A briga pública entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e seu enteado, o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) expõe um racha no clã Bolsonaro, divisões dentro do PL e pode impor uma reorganização do cenário eleitoral para a extrema direita.
Michelle postou um vídeo de cerca de 15 minutos em que alega ter sido desrespeitada, maltratada e humilhada, em meio a divergências dentro da família Bolsonaro sobre as alianças do PL no Ceará. A ex-primeira-dama disse que não fala com Flávio desde o ano passado, que ele teria dito à madrasta que ela não entende nada de política. Além disso, Michelle adotou um discurso sobre a importância da representatividade feminina, que, segundo ela, foi uma missão dada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro a ela. Depois disso, Flávio divulgou pedido de desculpas público.
Para o cientista político Rudá Ricci, o episódio tem grande potencial de impactar os arranjos eleitorais da extrema direita. Alguns políticos do campo conservador, como a governadora do DF, Celina Leão (PP), e o vice-prefeito de São Paulo, Coronel Melo Araújo (PL), já se posicionaram a favor de Michelle.
“Ela escolheu falar sobre esse assunto que ela diz que iniciou em 2025 e agora ela posta inteligentemente: ‘Não tenho problema nenhum, não tenho ódio. Eu já perdoei, embora eu não esqueça’. Significa que o Flávio agora está na mira dela. E por que ela publicou o vídeo ontem? São 30 dias antes da convenção partidária do PL, que será dia 25 de julho, quando o partido vai formalizar a chapa do candidato a presidente. Não há dúvida em relação a isso. Ela colocou o nome como substituta do Flávio”, avalia Ricci, em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato.
Ricci destaca que Michelle endereça a mensagem do vídeo para as mulheres evangélicas, e isso não é por acaso. “A última pesquisa da Datafolha revelou que os evangélicos estão deixando a candidatura do Flávio pouco a pouco. Estão indo para o Lula. Ela está percebendo que a figura do Flávio Bolsonaro está decompondo o espólio do (ex-presidente) Jair Bolsonaro, em especial nesse campo, nesse segmento tão importante para o bolsonarismo, que são os evangélicos. Para resumir, ela abriu uma disputa interna violentíssima contra a candidatura do Flávio. Isso cria um problema enorme para a campanha dele e para o PL, porque agora, além dele ter que se defender sobre o caso Vorcaro, tem que se defender internamente contra a madrasta dele, que disse que ele a ataca nos bastidores”, afirma.
Como vantagem para Michelle, o cientista político destaca a relação próxima com o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, que ele define como uma figura política peculiar. “Ele tem uma resiliência, nem sempre sai por cima, mas nunca se machuca, parece virar a página rápido das coisas que acontecem. Ele é um suporte político importantíssimo da Michele e atuou nos bastidores nos últimos tempos para ela ser a candidata. Na verdade, ele queria o (governador de São Paulo) Tarcísio de Freitas e a Michelle como vice. Mas ele atua como a Michelle: morde o calcanhar, mas não mostra a mordida. E ela tem força dentro do PL, sim. Ela é o principal nome que poderia substituir Flávio”, analisa Rudá Ricci.
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