Ao capturar Toussaint Louverture, líder da Revolução Haitiana, e encarcerá-lo numa prisão do leste da França, Napoleão pretendia não apenas destituir o general instigador das massas, mas também condená-lo ao esquecimento, evitando que se tornasse um mártir no seu país. A estratégia deu errado. O povo haitiano, que obteve sua independência poucos meses depois da morte do herói, em 07 de abril de 1803, nunca deixou de lembrar aquele que derrotou os maiores exércitos do mundo para alcançar a liberdade do seu povo há mais de dois séculos.
Hoje, enquanto o Haiti enfrenta uma crise política e social sem precedentes, a memória de Toussaint Louverture representa um farol para uma juventude que resiste a todas as violências e ainda quer sonhar com um país melhor. “Ele me inspira, eu considero ele um exemplo”, afirma Limpston Amy, 32 anos, educador social no campo, “porque ele lutou pela liberdade de todos os negros e pelo reconhecimento da dignidade humana”.
Essa foi, sem dúvida, a verdadeira chama da Revolução Haitiana e o principal legado de Louverture para a humanidade. Antes mesmo de pensar em reivindicar a independência da nação negra, ele pleiteava o fim da escravidão e a igualdade entre negros e brancos em todos os territórios colonizados.
Limpston, no entanto, nota que a batalha por direitos e soberania ainda precisa ser travada, só que, desta vez, contra um inimigo mais sutil. “Hoje, não temos escravos acorrentados, mas ainda somos escravos mentais de um sistema. E você acha que o nosso país tem autonomia? Não tem! Não são os haitianos que escolhem quem vai governar, não são os haitianos que escolhem o que vão comer. O que querem nos dar, a gente tem que consumir”, lamentou ao Brasil de Fato.
Para Jean-Rony François, 27 anos, estudante e comunicador em Plaisance (Norte), é a coragem de Toussaint Louverture que mais faz falta no Haiti de 2026. “Ele tinha uma verdadeira capacidade de liderança e é essa capacidade que não se vê hoje”, analisa, ressaltando a façanha de ter conseguido unificar o povo haitiano, de norte a sul do país, em meio a quase 10 anos de guerras, em prol da construção de uma nação livre. “Ele considerava que todo mundo podia participar, que todo mundo devia botar a mão na massa. Hoje, se tem um valor importante que cada haitiano precisaria defender, é a união entre todos nós. Não é uma questão de quem tem mais ou menos dinheiro, é uma batalha patriótica.”

Ser jovem no Haiti
Na guerra simbólica que o país enfrenta hoje, em que o inimigo também é múltiplo. Por um lado, gangues armadas massacram a população, controlam as principais estradas e aniquilam instituições do Estado. Por outro lado, as elites corruptas entregam os bens públicos a multinacionais, contratam mercenários estrangeiros e abrem as portas para uma intervenção militar sob os auspícios das Nações Unidas, sem consulta prévia da população.
“Medo” e “ansiedade” são as duas palavras que Netia Betsaina Pierre, 23 anos, citou para expressar seu sentir de jovem mulher no contexto político atual. Fotógrafa e estudante em Ciências Administrativas na cidade de Hinche (Centro), é cirúrgica na explicação: “medo, porque a insegurança tem aumentado e já existe há muitos anos. E a ansiedade é em saber quando a minha voz será levada em conta nas decisões tomadas pela sociedade haitiana.”
Referindo-se aos valores de liberdade, união e dignidade do povo negro, valores que, para ela, mais representam o legado de Toussaint Louverture, ela destaca o abismo que separa a população dos seus governantes. “As pessoas que nos governam, na maioria das vezes, não são daquelas que cultivam esses valores dentro de casa”, ressalta.
