-se nesta quinta-feira (7), em Porto Alegre, para fortalecer o diálogo e construir articulações comuns em defesa da democracia, dos direitos humanos e da vida.

O encontro aconteceu na Sala São João Paulo II, junto à Catedral Metropolitana da capital gaúcha, e foi promovido pela Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransformadora da CNBB Sul 3. A atividade foi coordenada pelo padre José Carlos Stoffel e contou com a presença do bispo referencial da comissão, Dom Itacir Brassiani.

Participaram representantes do Movimento dos Atingidos e Atingidas por Barragens (MAB), Movimento dos Pequenos e Pequenas Agricultoras (MPA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Marcha Mundial das Mulheres, movimentos de luta por moradia, Levante Popular da Juventude, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Grito dos Excluídos Continental, Cáritas, pastorais sociais, representantes indígenas, entidades de defesa de direitos humanos e organizações da sociedade civil do Rio Grande do Sul.

Inspirado nos encontros mundiais dos movimentos populares impulsionados pelo Papa Francisco, o espaço teve como eixo central a pergunta: “Quais são os principais desafios comuns que enfrentamos como movimentos sociais e qual poderia ser o papel da Igreja Católica?”

A programação iniciou com uma mística baseada no poema O Operário em Construçãode Vinícius de Moraes, relacionando consciência coletiva, dignidade do trabalho e organização popular.

Na abertura, Dom Itacir Brassiani destacou que, apesar das diferenças existentes entre Igreja e movimentos sociais em alguns temas, há convergência no essencial: a defesa da dignidade humana, da cidadania e dos direitos do povo.

Emergência climática, feminicídio e avanço do conservadorismo marcaram as falas

A crise climática teve destaque central nos debates, especialmente após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul
A crise climática teve destaque central nos debates, especialmente após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul | Crédito: Divulgação/CNBB Sul 3

Ao longo da roda de escuta, os movimentos apresentaram uma leitura dura da conjuntura brasileira e gaúcha.

As falas apontaram preocupação com o avanço da extrema direita e do fascismo, o crescimento da violência e do feminicídio, a precarização do trabalho, a fragilização da democracia, a criminalização dos movimentos sociais, o aumento da fome e das desigualdades, e o enfraquecimento da participação popular.

Também apareceram críticas ao avanço do individualismo, da uberização e das jornadas exaustivas de trabalho, que têm reduzido o tempo de convivência comunitária, participação política e organização popular.

A crise climática teve destaque central nos debates, especialmente após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. Diversos participantes denunciaram que as populações mais pobres continuam sendo as principais vítimas da ausência de políticas estruturais de prevenção e reconstrução.

Outro tema recorrente foi o crescimento do conservadorismo religioso nos territórios populares.

Representantes dos movimentos alertaram para o avanço de setores religiosos alinhados a projetos autoritários e individualistas, além da diminuição da presença pastoral da Igreja Católica em comunidades periféricas, assentamentos e territórios populares.

Também surgiram denúncias sobre o fortalecimento do crime organizado em comunidades vulnerabilizadas e sua crescente influência sobre estruturas institucionais e espaços de poder.

“Precisamos reconstruir o sentido comunitário”

As intervenções reforçaram a necessidade de retomar processos de educação popular, organização de base e fortalecimento das comunidades.

Movimentos de mulheres denunciaram o aumento da violência contra mulheres, adolescentes e crianças e cobraram posicionamento mais firme das igrejas diante do feminicídio e das desigualdades de gênero.

Também foram levantadas reflexões sobre justiça reprodutiva, racismo estrutural, direito à moradia, crise no campo, endividamento das famílias e dificuldades enfrentadas pelas juventudes.

Representantes das pastorais sociais e dos movimentos populares destacaram a importância histórica das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Teologia da Libertação e da atuação pastoral junto às lutas sociais.

Ao longo do encontro, apareceu diversas vezes a defesa de uma Igreja: mais próxima do povo; presente nos territórios; comprometida com os pobres; e capaz de enfrentar publicamente as injustiças sociais.

Construção de convergências e próximos passos

Participantes propuseram a construção de um “Projeto para um Rio Grande Decente”, articulando pautas populares diante do atual contexto político e social
Participantes propuseram a construção de um “Projeto para um Rio Grande Decente”, articulando pautas populares diante do atual contexto político e social | Crédito: Divulgação/CNBB Sul 3

Na plenária final, os participantes identificaram convergências em torno da defesa da democracia, da justiça climática, dos direitos sociais e da reconstrução do sentido comunitário e coletivo.

Entre os encaminhamentos debatidos estiveram: fortalecer o diálogo permanente entre Igreja e movimentos sociais; ampliar ações de educação popular; construir iniciativas comuns de comunicação com a sociedade gaúcha; e produzir materiais simples para circulação em comunidades e espaços pastorais.

Também surgiu a proposta de construção de um “Projeto para um Rio Grande Decente”, articulando pautas populares diante do atual contexto político e social.

No encerramento, Dom Itacir Brassiani reafirmou a importância da presença da Igreja junto às comunidades e aos territórios populares.

“A defesa da vida, da democracia e da dignidade humana exige organização coletiva, esperança e compromisso concreto com o povo”, sintetizou um dos encaminhamentos do encontro.

* Luciane Udovic Bassegio é da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação sociotransformadora/CNBB Sul3 e do Grito dos Excluídos Continental.

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