O governo Lula endureceu o tom com os Estados Unidos nesta semana ao revogar o visto de um assessor de Donald Trump que veio ao Brasil para se encontrar com Jair Bolsonaro na prisão, uma visita que não tinha qualquer agenda com o Itamaraty. A decisão foi anunciada pelo presidente como uma retaliação à revogação do visto do ministro Alexandre Padilha, de sua esposa e de sua filha por parte das autoridades estadunidenese.
O cientista político Pedro Fassoni Arruda avalia que a decisão de Lula não representa uma mudança de postura, mas uma reação a fatos novos. “O presidente Lula não age intempestivamente. Ele aguarda o desenrolar dos fatos. Ao longo desse processo, foi descoberto que um funcionário do Estado norte-americano tinha uma visita agendada com o ex-presidente hoje presidiário, sem nenhum contato com representantes oficiais do Estado brasileiro”, declara no Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato.
Ele destaca a imprevisibilidade de Trump como um desafio para qualquer negociação. “O humor do presidente Trump muda como biruta de aeroporto. A inexistência de um padrão é o padrão da política externa dele. Isso torna bastante difícil negociar, não só para o Brasil, mas para países tradicionalmente aliados, como os da União Europeia.”
Sobre o escândalo do Banco Master, Fassoni Arruda aponta que se trata de uma guerra de narrativas, semelhante à Lava Jato. “Tentam incriminar o presidente Lula, como foi na Lava Jato por conta de um recibo de pedágio. Quem deveria estar preocupado com o escândalo é o campo conservador. O governador do Distrito Federal, por exemplo, por conta do rombo bilionário na compra de créditos podres pelo BRB.”
Ele alerta que as pesquisas mostram uma eleição muito mais difícil do que se imaginava. “Os índices de aprovação de Lula se mantêm num nível muito baixo. Medidas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil não impactaram diretamente a opinião pública. Em 2022, a vantagem de Lula no segundo turno foi inferior a dois pontos percentuais. O bolsonarismo continua muito forte no Congresso e nos estados.”
Sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro, o cientista político é direto. “Ele tem chances. Vai ter palanques em muitos estados, como São Paulo, com Tarcísio de Freitas, e puxadores de voto como Nikolas Ferreira em Minas Gerais. Vai ser uma disputa acirrada.”
Fassoni Arruda vê com ceticismo a possibilidade de avanço de pautas como o fim da escala 6×1. “É muito difícil ser votado. A maioria dos parlamentares jamais trabalhou um dia na escala 6×1. São empresários, fazendeiros, banqueiros. O poder do capital está fortemente presente no Congresso.”
Sobre a crise no Supremo Tribunal Federal, Fassoni Arruda acredita que, com a aproximação das eleições, a CPI tende a perder força, mas o problema é mais profundo. “A oposição conservadora está explorando esse fato. A renovação de dois terços do Senado em outubro pode mudar a correlação de forças e até viabilizar o impeachment de ministros do STF, o que abriria um precedente perigoso.”
Brasil na mira dos EUA: a classificação terrorista e seus riscos
A professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) Jana Silverman analisa a pressão estadunidense sobre o Brasil no contexto mais amplo da política externa de Trump. “O governo Trump está operando em várias frentes. Brasil, Venezuela, México, Cuba, Colômbia. O Brasil é uma ficha entre outras, mas é uma potência na região e tem a eleição mais importante do ano.”
Sobre a possível classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, Silverman é enfática. “É muito perigoso em vários níveis. Isso pode abrir justificativa para presença militar dos EUA, como vimos no Equador com a abertura de um escritório do FBI. Também pode levar a sanções econômicas, ingerência em comunicações e uso politizado de leis como a Lei Magnitsky.”
Ela lembra que a invasão da Venezuela em janeiro começou com essa mesma justificativa de combate a cartéis ligados ao narcotráfico. “É uma forma de intervenção direta e indireta.”
Silverman avalia que Lula está certo ao endurecer o discurso. “Ele está marcando território, voltando aos princípios da tradição da política externa brasileira: multilateralismo, soberania nacional, conexões com o Sul Global. Trump está numa saia justa enorme com a guerra no Irã, e quem está ocupando o espaço em relação ao Brasil é a extrema direita ideológica, os neonazistas.”
Ela cita o caso de Darren Beattie, assessor que teve o visto revogado. “Ele não é embaixador, é um funcionário de baixo escalão. Só tem importância porque a ala mais fascista do governo Trump está colocando ele. Lula está reagindo, e acho que até chegou tarde.”
O cenário que se desenha é de um ano eleitoral complexo, com pressões externas, disputas internas e uma correlação de forças que exige atenção e mobilização do campo progressista.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

