O processo de desenvolvimento do Brasil gerou desigualdades regionais significativas. Essas disparidades, mais do que um processo natural de construção de diferenças, resultam de um complexo arranjo institucional, político, socioambiental e econômico que, ao longo da história, estabeleceu as bases para o empobrecimento da região Nordeste.
Esse vasto território, composto por nove estados e cerca de 54,6 milhões de habitantes, convive com marcas históricas do escoamento da riqueza regional e da carência de investimentos estruturais capazes de impulsionar setores estratégicos, como a agricultura. Dados do último Censo Agropecuário (2017 | IBGE) mostram que a região concentra 48% da população rural do país, formada majoritariamente por agricultores familiares. Trata-se de pequenas propriedades dedicadas à produção de alimentos básicos, combinando a geração de renda com o autoconsumo.
Esse modelo de agricultura é fundamental para a segurança alimentar da população brasileira. É nesse segmento que se concentra uma parcela significativa da produção de alimentos saudáveis, além da manutenção de atividades produtivas que geram emprego e renda, preservam tradições culturais e contribuem para a conservação ambiental.
Apesar de sua importância econômica e social, o acesso a financiamentos adequados, sejam eles públicos ou privados, ainda é escasso e, muitas vezes, incompatível com as realidades regionais. Diante desse desafio, o Financiamento para Produção de Alimentos Saudáveis (Finapop) tem se dedicado a construir mecanismos capazes de ampliar o acesso a recursos para organizações da agricultura familiar e da reforma agrária.
Mesmo com esses avanços, os desafios enfrentados pelas organizações da agricultura familiar permanecem significativos. É nesse contexto que a Cooperativa de Produção Agropecuária do Curimataú Paraibano (Coopac) vem se consolidando como referência regional na cadeia produtiva do leite. Atualmente, a cooperativa opera um laticínio dedicado à produção e comercialização de leite e derivados, fortalecendo a renda de centenas de famílias agricultoras.
Agora, a Coopac busca dar um passo estratégico em sua trajetória: a implantação de uma indústria de leite em pó caprino (Investimentos | Finapop). O projeto representa mais do que uma ampliação da capacidade produtiva. Trata-se de uma nova etapa de industrialização capaz de agregar valor à produção dos cooperados e fortalecer a economia regional. Com a iniciativa, a cooperativa poderá aproveitar excedentes sazonais, reduzir perdas, diversificar sua linha de produtos e ampliar a renda dos agricultores familiares.
Se concretizado, o empreendimento tornará a Coopac a primeira indústria de leite em pó caprino do Nordeste vinculada à agricultura familiar e à reforma agrária. Mais do que um investimento em infraestrutura, o projeto representa uma aposta no potencial produtivo do Semiárido brasileiro e na capacidade das organizações cooperativas de promoverem desenvolvimento econômico com inclusão social e geração de oportunidades para quem vive e produz no campo.
*Cris Sturmer é diretora de Planejamento do Finapop.
**Maura Silva é jornalista e responsável pela Comunicação e Relacionamento do Finapop.
***Esta é uma coluna de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

