Mesmo com a decisão do Banco Central de baixar em 0,25 ponto percentual a taxa básica de juros no Brasil, anunciada nesta quarta-feira (17), o indicador segue entre os mais altos do mundo.
Iago Montalvão, doutorando em Economia na Unicamp e pesquisador do Transforma-Unicamp, destaca, no entanto, que qualquer redução na taxa básica de juros, a Selic, gera impacto ao abrir espaço para a atividade produtiva, para o investimento e para que o país possa crescer.
“Em termos reais, (a taxa de juros do Brasil) é a maior do mundo, à frente, inclusive da Rússia e da Turquia, que são os dois países que vêm na sequência em termos de juros reais. O que mais preocupa, além da pequena redução, é o anúncio de uma interrupção de um ciclo de cortes. A gente tinha uma expectativa de reduções maiores na taxa de juros, mas, em função da guerra, do choque do preço do petróleo, o próprio Banco Central tem adotado um tom mais cauteloso”, explica em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato.
Montalvão discorda das críticas que focam no tamanho da redução. “Essa redução foi bastante criticada pelo setor financeiro, o que, na minha opinião, é um equívoco — ou melhor dizendo, de maneira mais apropriada, é uma maneira de manter os interesses do rentismo financeiro no Brasil”, aponta. “Cada ponto percentual na taxa Selic é mais rendimento dos títulos indexados à Selic, que transferem muita renda para esses rentistas.”
Inflação
Sobre o fim da guerra no Irã e a tendência de redução na inflação, Iago Montalvão acredita que o impacto vai acontecer, mas em ritmo lento. “Existe um processo difícil até você conseguir recompor preços mais baixos, até essas pressões inflacionárias irem se dissipando”, explica.
Ele elogia a forma com que o governo Lula conduziu a situação de impacto interno. “Em comparação à média global, o Brasil conseguiu ter uma situação relativamente mais confortável em relação ao aumento de preços de combustíveis. Você teve um aumento no diesel, na gasolina, muito menor do que em outros países. E isso acontece porque temos a Petrobras, temos uma política soberana de preço que não segue os aumentos internacionais. As medidas de subvenção e isenção fiscal também contribuíram”, destaca.
Os laços do Banco Central com o mercado financeiro
O economista critica a autonomia do Banco Central nesse cenário, porque desvincula a política monetária de uma política de Estado e favorece o que é chamado no meio econômico de “porta giratória”.
“Quando a gente fala de autonomia, a gente sempre pergunta: autonomia de quem e para quem? Porque, de alguma maneira, o Banco Central está sendo influenciado e, quando você o desvincula das decisões políticas democraticamente eleitas, você o deixa mais próximo de se vincular aos interesses privados, principalmente do setor financeiro, que é quem tem poder de influência e de pressão junto ao Copom e a toda a estrutura decisória do Banco Central. Isso, inclusive, favorece um processo que a gente chama de ‘porta giratória’: grandes dirigentes de bancos privados entram no Banco Central, passam a ocupar determinadas posições, principalmente em governos mais vinculados à direita ou ao neoliberalismo, dirigem a política monetária no Brasil e, depois, retornam aos bancos privados”, avalia Montalvão.
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