No discurso durante a abertura da 68ª Cúpula do Mercosul, no Paraguai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não citou o presidente estadunidense Donald Trump, mas declarou que “os países da América Latina não devem se alinhar automaticamente”, em clara alusão ao avanço da extrema direita no continente.
A analista internacional Amanda Harumy avalia que Lula vive hoje um processo de isolamento na América Latina com as recentes derrotas da esquerda e, por essa razão, a ideia agora é buscar consensos.
“A gente tem que destacar que, de fato, o Mercosul não tem essa homogeneidade ideológica, ele não carrega em si essa agenda ideológica, como os outros projetos, como, por exemplo, a Unasul, que tinha um caráter mais estratégico. O Lula dá esse discurso político sobre a necessidade de um consenso mínimo, destacando também que o que ele tem apresentado são propostas de integração regional”, afirma em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato.
Harumy argumenta que instrumentos multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Conselho de Segurança, se enfraqueceram no que diz respeito à capacidade efetiva de julgar países ou exercer força coercitiva, servindo prioritariamente como espaços para denúncias. E esse cenário se dá muito por movimentos do governo Trump, que passou a trabalhar para esvaziar esses instrumentos.
“A conjuntura é entender se o multilateralismo deve ser abandonado, se não tem nenhum acúmulo importante para a sociedade ou se esse esvaziamento do próprio Estados Unidos não significa uma perda de hegemonia e de influência política dos Estados Unidos, que pode ser substituída por outros atores, inclusive como a China, por exemplo”, destaca.
A analista também avalia o estrangulamento que continua sendo promovido pelos Estados Unidos contra Cuba e alerta que diplomacia é ferramenta e não política externa. “Política externa é a capacidade de poder e projeção de influência de um país. E aí a gente pode analisar o Irã mesmo, que tem hoje uma capacidade de poder real, tanto em relação ao Estreito de Ormuz ou até mesmo um contra-ataque militar nas bases militares dos Estados Unidos nos seus aliados. Isso, sim, reflete a dinâmica atual e não diplomática que está posta”, destaca Amanda Harumy.
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