Em um cenário marcado pelo avanço da extrema direita, pelo aprofundamento das desigualdades e pela emergência climática, jovens lideranças de sete partidos brasileiros decidiram dar um passo ousado: criar um espaço permanente de articulação e cooperação interpartidária. A Carta de Fundação do Fórum das Juventudes Progressistas foi lançada em São Paulo (SP) e oficializa o compromisso do grupo — composto por PT, Psol, PDT, PSB, PCdoB, PV e REDE — com a defesa da democracia, a justiça social e o enfrentamento das desigualdades históricas do país.
O documento, assinado por representantes das juventudes partidárias, faz um diagnóstico contundente do momento atual: o mundo vive uma crise sistêmica do capitalismo, que aprofunda desigualdades e acelera as mudanças climáticas por meio de um modelo de produção predatório. Nesse contexto, o texto alerta para o avanço da extrema direita, que utiliza discursos de ódio e um falso tom antissistema para capitalizar a insatisfação popular.
“A ideia é conseguir articular, entre as juventudes partidárias do campo progressista, do campo de esquerda, iniciativas importantes para o próximo período de eleições, mas também um debate mais estratégico sobre o que é ser progressista no Brasil”, explica Júlia Kopf, secretária nacional de Juventude do PT e uma das coordenadoras da iniciativa, no É de Manhã e Rádio Brasil de Fato.
Embora a articulação entre as juventudes de esquerda não seja propriamente uma novidade — encontros e diálogos já ocorriam em momentos pontuais —, a criação do fórum representa um salto qualitativo. A ideia, segundo Kopf, é transformar essa cooperação em um espaço contínuo, capaz de produzir iniciativas conjuntas e incidir de forma estruturada no debate político nacional.
“Existe uma percepção de que a população quer ver novas caras na política, quer ver uma política renovada. É importante que a gente consiga fazer isso também pelo campo de esquerda, progressista”, afirma. “São partidos que estão espalhados pelos 27 estados do país. Conseguir priorizar a juventude, essa nova cara, é algo que interessa a todo mundo.”
O fórum reúne siglas que, embora tenham diferenças programáticas e históricas, convergem em torno de um diagnóstico comum: a democracia brasileira enfrenta ameaças reais, e a participação ativa da juventude é condição indispensável para enfrentá-las. O combate às desigualdades raciais, de gênero, sociais e territoriais está no centro do projeto nacional defendido pelo grupo.
Pautas que conectam: do emprego à ansiedade climática
A carta de fundação do fórum não se limita a declarações de princípios. Ela aponta caminhos concretos. Durante o encontro que oficializou a criação do espaço, as lideranças juvenis debateram pautas objetivas que afetam diretamente a vida da juventude brasileira — e que, segundo avaliam, são fundamentais para reconectar o campo progressista com setores que se distanciaram.
“A gente debateu bastante isso. Não adianta dizer que estamos com ótimos níveis de emprego quando a gente não questiona qual é o emprego que essa juventude está conseguindo acessar”, pondera Júlia Kopf, uma das coordenadoras da iniciativa. Entre as prioridades elencadas estão a empregabilidade digna, a luta pelo fim da escala 6×1, a tarifa zero no transporte público e o custo de vida — especialmente os preços dos alimentos e dos aluguéis.
“A nossa geração, muito provavelmente, nunca vai se aposentar. Então a gente tem isso como pauta e apostamos justamente nessas pautas para conseguir ampliar a nossa percepção na sociedade e entre setores que hoje a gente precisa resgatar”, afirma a dirigente, referindo-se ao eleitorado jovem que apoiou a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022 e que, segundo pesquisas recentes, tem demonstrado oscilações na aprovação ao governo.
A pesquisa Atlas/Intel divulgada na véspera do lançamento do fórum apontou que a aprovação do presidente entre homens de 16 a 20 anos é um dos desafios a serem enfrentados pelo campo progressista. Para Kopf, a resposta está na capacidade de traduzir as demandas dessa geração em políticas concretas.
Outro ponto central do diagnóstico do fórum é a crise climática. O documento assinala que o modelo produtivo capitalista, predatório por natureza, é o principal responsável pelo aceleramento das mudanças climáticas — e a juventude é a geração que mais sente o peso dessa herança.
“Nossa geração tem uma coisa que a gente chama até de ansiedade climática. A gente vai ficar mais nesse planeta, a gente tem que preservar e tem que lutar para que a gente consiga envelhecer, para que a gente consiga ter filhos, ter netos e que todo mundo tenha boas condições de vida”, afirma Kopf.
A dirigente ressalta que a pauta ambiental precisa ser traduzida em coisas concretas. “As mudanças climáticas são também expressas nas enchentes que a gente viu em Minas Gerais, nas secas que acompanhamos no ano passado. Se a gente não conseguir traduzir isso para as pessoas, se a gente não conseguir fazer uma virada, vai ser muito difícil para as próximas gerações.”
Próximos passos: secundaristas, cultura e eleições
O Fórum das Juventudes Progressistas não nasce apenas para o debate interno. Já nos próximos meses, a articulação terá presença marcada em mobilizações e eventos. Em abril, o grupo participará do Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) em São Bernardo do Campo.
“Quem está no cursinho, na escola, esse é o espaço para participar. Vai ser muito bacana, vamos conversar com a turma secundarista, inclusive para tirar título. Quem tem 16, 17 anos não é obrigado a votar, mas já pode”, destaca Júlia Kopf, lembrando que esta pode ser a última eleição em que Lula estará na chapa como candidato a presidente.
Depois disso, o fórum pretende aprofundar as mobilizações em torno das pautas debatidas e ampliar o diálogo por meio da cultura — um campo que a juventude progressista considera estratégico para chegar aos diversos estados e às diferentes realidades do país.
“O nosso objetivo é fazer com que o próximo governo do presidente Lula seja, primeiro, um governo vitorioso, mas que consiga entregar ainda mais para a nossa juventude, que consiga entregar ainda mais para a nossa geração”, conclui Kopf.
O Fórum das Juventudes Progressistas nasce em um ano decisivo para o Brasil. Com eleições presidenciais no horizonte e a extrema direita organizada, a aposta do grupo é clara: a unidade do campo progressista, protagonizada pelas novas gerações, será fundamental para derrotar o autoritarismo e consolidar um projeto democrático-popular, sustentável e soberano.
Para ouvir e assistir
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