Marcelo Freixo: ‘Flávio Bolsonaro é de extrema direita e defensor da ruptura democrática’

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Marcelo Freixo acaba de lançar o livro Viver é perigoso — minha travessia no Rioque entrelaça sua história na política e na militância pelos direitos humanos com a história da cidade do Rio de Janeiro e suas diversas contradições.

Ó Entrevista com BdF desta quarta-feira (22) recebe o ex-deputado federal e ex-deputado estadual, que recentemente saiu da presidência da Embratur para se candidatar a deputado federal pelo PT.

Freixo detalha o processo de escrita do livro, que durou quatro anos, e avalia a conjuntura política atual de contínua polarização. “A política é o lugar do diálogo. E a gente está perdendo isso na direita e na esquerda. A gente está refém dos aparelhos celulares, de selfie e de story. A gente precisa retomar a política na sua natureza, como deve ser”, defende.

De olho nas eleições de 2026, avalia a postura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à presidência e principal oponente de Lula, que tem procurado construir uma imagem, em especial nas redes sociais, de moderação, razoabilidade e de referência de uma dita direita democrática. Freixo, que conviveu com Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), rechaça essa narrativa.

“Flávio Bolsonaro não é um representante da direita. Flávio Bolsonaro é um representante da extrema direita. Flávio Bolsonaro cansou de fazer campanha no Rio de Janeiro com uma camisa, com um retrato do Garrastazu Médici, dizendo: ‘Eu era feliz e sabia’. Este é Flávio Bolsonaro ao lado do seu pai. Ele é um defensor das ditaduras, sempre defendeu a ruptura da democracia. Sempre. Votou contra a instalação da CPI das milícias para investigar crime organizado, foi um deputado que homenageou, condecorou e entregou medalha Tiradentes para vários milicianos. Então, o Flávio Bolsonaro tem relações com o que o Rio de Janeiro se transformou”, afirmou.

Morte do irmão, Marielle e milícias

O livro Viver é perigoso minha travessia no Rio começa no julgamento de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, condenados pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, em 14 de março de 2018, que foi assessora e parceira política de Freixo. Ele conta que o livro, escrito em coautoria com o jornalista Bruno Paes Manso, não é sobre sua trajetória, mas sobre a história política do Rio de Janeiro.

“Eu narrava para o Bruno, eu contava, destrinchava as histórias que eu tinha vivido, os bastidores, o que foram as campanhas, o que foi a CPI das milícias, o que foi a morte do meu irmão, o que foi a morte da Marielle, o que foi um jovem de periferia virar professor, o que foi ser professor em presídio, como é que eu fui parar mediando rebeliões e presídios, que Rio de Janeiro é esse que foi se construindo nisso que a gente hoje está vendo no Rio, uma crise política das mais profundas, oito governadores afastados, seis governadores presos. Como é que você entende melhor o Rio de Janeiro? Eu acho que o que eu vivi muito intensamente, como personagem dessa história recente do Rio, ajuda a entender o Rio. Então, eu achei desde o início que o livro tinha uma utilidade para outros, e não para mim”, avalia.

Freixo conta que decidiu expor a história da morte do irmão dele, Renato, pouco explorada publicamente, e a relação desse fato com sua luta contra as milícias, em 2006. “Ele era muito correto, muito honesto, e virou síndico do condomínio (onde ele morava), e quem fazia a segurança do condomínio era um grupo irregular de segurança composto por policiais vinculados a outras práticas não corretas. E ele exigiu que esses policiais fizessem uma empresa. Os policiais não aceitaram, porque era tudo pago por fora, tudo irregular. Ele insistiu, eles entraram na Justiça contra o meu irmão, perderam a ação e mataram o meu irmão”, relata.

No ano seguinte, já como deputado estadual, Freixo entra com o pedido de abertura da CPI das milícias, mas ninguém quer assinar. O processo só vai adiante depois do sequestro e tortura da equipe de jornalistas do jornal O Diamomento em que a imprensa, sob forte comoção, começa também a mobilizar a opinião pública para esse debate.

Freixo se torna presidente da CPI e conta que, desde o primeiro momento, procurou não trazer à tona a história do irmão para não parecer que estava querendo levar adiante a investigação como uma espécie de “justiçamento” ou vingança. “A gente foi muito profissional, muito correto, montou uma equipe técnica, foi a CPI mais importante da história da Assembleia Legislativa. A gente mudou a opinião pública sobre
milícia, levou à prisão 242 milicianos, entre eles deputados e vereadores, pegou toda a cúpula da milícia, botou o Ministério Público, Polícia Civil e a Assembleia Legislativa para trabalhar juntos, fez uma força-tarefa e um conjunto de propostas concretas”, conta.

Berço do bolsonarismo

O livro também se dedica a falar sobre a ascensão da extrema-direita no Brasil e como o Rio de Janeiro gestou o bolsonarismo. Segundo Freixo, esse cenário modificou sensivelmente as dinâmicas de disputa política, transformando antigos adversários de centro direita em aliados na direção de tentar derrotar esse processo de “milicialização da política”.

“Você está falando de um lugar onde milícia, política e campanha não se separam. Você está falando de um lugar onde o crime tem projeto de poder. Você está falando de um lugar onde o presidente da Assembleia Legislativa é preso por relação ao Comando Vermelho”, diz, em referência à prisão de Rodrigo Bacellar (União Brasil).

“O maior desafio político hoje é derrotar o crime na política. Não é só o crime nas ruas, é derrotar o crime enquanto um projeto de poder no Rio de Janeiro. Isso é diferente de tudo que a gente já tinha vivido, inclusive em 2012 ou 2016”, afirma.

“É muito impressionante o que eu vi acontecer com o Rio de Janeiro, como o Rio de Janeiro foi chegar onde chegou. Agora, é um livro de quem acredita no Rio e é um livro de amor ao Rio, porque eu acho que a gente não pode abrir mão de um lugar como esse pela sua potência também”, destaca Freixo.

Para ouvir e assistir

Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

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