Kensly Charles, 24 anos, é postulante seminarista na capital, Porto Príncipe. Questionado sobre a condição de ser jovem no Haiti, ele desabafa sobre a insegurança generalizada, o desemprego, a inflação, a crise política e a ameaça das bandas armadas que tomam a juventude como alvo. “A gente vê jovens que aceitam entrar em gangues, mas tem outros que eles matam porque não aceitaram”, descreve ao Brasil de Fato. “Tudo isso mexe muito comigo. Com a minha mente, com o meu moral, com a minha ética. Enquanto jovem, você não sabe que futuro você pode esperar.”

Para a sede do futuro
A angústia, no entanto, não pode ser motivo de desânimo. “Apesar de tudo, a gente precisa lutar por um país melhor, por um Haiti mais forte”, insiste Kensly. E é nessa empreitada que a memória de Toussaint ilumina o caminho: “Ele me inspira por sua força, sua coragem, sua determinação e sua inteligência. Ele não era apenas um homem que entendia de guerra, ele era uma pessoa que sabia pensar o futuro.”
É precisamente para poder pensar e construir o futuro que a juventude haitiana, às vezes, sente a necessidade de olhar para o passado. Na história do país, os nomes daqueles que lideraram o processo revolucionário ainda suscitam respeito. Mais importante, eles ajudam a valorizar a luta do povo haitiano e sua capacidade de resistência.
“A trajetoria de pessoas como Henri Christophe, de Jean-Jacques Dessalines ou de Toussaint Louverture nos ensina muita coisa”, reflete Kensly, “para a gente saber que somos um povo forte, um povo que tem dignidade, um povo que foi capaz de sair da escravidão, um povo que é capaz de sair da crise que estamos atravessando.”
Segundo um estudo do Instituto Haitiano de Estatística e Informática (IHSI, sigla em francês), 67% da população haitiana tem até 34 anos. Essa prevalência demográfica confere aos mais jovens um papel central nas transformações políticas do país. As grandes mobilizações populares que marcaram as últimas décadas, desde a queda da ditadura de Duvalier e a aprovação da Constituição de 1987, foram protagonizadas por movimentos de juventude.
A força ancestral
Como quadro de uma organização popular e camponesa, o Tèt Kole Ti Peyizan Ayisyen, mas também como professor do ensino médio, Igenel Jean-Baptiste sempre teve um olhar atento para as novas gerações. Mesmo ciente do tamanho dos desafios para poder pensar um futuro melhor, ele mantém um certo otimismo.
“O sistema capitalista pode injetar seu soro na mente da juventude, mas ele não consegue desviar toda ela. Tem uma parte que ainda enxerga uma outra sociedade possível e que está disposta a batalhar para construir um outro Estado, um Estado responsável, capaz de garantir o bem-estar da população”, confia ao Brasil de Fato.
No entanto, é imprescindível, segundo ele, acompanhar o espírito revolucionário com formação política e trabalho de base, resgatando a história do país e seus aprendizados. Uma visão compartilhada pela maioria dos movimentos sociais e políticos que buscam uma mudança estrutural no Haiti. “Tem um grande trabalho feito nos espaços organizados para falar de Toussaint Louverture, contar a vida dele, sua obra, sua batalha e pensar como nós mesmos, junto com a juventude, podemos nos inspirar nele para transformar o país”, assevera Igenel, que também encontra no líder uma fonte de inspiração. “Ele nos inspira para continuar fazendo esse trabalho de educação popular, para chegar a uma consciência crítica e revolucionária da situação”.
Quando Toussaint Louverture foi detido e levado até a França, de onde não voltaria, ele teria dito, ao embarcar no navio: “Ao me derrubar, apenas cortaram, em Saint-Domingue, o tronco da árvore da liberdade dos negros. Ela crescerá novamente a partir de suas raízes, porque elas são profundas e numerosas”. Talvez não esperasse que a luta do povo que ele libertou fosse tão longa e árdua, e, menos ainda, que seus ideais ainda precisassem ser defendidos em pleno século 21. Mas ele não deixou de ser visionário ao antever que seu legado transcenderia a injustiça e a repressão de quem tentou silenciá-lo.

