Foi lançado, na noite de sexta-feira (27), o livro Como chegamos lá: uma leitura política sobre o Governo Olívio Dutra (1999-2002)organizado pela Escola Latino-Americana de História e Política (Elahp). A obra reúne artigos, entrevistas e registros históricos sobre a experiência do primeiro governo do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul e se propõe a mais do que revisitar o passado: busca analisar criticamente um ciclo político que marcou o estado e influenciou o cenário nacional. O evento de lançamento ocorreu na sede do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários), em Porto Alegre.
Durante o lançamento, Olívio Dutra falou sobre a importância da memória, da análise estrutural e da autocrítica. O ex-governador reconhece avanços, mas insiste que a esquerda precisa enfrentar seus próprios limites.
Ele afirma que o partido precisa “ter mais espraiamento, mais enraizamento”, retomando simbologias e práticas que o conectaram historicamente às bases populares. Para Dutra, o problema não pode ser reduzido à responsabilização individual ou a disputas internas.

“Política não é carreira, não é profissão. É compromisso com um projeto coletivo”, afirmou. Ele critica a visão de mandato como investimento pessoal e rebate a lógica segundo a qual o exercício do poder serve à reposição de interesses privados.
Para ele, o Estado não pode funcionar “bem para mim e para os meus amigos”, mas sim garantir direitos de forma universal, especialmente para a classe trabalhadora, historicamente excluída das decisões estruturais do país. “O Estado democrático, de direito republicano, na nossa visão, tem que funcionar bem, e bem melhor, e não para poucos, e nem para alguns. Tem que funcionar bem para todos, mas principalmente para a classe trabalhadora.”

Outro ponto central da fala do ex-governador foi a preocupação com o avanço do neoliberalismo, o crescimento do individualismo e a lógica de poder baseada na violência e na militarização. Ao mesmo tempo, defendeu que o debate político local não pode ser isolado das dinâmicas globais. “Não dá para naturalizar o mundo como ele está”, afirma, defendendo que a política deve recuperar seu sentido pedagógico e emancipador.
Para Dutra, a esquerda precisa transmitir suas experiências e, ao mesmo tempo, reconhecer o que não conseguiu superar. “Foi pouco, mas foi com o coração, com consciência e participação”, resumiu.
Governar com o povo
Organizado por Lucia Camini, Marcos Jakoby e Valter Pomar, com projeto gráfico de Emilio Font, o livro conta com textos de Arno Augustin Filho, Ary Vanazzi, Celso Augusto Schröder, David Stival, José Hermeto Hoffmann, Júlio Quadros, Paulo Peretti Torelly e Rosana Tenroller. A publicação traz ainda uma cronologia dos principais fatos do período, um caderno de imagens e uma entrevista extensa com o ex-governador Olívio Dutra.
“Lançamos um livro que conta a experiência do nosso governo em várias áreas. No meu artigo, falo sobre a habitação popular que construímos junto com os movimentos sociais, uma iniciativa que virou política nacional de habitação. Quando tivemos a oportunidade, implementamos esse modelo nas cidades e construímos milhares de casas populares. É uma história feita com o povo, para melhorar a vida do nosso povo. E hoje está retrado no livro”, destaca o ex-prefeito de São Leopoldo Ary Vanazzi.
Já para o deputado estadual Valdeci Oliveira (PT), a escrita do livro da história de Dutra é um gesto político. “Quem tem hoje 30 ou 35 anos muitas vezes não acompanhou aquela experiência. Se a gente não resgatar, isso se perde”, destacou.

Oliveira relembrou da eleição que venceu em Santa Maria, quando utilizou como referência o modelo implantado em Porto Alegre e no governo estadual. “Nós enfrentamos a elite local, tínhamos pesquisas com 4% ou 5%, mas dizíamos que íamos ganhar. E ganhamos. Uma das primeiras medidas foi implantar o orçamento participativo”, contou.
Segundo ele, a governabilidade foi possível graças à mobilização social: “Tínhamos minoria na Câmara, mas governamos com a comunidade, com a pressão popular. Isso foi fundamental.”

O parlamentar avaliou que o momento atual é de disputa intensa, marcada por discursos de ódio e intolerância. “É uma disputa que não é apenas ideológica. É uma disputa contra a violência e o preconceito. Por isso, lembrar nossa história é também fortalecer o fio condutor da resistência.”
Atualidade do livro
Durante o lançamento, a deputada estadual Sofia Cavedon (PT) destacou a atualidade das reflexões reunidas no livro. Segundo ela, decisões tomadas há mais de duas décadas continuam impactando o cotidiano da população gaúcha.
“Parece que estamos falando de 24 anos atrás, mas é extremamente atual. Neste dia 4 (quarta-feira), por exemplo, vão cair as cancelas de um pedágio da zona sul, resultado de um debate que já estava colocado naquele período”, afirmou. A parlamentar criticou concessões de longo prazo feitas sem amplo diálogo popular e disse que a experiência do governo Olívio oferece aprendizados sobre responsabilidade política.

Cavedon também enfatizou o papel da memória como ferramenta de disputa narrativa: “O registro da experiência feita, como nos ensina Paulo Freire, é fundamental. Nós tivemos grandes vitórias, mas também enfrentamos estruturas que não conseguimos alterar. Precisamos compreender isso para avançar.” Ela destacou a necessidade de formação política inspirada em referências Freirianas, defendendo uma pedagogia capaz de traduzir conceitos complexos em linguagem popular sem perder densidade teórica.
A deputada ressaltou ainda que a mídia empresarial mantém posição ativa no debate político. “A mídia tem lado na luta de classes. Nós precisamos enfrentar isso com mobilização e formação”, declarou, defendendo que a trajetória do governo seja estudada pelas novas gerações.
Conectar o projeto às novas gerações
O deputado federal Paulo Pimenta (PT/RS) também sublinhou a dimensão histórica do momento. Para ele, a experiência petista no RS ajudou a pavimentar o caminho que levaria o partido ao governo federal.
“Nós não somos espectadores dessas páginas da história. Somos protagonistas de uma das experiências mais importantes da luta democrática brasileira”, afirmou. Pimenta destacou que, para muitos jovens ao redor do mundo, o PT se tornou símbolo de resistência e transformação social.
“Tantos outros companheiros e companheiras que dedicaram a sua vida para construir esse projeto, para construir essa ferramenta de luta e de transformação, os seus erros, os seus acertos, que é o Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras. Por isso, que momentos como esses são tão importantes.”

Ao recordar sua trajetória de militância estudantil, ele ressaltou a importância de oferecer referências concretas para quem acredita na mudança social. “Se nós não contarmos a nossa história, ninguém vai contar. E nós precisamos debater de que maneira vamos nos reconectar com essa geração que também quer se apaixonar por um projeto coletivo.”
Escrever para disputar o sentido da história
Na voz de Olívio Dutra, o livro assume um tom que combina esperança e autocrítica. Não se trata apenas de recordar um período, mas de perguntar — com franqueza — que projeto de país está em construção e qual o papel da esquerda nesse processo.

Ao reunir análises, depoimentos e documentos, Como chegamos lá não se limita a revisitar um governo específico. A publicação coloca em debate temas estruturais: ética pública, participação popular, formação política, comunicação com a juventude e enfrentamento às estruturas tradicionais de poder.

