Mercados venezuelanos funcionam dentro da normalidade e não sofrem com desabastecimento após ataques dos EUA

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Mesmo depois do bombardeio dos Estados Unidos contra Caracas, os supermercados, açougues e quitandas da Venezuela seguem cheias. O desabastecimento não acontece na vida dos venezuelanos desde 2019, e essa realidade não mudou com a invasão militar estadunidense no último dia 3 de janeiro, que culminou no sequestro do presidente do país, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cilia Flores.

Para quem vive na capital venezuelana, a dinâmica das compras chegou a mudar rapidamente após a ofensiva, mas foi normalizada logo em seguida. O Brasil de Fato ouviu relatos de moradores de Caracas, o lugar mais atingido pelo bombardeio estadunidense, e pôde constatar a normalização do abastecimento a partir de conversas com trabalhadores e de registros feitos pelos próprios venezuelanos.

Se em um primeiro momento as pessoas saíram para estocar comida com medo de uma instabilidade e do retorno a um estágio de caos social, na terça-feira (6), o cenário de normalidade já tinha voltado ao país, mesmo com o trauma de uma operação direta estadunidense.

Para quem vê de fora, nesta quinta-feira (8), o movimento em Caracas parecia um dia como outro qualquer. Uma parte menor do comércio estava fechada, mas em virtude de algo que os venezuelanos atribuem mais às férias de final de ano do que ao medo de novos ataques.

Eder Peña é pesquisador do grupo venezuelano Missão Verdade e saiu de casa no começo da tarde para levar o carro para o conserto. Ele afirma que em todos os mercados que passou, não sentiu falta de nada e muito menos de movimento atípico de comerciantes e consumidores.

“O número de lugares abertos está acima de 70%. Há estabelecimentos fechados pelas compras de natal e as férias até 15 de janeiro. No entanto, a zona em que eu vivo é uma rua de muita atividade econômica na região. Não só há estabelecimentos abertos como também ambulantes vendendo. Desde terça houve uma abertura progressiva dos estabelecimentos”, disse ao Brasil de Fato.

Vitrine de açougue repleta de produtos em Caracas
Vitrine de açougue repleta de produtos em Caracas | Crédito: arquivo pessoal

Para quem trabalha fora de casa, foi possível perceber a retomada das feiras de rua e do comércio de rua.

“No sábado foi muito estranho, tudo fechado, até o metrô e o transporte público. Mas depois do domingo a retomada foi gradual. As feiras que não apareceram no sábado foram sendo retomadas nos dias seguintes”, disse a professora Tereza Maiquelis.

A aparente normalidade no dia a dia do venezuelano só pode mudar se a economia tiver alterações. Peña afirma que os efeitos dos ataques poderão ser sentidos em algumas semanas por dois fatores. Primeiro porque, como os militares estadunidenses não ficaram em território venezuelano, o cenário das ruas segue o mesmo, com um aumento do policiamento.

Depois porque os salários dos venezuelanos são pagos quinzenalmente e, como os trabalhadores ainda não receberam o pagamento do dia 15, a dinâmica está muito parecida com um mês normal, no qual, a cada duas semanas, o comércio enche e o consumo aumenta.

“É possível que tenha impacto pela entrada de dólares nas próximas semanas, especialmente pelo aumento do bloqueio, mas também pelos ataques a espaços estratégicos, como portos e aeroportos. Isso, sim, pode ter efeito na economia. Nos primeiros dias, o dólar paralelo disparou, isso influenciou, mas é especulativo dos mercados. Mas isso normalizou com o passar da semana”, disse Peña.

Comércio sofreu uma redução de compradores logo após os ataques, mas situação passou a se normalizar na terça-feira (6)
Comércio sofreu uma redução de compradores logo após os ataques, mas situação passou a se normalizar na terça-feira (6) | Crédito: arquivo pessoal

O dólar paralelo é um dos principais instrumentos de pressão econômica de agentes do mercado, porque pressiona o câmbio oficial a partir de uma cotação que é ilegal. O dólar paralelo é usado em transações na rua, fora do comércio formal. No entanto, apesar do alto uso da moeda estadunidense na Venezuela, o bloqueio e as sanções fazem com que seja difícil acessar o dólar no câmbio oficial no país. Por isso, muitas pessoas que vendem dólar acabam usando a cotação paralela, já que é mais vantajosa para quem tem a moeda estadunidense.

O aumento da cotação paralela empurrou para cima o dólar oficial e, em um país que se viu forçado a usar o dólar, o impacto nas contas dos venezuelanos foi imediato.

Ainda assim, esse movimento já é sentido pelos trabalhadores desde o começo das sanções estadunidenses, em 2015. O bloqueio prejudicou a moeda local e criou um cenário de desestabilização profunda na Venezuela.

A jornalista venezuelana Maria Mendez, no entanto, não viu muita diferença em relação ao que o país experimentou nos últimos anos.

“Não vejo desabastecimento. Um dos açougues aqui perto está cheio. Tem proteína, vegetais, tudo normal. A rua principal da região que eu moro continua muito movimentada essa semana, então a dinâmica não mudou em relação ao que se tinha antes. É claro que a desvalorização do bolívar atrapalha muito, mas não é como se não sentíssemos isso antes”, afirmou.

Soberania alimentar

O período mais duro da crise venezuelana fez com que o governo se mobilizasse para encontrar alternativas possíveis. Uma delas foi aumentar a produção local. O presidente Nicolás Maduro reforçou nos últimos anos que o país hoje produz quase 97% dos produtos que consome. Ainda que não especifique quais são os principais alimentos importados, o governo bateu na tecla da busca pela “soberania alimentar” para evitar novos períodos de crise.

Esse esforço é reconhecido até pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A Venezuela se consolidou, de acordo com a organização, como um país que luta contra a fome e que conseguiu baixar a taxa de subnutrição em 11,7% entre 2022 e 2024, tirando 3,3 milhões de pessoas da fome.

A própria FAO reconhece nos seus informes o impacto do bloqueio econômico sobre a população venezuelana e afirma que as medidas coercitivas acabam impactando no poder de compra da população, o que leva à incapacidade de comprar produtos básicos para a alimentação.

Uma das estruturas para isso foi a Grande Missão Alimentação. A principal ferramenta foram os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (Clap). O programa buscava combater o desabastecimento com distribuição de cestas básicas através de organizações comunitárias, mas acabou se tornando uma política permanente de distribuição de alimentos.

Somado a isso, o país também passou a estruturar um plano produtivo para garantir a soberania alimentar e dar cada vez mais protagonismo para a agricultura familiar na estruturação da produção. O caso mais recente foi um território de 180 mil hectares no sul do país destinado à produção de alimentos orgânicos em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

A partir daí, a Venezuela deu um salto no acesso e aumentou a disponibilidade de alimentos em mais de 500% entre 2016 e 2024, ou seja, 1.378 gramas por dia.

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