Ao meio-dia desta sexta-feira (20), o prefeito João Campos (PSB), do Recife, lidera um ato político para oficializar sua pretensão de disputar o Governo de Pernambuco na eleição do próximo mês de outubro. A chapa da Frente Popular estaria definida desde a última quarta-feira (18), com Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (agora no PDT) como candidatos ao Senado e Carlos Costa (irmão do ministro Silvio Costa Filho), representando o Republicanos, na vice de Campos. O ato de lançamento acontece no Hotel Luzeiros, no bairro do Pina, zona sul do Recife.
A definição da chapa interrompe um ambiente especulativo que, nas últimas semanas, estava favorecendo a sua adversária, a governadora Raquel Lyra (PSD). Enquanto Campos ameaçou reduzir a base de apoio de Lyra, abrindo diálogos com o deputado federal Eduardo da Fonte (PP), que é pré-candidato ao Senado e tem três secretarias na gestão Lyra, dois dos seus aliados mais influentes – Marília Arraes e Silvio Costa Filho – foram procurados pela governadora e passaram a ser cogitados como candidatos a senadores na chapa dela.
A ideia de Campos, ao buscar o “bolsonarista discreto” Eduardo da Fonte, seria apresentar ao eleitor uma chapa “equilibrada” entre direita e esquerda, além de agregar o PP, terceira sigla com maior número de prefeitos (24) em Pernambuco. Mas a possibilidade de “perder” Marília Arraes (PDT) e Silvio Costa Filho (Republicanos) para a chapa adversária ameaçava Campos de perder também a sua reivindicação como “candidato único” de Lula no estado. Tanto a governadora Raquel Lyra (PSD), quanto o ministro Costa Filho e a ex-deputada Marília Arraes têm boa relação com o líder nacional do PT.
Em 2022, Campos lembra bem, o PT e Lula declararam apoio ao candidato Danilo Cabral (PSB), mas os vídeos e materiais de campanha não foram suficiente para convencer o eleitor, já que Marília Arraes também era candidata e foi considerada como “a verdadeira” aliada de Lula na disputa. Danilo Cabral teve a pior votação de um candidato do PSB em décadas, enquanto Marília Arraes chegou ao 2º turno, sendo derrotada por Raquel Lyra.
As definições do PT
É possível que algumas das principais lideranças do Partido dos Trabalhadores não se façam presentes no evento desta sexta. Apesar de a aliança entre PT e PSB ser dada como favas contadas, como parte da estratégia nacional para a reeleição do presidente Lula (PT), o Partido dos Trabalhadores só deve bater o martelo nos últimos dias de março. Campos é presidente nacional do PSB e trata diretamente com o presidente nacional do PT, Edinho Silva, e com o presidente da República.
O presidente estadual do PT em Pernambuco, o deputado federal Carlos Veras, nutre boa relação tanto com Campos, quanto com a governadora Raquel Lyra (PSD). Já o presidente municipal do PT no Recife, o ex-vereador Osmar Ricardo, entrou em rota de colisão com o prefeito no início de março, quando assinou um pedido de abertura de CPI contra Campos, sendo punido com perda do mandato (ele é suplente), abraçando um discurso nada amigável contra o ex-aliado e agora pré-candidato ao governo.
Dentro do partido há lideranças que são mais próximas da governadora Raquel Lyra (PSD) e há os que defendem um “apoio discreto” a qualquer dos candidatos ao governo, acreditando que desta forma Lula pode contar com apoios declarados de Lyra e Campos (além de Ivan Moraes, do Psol), deixando o adversário Flávio Bolsonaro (PL) sem palanque no estado. O partido tem realizado, nos fins de semana, um ciclo de reuniões do litoral ao interior do estado, para aproximar o partido dos filiados e alinhar o discurso antes de oficializar as alianças.
E quem sobrou?
O deputado federal Eduardo da Fonte (PP), ao publicizar sua intenção de se candidatar pela chapa de Campos, acabou perdendo os espaços que possuía na gestão Lyra. A traição foi punida com a demissão dos presidentes da Ceasa, do Porto do Recife e do Lafepe – respectivamente Bruno Rodrigues, Paulo Nery e Plínio Pimentel – foram exonerados logo após o encontro entre Campos e Da Fonte vir a público. Diversos cargos intermediários na estrutura do Detran também foram demitidos. Por fim, o PP não foi contemplado na chapa de João Campos e, na contenção de danos, lhes restou reafirmar o apoio à reeleição de Raquel Lyra.
O clã dos Coelhos, dominante em Petrolina e influente em todo o Sertão, também “sobrou”. Aliados de João Campos desde 2023, devem demonstrar sua insatisfação colocando Miguel Coelho (União Brasil) como candidato ao Senado na chapa de Raquel Lyra. O deputado federal Fernando Coelho Filho (União Brasil) e o ex-senador Fernando Bezerra Coelho – respectivamente irmão e pai de Miguel – foram alvos de uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal, no fim de fevereiro.
A suspeita é de fraude em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro desviado de emendas parlamentares através de parcerias entre a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e a Prefeitura de Petrolina. No período investigado, Miguel Coelho era o prefeito. A investigação da PF enfraqueceu a posição dos Coelhos para a composição da chapa da Frente Popular. Agora no lado oposto, as lideranças de Petrolina voltam a gozar de um ambiente “pacificado” no União Brasil, já que o deputado federal Mendonça Filho é opositor de Campos e aliado de Lyra.
O novo cenário também pacifica, em Pernambuco, as questões em torno de uma possível federação partidária entre PP e União Brasil, que antes forçaria a união de lideranças que estavam em lados opostos.

