A deflagração da 5ª fase da Operação Compliance Zero, que mira o senador Ciro Nogueira (PP-PI) por irregularidades envolvendo o Banco Master, provocou uma paralisia nas articulações de cúpula da extrema direita e do centrão para o pleito de 2026. O impacto mais direto atinge as pré-campanhas do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), à reeleição.
Antes da operação, a aliança entre o PL e o Progressistas (PP) estava em estágio avançado, especialmente no Rio. Em entrevista recente ao SBT, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, chegou a classificar Ciro Nogueira como um nome “excelente” para ocupar a vaga de vice na chapa de Flávio Bolsonaro. A ideia era unir o poder de mobilização do bolsonarismo com a estrutura partidária do PP.
Contudo, as suspeitas de envolvimento de Ciro Nogueira na elaboração da chamada “Emenda Master”, com recebimento de mesadas, alteraram o cálculo político. Para o cientista político e professor da Fesp-SP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) Paulo Roberto Souza, a situação de Nogueira no cenário eleitoral dependerá diretamente do ritmo das apurações judiciais. “Acredito que tudo depende do desenrolar das investigações, do teor das publicizações e da condução de André Mendonça (ministro do Supremo Tribunal Federal) no caso”, afirma o professor.
De acordo com a análise de Souza, o momento atual é de cautela extrema entre os aliados do senador piauiense. O cientista político observa que, embora haja um “afastamento pragmático que é percebido pelo silêncio dos aliados”, a força política de Ciro Nogueira no coração do poder não deve ser subestimada. Ele destaca que senador é uma das lideranças mais poderosas do Centrão e, por isso, “nos bastidores este afastamento, se houver, não será tão significativo”.
Em São Paulo, o reflexo foi a suspensão de agendas públicas. O PP, de Ciro Nogueira, decidiu adiar um evento que contaria com a participação do governador Tarcísio de Freitas neste final de semana. O encontro serviria para consolidar o apoio da legenda ao projeto político do governador. O adiamento sinaliza que a cúpula do partido prefere evitar exposições ao lado de figuras centrais da direita enquanto o foco da Polícia Federal estiver sobre o presidente nacional da sigla.
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), também comentou as movimentações do bloco em entrevista à CNN. Zema reforçou a necessidade de união dos partidos de oposição ao governo federal, mas o cenário de incertezas trazido pela operação Compliance Zero coloca em dúvida se o PP conseguirá manter o mesmo protagonismo nas mesas de negociação.
A relação de proximidade entre Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira deve se tornar um dos principais alvos da situação durante a campanha. Segundo Paulo Roberto Souza, “o campo progressista certamente vai tentar colar Ciro em Flávio e com razão”. O professor lembra que o senador do PP foi ministro-chefe da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, o que facilita a associação direta entre os escândalos e o núcleo bolsonarista.
Apesar da facilidade dessa associação dentro de certos nichos, o cientista político ressalta que “não é simples furar a bolha e ser bem-sucedido em outros grupos fora do seu campo”. Para que o desgaste de Ciro Nogueira respingue efetivamente em Flávio Bolsonaro perante o eleitorado médio, Souza avalia que “as diversas relações precisam ser também exploradas exaustivamente pela mídia de referência”.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, já iniciou movimentos para tentar blindar sua imagem. O senador classificou o episódio como “grave” e propôs a abertura de uma CPI para investigar o Banco Master, mas evitou citar nominalmente Ciro Nogueira. Conforme o professor da Fesp-SP, essa foi uma estratégia rápida de Flávio para “tentar diminuir possíveis custos políticos de sua relação com Ciro”.
A investigação da Polícia Federal aponta que a relação entre Ciro Nogueira e o banqueiro Daniel Vorcaro envolvia o custeio de despesas de luxo e repasses financeiros mensais. A médio prazo, o enfraquecimento do senador alvo da PF pode abrir espaço para outras lideranças dentro do PP que buscam maior autonomia em relação ao grupo bolsonarista.
O cenário para 2026, que parecia caminhar para uma consolidação precoce das chapas de direita no Rio e em São Paulo, agora entra em uma fase de reavaliação. A expectativa é que, nas próximas semanas, novos nomes surjam como alternativas para as vagas de vice, enquanto os partidos aguardam para ver se surgirão novos nomes de movimentos ou lideranças regionais para ocupar os espaços deixados por figuras sob investigação.

