Mapa da Mulher Carioca: 3 em cada 5 estupros no Rio são de adolescentes

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A 5ª edição do Mapa da Mulher Carioca, lançado pela Prefeitura do Rio nesta terça-feira (3), apresenta diversos contextos que impactam a vida das mulheres na cidade. O levantamento traz indicadores sociais, econômicos e de segurança pública divididos em eixos como violência, cuidados, saúde, educação, emprego e renda.

Em 2024, houve 5.700 notificações de violência contra adolescentes, com 3 em cada 5 casos das vítimas de violência sexual sendo meninas. A maioria ocorreu dentro da residência (46,9%), e foi cometida por familiares (61,2%).

O município tem 223.811 meninas de 0 a 6 anos e 356.528 adolescentes de 10 a 19 anos, das quais 59% são pretas ou pardas. Além disso, em 2025, foram registrados 5.341 nascimentos de mães adolescentes: 74,2% de meninas negras.

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As mulheres são a maioria das vítimas de ameaça (65,5%) e dos casos de lesão corporal no município: foram 42.107 em 2024, o equivalente a 64,9% dos registros. A violência sexual mantém o mesmo padrão: das 1.701 notificações, 85,8% tiveram mulheres como vítimas, com mais de mil envolvendo crianças e adolescentes.

O levantamento também evidencia disparidades entre gênero no tempo dedicado ao trabalho doméstico, aumento de lares com pais ausentes, maior vulnerabilidade social de mulheres negras e o aumento do encarceramento feminino.

Confira o panorama dos dados:

Violência

De 2020 a 2024, o registro de feminicídios triplicou no município, chegando a 51 casos consumados, além de 117 tentativas. Sete em cada dez vítimas eram mulheres negras e 76,5% dos crimes aconteceram dentro de casa. Em dois terços dos casos, o autor era companheiro ou ex-companheiro.

Nos crimes sexuais registrados no mesmo ano, elas representaram 90,8% das vítimas de importunação sexual, 90,84% de assédio sexual e 86% dos casos de estupro e estupro de vulnerável, dos quais dois terços envolveram crianças e adolescentes.

A Patrulha Maria da Penha realizou 73.700 fiscalizações em 2024 e 2025; a Ronda Maria da Penha ampliou o atendimento de 3.761 mulheres em 2023 para 5.951 em 2025.

Os Centros Especializados de Atendimento à Mulher (CEAMs) e Núcleos Especializados de Atendimento à Mulher (NEAMs) somaram 25.385 atendimentos; o Abrigo Casa Viva Mulher Cora Coralina realizou 4.119 atendimentos; e as Casas da Mulher Carioca contabilizaram 176.373 atendimentos.

No último ano, o estado do Rio ocupou a terceira posição em feminicídios no Brasil, com 104 vítimas. A violência doméstica alcançou mais de 23,6 milhões de brasileiras, sendo mais de 2,5 milhões no estado. Em 71% das agressões com testemunhas, foram crianças que presenciaram a violência.

Emprego e renda

A inserção feminina no mercado de trabalho no Rio se concentra no setor de serviços, responsável por 77,15% das novas ocupações, com destaque para educação (71,61%) e saúde (62,58%).

No 3º trimestre de 2025, o rendimento médio da mulher carioca foi de R$ 4.836, equivalente a 75% do rendimento masculino (R$ 6.403), uma diferença de R$ 1.567 mensais.

A taxa de desocupação feminina é de 8,9%, entre mulheres negras o índice é de 10,6%. Entre as ocupadas, 34% atuam na informalidade, índice que atinge 41% das mulheres negras.

Cuidado

As cariocas dedicam cerca de 19 horas e 49 minutos semanais ao cuidado e aos afazeres domésticos, enquanto os homens dedicam 12 horas e 25 minutos. A diferença representa 364 horas a mais por ano de trabalho não remunerado.

Além disso, elas concentram 85,2% do preparo de alimentos e 81,9% da lavagem de roupas. Mulheres negras ultrapassam 20 horas semanais e são maioria no cuidado de parentes no domicílio.

Outro dado que chama atenção é o aumento de 4,5% nos registros de pais ausentes entre 2020 e 2025. Além disso, 15,9% dos domicílios são compostos por mulheres sem cônjuge com filhos, frente a 2,3% entre homens na mesma condição.

Saúde

Em 2025, foram registrados 1.110 óbitos por câncer de mama e 227 por câncer do colo do útero. A razão de mortalidade materna foi de 48,7 por 100 mil nascidos vivos em 2024 e 73,3 em 2025.

Entre mulheres com sífilis adquirida, 53,2% são negras; entre as notificadas com HIV, 88,5% são negras. Das 8.332 notificações de tentativa de suicídio e automutilação, cerca de dois terços envolveram mulheres.

Educação

As mulheres representam 57,2% das matrículas e conclusões no Ensino Superior no município. Na Educação Básica há equilíbrio entre os sexos, com 39,5% das alunas sendo negras, e nos GETs a participação é equilibrada, com maioria de meninas negras.

Elas também são maioria entre profissionais da rede municipal (83,5%) e na gestão escolar privada (79,9%). Apesar disso, os homens apresentam proporcionalmente maior titulação em mestrado e doutorado, indicando desigualdades na progressão acadêmica.

Assistência social

No biênio analisado, o Programa Lares Cariocas realizou 21 acolhimentos de mulheres gestantes e mães com filhos de até dois anos em situação de rua. Em 2025, 201 jovens mulheres cumpriam medidas socioeducativas, um crescimento de 16,8%, e o Programa Família Acolhedora atendeu 88 meninas.

No Cadastro Único, 61,1% das pessoas inscritas são mulheres e 75% das famílias são chefiadas por elas, das quais 68,4% são negras.

Encarceramento

A população feminina no sistema prisional passou de 3.366 mulheres no início de 2024 para 3.485 no primeiro semestre de 2025, crescimento de 3,5%, enquanto a população masculina, que caiu cerca de 4,5%.

O município conta com apenas quatro unidades femininas, sendo uma com berçário, e a primeira creche do sistema foi criada em 2025. A estrutura de saúde é limitada: há quatro ginecologistas para atender todas as mulheres privadas de liberdade.

As visitas caíram de 7.050 em 2024 para 974 em 2025, redução de 86,2%, indicando maior isolamento no cárcere feminino.

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