O lançamento do livro de artista Há uma cidade por trásda fotógrafa e artista visual Letícia Lampert, propõe um olhar atento e crítico sobre a paisagem urbana de São Leopoldo (RS), especialmente sobre aquilo que, no cotidiano apressado do centro da cidade, costuma passar despercebido. A obra será apresentada ao público nesta terça-feira (20), às 19h, em um bate-papo transmitido ao vivo pelo canal da artista no YouTubecom tradução em Libras, ampliando o acesso ao debate.
Resultado do projeto Descobrindo São Leopoldoo livro nasce de um processo de observação prolongada iniciado em 2020, quando Letícia Lampert retornou temporariamente à cidade durante a pandemia. Esse reencontro com o território de origem, segundo a artista, despertou a necessidade de olhar para a cidade não apenas como espaço vivido, mas como objeto de investigação estética, política e cultural.
A cidade encoberta no cotidiano urbano
O foco do trabalho recai sobre a região central de São Leopoldo, em especial a Rua Grande, área histórica e simbólica para a população local. Ao longo de caminhadas e registros fotográficos, Letícia passou a documentar como letreiros, placas comerciais e identidades visuais se sobrepõem à arquitetura, muitas vezes ocultando prédios tombados e elementos do patrimônio urbano.
Na avaliação da artista, o termo “descobrir”, que dá nome ao projeto, não remete a um resgate nostálgico do passado, mas a um gesto concreto de retirar camadas que encobrem a cidade. “Tem muitos prédios tombados que estavam recobertos, como que encapados, de placas de publicidade e identidade visual. Já melhorou bastante com a revitalização recém-inaugurada, mas ainda há muito a ser feito”, afirma.
Um retorno que se transforma em pesquisa
Com uma trajetória marcada por investigações sobre cidades brasileiras e estrangeiras, Letícia Lampert afirma que demorou a eleger São Leopoldo como objeto central de sua produção artística. Segundo ela, havia uma sensação de dívida simbólica com a cidade onde viveu por mais tempo, especialmente diante de tantos projetos realizados em outros contextos urbanos.
A artista explica que o livro surge também como uma forma de colocar São Leopoldo em debate, deslocando a crítica para um campo que busca contribuir com processos de valorização urbana. Ao trazer a cidade para o centro do trabalho, a proposta não é apontar soluções fechadas, mas estimular reflexões sobre como os espaços são organizados, percebidos e apropriados no dia a dia.
O livro como linguagem e experiência visual
Há uma cidade por trás é um livro de artista essencialmente visual, construído a partir da fotografia como ferramenta de leitura crítica do espaço urbano. O projeto gráfico assume papel central na proposta, utilizando a técnica da dobra francesa, que cria camadas sobre as imagens e oculta parcialmente os registros. Essa escolha estética, segundo a artista, dialoga diretamente com a experiência de quem caminha pela cidade e tem sua visão constantemente interrompida por obstáculos visuais.
Ao optar por não incluir imagens históricas, Letícia buscou evitar uma abordagem saudosista. A decisão de trabalhar exclusivamente com registros contemporâneos reforça a intenção de provocar consciência sobre o presente, sobre as transformações em curso e sobre as possibilidades de mudança que ainda se colocam para o futuro da cidade.
Patrimônio, identidade e participação social
Para a artista, a discussão proposta pelo livro ultrapassa os limites de São Leopoldo e se conecta a debates mais amplos sobre patrimônio, identidade urbana e cidadania. Na sua avaliação, a arte desempenha um papel fundamental na sensibilização do olhar, contribuindo para romper a naturalização de paisagens degradadas ou excessivamente poluídas visualmente.
Essa perspectiva dialoga com políticas públicas de preservação e com o direito à cidade, tema recorrente em debates urbanos contemporâneos. Ao evidenciar o que está oculto, o projeto tensiona a relação entre interesses econômicos, uso do espaço público e memória coletiva, sem estabelecer uma leitura única ou conclusiva.
Formação, acesso e circulação do trabalho
Além do livro, o projeto inclui ações formativas, como palestras e uma oficina voltada a artistas e professores de artes, reforçando o caráter público da iniciativa. Parte da tiragem será destinada a bibliotecas, escolas e instituições culturais, ampliando o alcance da obra para além do circuito artístico especializado.
Segundo Lampert, a circulação do trabalho é parte essencial do processo artístico. A artista destaca que o livro se completa quando chega ao público, especialmente quando pode ser acessado de forma democrática, estimulando leituras diversas e debates coletivos sobre a cidade.
Imaginar futuros possíveis para a cidade
A expectativa do projeto, de acordo com a autora, não é impor uma visão específica sobre São Leopoldo, mas provocar o senso crítico e incentivar a imaginação de outros futuros possíveis para o espaço urbano. “A cidade que eu quero é uma cidade acolhedora, bem cuidada, que valoriza sua história e projeta um futuro sustentável, acessível, de bem-estar social para todos”, diz.
O lançamento do livro ocorre em um contexto de discussões renovadas sobre requalificação urbana, preservação cultural e direito à memória, colocando a obra como uma contribuição artística e reflexiva para esses debates.

