Jandira Feghali aposta na ampliação da frente progressista e na aprovação do fim da escala 6×1

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Em meio a um cenário político marcado pela ofensiva da extrema direita, pelo avanço de pautas conservadoras no Congresso e pela disputa acirrada de narrativas nas redes sociais, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) faz um diagnóstico claro: a esquerda precisa urgentemente superar suas fragmentações e assumir a ofensiva na guerra cultural que se trava no país.

“A primeira coisa que a gente precisa ter consciência é de que a guerra cultural, a guerra de versões precisa ser enfrentada. A gente sabe o quanto isso incide, o quanto isso é importante no processo político brasileiro e a pouca triagem que a grande massa do povo faz das informações”, afirma a parlamentar em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato.

Para Jandira, não há espaço para a passividade. “É preciso que a gente esteja na ofensiva política da disputa de ideias, da disputa dessas versões absurdas que são divulgadas. É uma atitude política enfrentar, estar muito disposta a ter os dados, os argumentos e as informações para que a gente enfrente isso com muita altivez e muita força.”

Um dos pontos centrais da análise de Jandira é a dificuldade histórica da esquerda em atuar de forma coordenada no Congresso Nacional. Enquanto a extrema direita se organiza em torno de uma estratégia comum e discursos unificados, o campo progressista ainda padece com a falta de articulação.

“Veja, a extrema direita se envolve e se envolve apoiando Israel, se envolve apoiando Trump, se envolve criticando Maduro, se envolve criticando Cuba, mas não há uma estratégia comum, articulada e afinada para um grande enfrentamento dentro do Congresso Nacional, o que é lamentável”, critica.

A deputada observa que, mesmo dentro do campo progressista, há dificuldades para construir uma comunicação unificada. “Um sobe e fala da Palestina, o outro sobe e fala de Cuba, o outro fala do Minha Casa, Minha Vida, o outro fala do seu município e no final não fica nada. Porque vocês sabem que comunicação é repetição também, unificadamente dentro das redes de todos nós juntos.”

A solução, segundo ela, passa por uma articulação mais estratégica. “Isso é algo que eu falo há pelo menos dois anos e a gente não tem conseguido fazer, mas agora vai ter que fazer porque a situação se agravou fora e dentro e nós precisamos fazer esse embate unificado.”

Jandira elenca eixos fundamentais que devem nortear a atuação do campo democrático-popular no período eleitoral e no próximo mandato.

1. Desenvolvimento soberano e autonomia nacional

A deputada defende um projeto de desenvolvimento que reduza a vulnerabilidade externa do Brasil e fortaleça sua autonomia. “Nós precisamos ter recursos para inovação, para o processo industrial brasileiro, com todos os mecanismos que a gente possa ter para ter um projeto soberano de desenvolvimento.”

Ela lembra da vulnerabilidade exposta durante a pandemia. “Eu dou um exemplo: remédios, vacinas, tudo aquilo que a gente viu, a vulnerabilidade na pandemia. A gente precisa pensar o Brasil para 2050, o que será o Brasil daqui a 20 anos. É importante demonstrar ao povo brasileiro que nós estamos pensando estrategicamente esse país, reduzindo a nossa vulnerabilidade externa, principalmente numa geopolítica como essa.”

2. Redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1

Uma das pautas mais populares da atualidade, a redução da jornada de trabalho é apontada por Jandira como uma bandeira que o campo progressista precisa abraçar com força.

“Não tem justificativa para uma produção que tem avanços importantes da tecnologia manter a jornada de trabalho da década de 70. Não faz sentido isso, não se justifica. E também não se justifica uma resistência empresarial a essa pauta. É uma coisa de muita ganância, na verdade.”

A deputada atualiza o andamento da proposta no Congresso. “Hoje há duas PECs dentro do Congresso Nacional. Existe um projeto de lei da nossa bancada encabeçado pela deputada Daiana Santos do Rio Grande do Sul. E existe também uma visão do governo de talvez mandar um projeto com urgência constitucional.”

Ela acredita que há um clima diferenciado para aprovação. “Eu penso que no primeiro semestre, diante de toda essa movimentação e da movimentação social, a gente consiga aprovar essa pauta.” Uma grande marcha em Brasília está prevista para o dia 15 de abril em defesa da redução da jornada.

3. Enfrentamento à violência contra as mulheres

Relatora da Lei Maria da Penha, Jandira destaca a importância de manter a agenda de enfrentamento ao feminicídio como prioridade. “É uma pauta que nós assumimos há muito tempo. Eu fui relatora da Lei Maria da Penha. Eu sei o significado disso para as mulheres brasileiras e o governo assumiu o pacto contra o feminicídio.”

Ela defende que essa pauta siga como relevante, “com recursos e com possibilidade de fato de a gente virar essa chave e reduzir a morte de mulheres no Brasil”.

4. Regulação das redes e inteligência artificial

A deputada considera o embate pela regulação das plataformas digitais um dos mais difíceis no Congresso, em razão do forte lobby das big techs. “Eu enfrento muito esse debate aqui no Congresso Nacional e diria que esse é um dos mais difíceis pra gente fazer, porque o lobby das plataformas, das big techs, é muito pesado.”

Jandira faz questão de diferenciar regulação de censura. “Regular contra os crimes não é para fazer censura, mas regular contra os crimes relativos à democracia, à saúde pública, à criança, ao adolescente, às mulheres, à população negra, à população LGBT. É preciso regular e regular a inteligência artificial.”

A deputada integra a comissão especial da IA e aguarda o relatório do deputado Agnaldo para que o debate seja enfrentado. “Nós estamos às vésperas de fazer essa votação.”

O Congresso e a disputa eleitoral

Sobre o processo eleitoral que se avizinha, Jandira é categórica: “A esquerda sozinha não é capaz de ganhar as eleições. Essa é a minha opinião. A gente defende essa frente ampla há muito tempo.”

Ela sugere que partidos que talvez não se definam nacionalmente possam liberar palanques regionais para estruturar alianças. “Como aqui no Rio de Janeiro, é possível fazer.”

A deputada também destaca a importância de escancarar as diferenças políticas e o papel do bolsonarismo no Brasil. Ela cita o exemplo da CPMI do INSS, que, em sua avaliação, foi usada pela direita como palanque eleitoral em vez de instrumento de investigação.

“É necessário que a gente não banalize os instrumentos de CPI, que a gente consiga mostrar onde o esquema de corrupção de fato começou e se sustentou, que obviamente foi no governo anterior, tanto a questão do Banco Master como o desvio associativo do INSS.”

Jandira ressalta que o tema da corrupção tem peso no povo brasileiro. “É correto que tenha, porque ninguém quer ver desvio de dinheiro público e nem desvio de aposentado e pensionista. Então é correto que a gente investigue e dispute essa verdade, porque nada disso começou agora. Isso começou no governo Bolsonaro, na gestão do Roberto Campos e a questão do INSS.”

Para Jandira Feghali, o momento exige que o campo progressista supere suas fragmentações e assuma uma postura ofensiva na disputa política. A ampliação da frente democrática, a regulação das redes, o enfrentamento à violência contra as mulheres e a aprovação do fim da escala 6×1 são pautas que podem mobilizar a sociedade e garantir uma vitória eleitoral que preserve as conquistas democráticas e a soberania nacional.

“Eu penso que seja para aprovar as pautas necessárias, mas para enfrentar a disputa política, nós precisamos fazer isso com estratégia, com muita unidade, com muita força. Coisa que a gente ainda não conseguiu fazer, mas que agora vai ter que fazer porque a situação se agravou fora e dentro.”

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