Lideranças indígenas defendem autonomia sobre narrativas durante festival de cinema em Goiás

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Durante décadas, a história dos povos indígenas foi registrada, interpretada e contada por olhares externos. No cinema, nos museus e nos meios de comunicação, a produção dessas narrativas raramente esteve nas mãos dos próprios indígenas. No Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), realizado na Cidade de Goiás, lideranças, comunicadores e realizadores apontam uma transformação nessa lógica.

Um dos painéis nesta quinta-feira (18) colocou em evidência quem produz essas imagens, quais histórias são registradas e quais conhecimentos permanecem protegidos nas comunidades. Em comum, os participantes defenderam que disputar a narrativa também é disputar memória, território e direitos.

Memória que nasce do território

Uma das vozes foi a da antropóloga Juliana Amanayara Tupinambá, diretora do Museu Nacional dos Povos Indígenas. Ao relacionar memória, território e crise climática, ela afirmou que a demora na demarcação das terras indígenas ultrapassa uma reivindicação histórica dos povos originários.

“A não garantia do que está na Constituição, que é a autonomia em nossos próprios territórios, o problema da não demarcação dos territórios indígenas não é só um problema para nós, como também para a humanidade”, afirmou.

Segundo Amanayara, essa compreensão parte de uma forma distinta de entender o território. Em vez de separar corpo e natureza, ela explica que ambos constituem uma mesma existência. “Eu sou a geografia do meu território, eu sou essa geomemória do meu território, porque o meu território vive em mim”, disse.

Festival Fica 2026 pauta comunicação e luta por direitos indígenas
Festival Fica 2026 pauta comunicação e luta por direitos indígenas | Crédito: João Palhares/Brasil de Fato DF

Foi a partir dessa perspectiva que ela relacionou a violência contra os territórios indígenas às mudanças climáticas. “Quando violentamos o rio, violentamos um corpo vivo e os povos que estão ali”, declarou.

A antropóloga também afirmou que a memória, para os povos indígenas, não pertence apenas ao passado. “A gente tem que ativar as memórias para entender que todo o processo de construção é de uma memória viva. Nos nossos modos de vida não existe futuro. Existe o passado e o presente, o agora”, disse.

Da formação de jovens à Mídia Indígena

Antes de dirigir o documentário Somos GuardiõesEdivan Guajajara ingressou no audiovisual por meio de um projeto de formação voltado a jovens do território. A iniciativa, idealizada pela hoje ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, reuniu 12 participantes e ajudou a viabilizar a formação desses comunicadores que criariam mais tarde a Mídia Indígena, hoje uma das principais referências de comunicação produzida pelos próprios povos originários.

Para Edivan, produzir imagens também significa romper com representações construídas historicamente por pessoas de fora das comunidades. “O cinema indígena vem para quebrar isso. A gente não é só o canto e a dança. É uma outra forma de construção, de trazer para a memória institucional o que está sendo construído agora”, afirmou.

O diretor contou ainda que a produção de Somos Guardiões foi marcada por decisões éticas tomadas dentro do próprio território. Segundo ele, situações de risco não poderiam ser reproduzidas apenas para atender às exigências narrativas do cinema.

Durante o painel, os participantes explicaram que essa lógica também orienta a circulação de conhecimentos tradicionais. Embora o audiovisual seja utilizado para registrar histórias, fortalecer a transmissão de saberes entre gerações e apresentar aspectos das culturas indígenas ao público, determinados conhecimentos permanecem restritos às próprias comunidades. A decisão sobre o que pode ou não ser compartilhado faz parte da autonomia de cada povo.

Mulheres indígenas no audiovisual

A presença indígena no audiovisual também passa pela ocupação de espaços historicamente negados às mulheres. Integrante da Rede Katahirine e jurada desta edição do Fica, Patrícia Yxapy afirmou que recebeu o convite com a consciência de representar uma trajetória coletiva construída por mulheres indígenas no cinema.

“Quando chegou esse convite, eu pensei: é um espaço que eu posso mostrar não só para o meu povo, mas para todas as mulheres que trabalham com cinema”, afirmou.

Ela explicou que, em seu povo, Mbyá-Guarani, as decisões são tomadas por um conselho formado por jovens, mulheres e anciãos, e que essa experiência coletiva também orienta sua atuação fora da comunidade.

Para Patrícia, ocupar um lugar no júri do Fica não representa um ponto de chegada, mas parte de um movimento mais amplo que reafirma a presença indígena em espaços de decisão. “A gente está sempre atrás de mais espaços para falar e seremos ouvidas.”, argumentou.


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