O Brasil de Fato estará publicando este artigo em partes:
Parte 1 – INTRODUÇÃO e ANTECEDENTES
Parte 2 – PROTAGONISMO INDÍGENA, NHEÇU – RESISTÊNCIA A DOMINAÇÃO ESPANHOLA
Parte 3 – PROTAGONISMO INDÍGENA, NENGUIRU E ABIARÚ – DERROTANDO BANDEIRANTES ESCRAVISTAS
Parte 4 – PROTAGONISMO INDÍGENA, SEPÉ TIARAJU – TIERRA O MUERTE
Parte 5 – PROTAGONISMO INDÍGENA, ANDRESITO GUASÚRARI E A LIGA DE LOS PUEBLOS LIBRES, CONSIDERAÇÕES FINAIS e FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Até o início do século 19 o Rio Uruguai não era uma fronteira, era somente um rio que cortava o Vice-reino do Rio da Prata(1) e o território das Missões, pertencente ao Reino da Espanha. Um rio que não dividia, mas unia pela navegação os povos missioneiros. Em 1632 em terras ao leste do Rio Uruguai, no Tape (hoje Rio Grande do Sul/Brasil), foi fundada a Redução de Santo Tomé. Em decorrência dos ataques dos bandeirantes é reassentada, em 1639, na margem oeste deste rio (na atual Província de Corrientes/Argentina). Em 1682, jesuítas e famílias de Santo Tomé, cruzaram o Uruguai e em sua margem leste criaram a Redução São Francisco de Borja. Nestas cidades irmãs cresceu Andrés Guasúrari(2) (Andresito), que, segundo pesquisadores, nasceu no ano de 1778 em São Borja.
Na América Latina, na virada do século 18 para o 19, povos originários, negros libertos e escravizados, mestiços, brancos pobres, submetidos a brutal exploração do trabalho e a precárias condições de vida, juntamente com as elites locais (descendentes de colonizadores nascidos na América) relegadas politicamente pelas coroas e influenciadas pelo “iluminismo”, promoveram movimentos de contestação e de emancipação do regime colonial. Como exemplos registro a “Rebelião Tupac Amaru” (1780 – comandada pelo indígena Condorcanqui(3)) contra a Coroa Espanhola e as rebeliões dos negros escravizados na colônia francesa de Saint Domingue(4), que culminaram, em 1804, na sua independência da nascente República da França.
Em 1808, a França, governada pelo imperador Napoleão Bonaparte, ocupou a Espanha e aprisionou a família real (“Guerras Napoleônicas”), implicando no enfraquecimento da administração colonial espanhola. Nesta conjuntura os movimentos pela independência das colônias na América Latina se intensificaram. No Vice-reino do Rio da Prata e no extremo sul do Brasil colonial, grupos diversos, envolvendo criollos, luso-brasileiros, povos originários, negros, gaúchos, firmaram e romperam alianças de acordo com interesses e projetos diferenciados. A participação dos indígenas, negros e gaúchos, em alguns casos foi compulsória, noutros por escolha que lhes garantissem a sobrevivência imediata e, ainda, que lhes dessem perspectivas de igualdade e autonomia.
Em Buenos Aires, em maio de 1810 (Revolução de Maio), foi organizada a “Primeira Junta”(5), que desconheceu as autoridades espanholas e depôs o vice-rei e resultou, em fevereiro de 1811, nas Províncias Unidas do Rio da Prata. Ainda em 1810, em Assunção (Paraguai) foi formada outra Junta, desvinculada de Buenos Aires, promovendo em 15 de maio de 1811(6) a deposição do governo espanhol local e se declarando autônoma em relação às Províncias Unidas.
Em 1811 uma força armada com grande contingente de indígenas, mestiços, gaúchos, negros, camponeses, comandadas por José Artigas, avançaram rumo a Montevideo, na Banda Oriental (atual Uruguai), onde a realeza espanhola (“realistas”), apoiada pelos luso brasileiros, resistia. No entanto, um acordo entre os realistas e o Governo de Buenos Aires (Províncias Unidas do Rio da Prata) impediu Artigas de conquistar Montevideo. Contrariado, o comandante e milhares de seguidores se retiraram para Entre Rios (Argentina), num movimento que ficou conhecido como “Êxodo do Povo Oriental”, onde permaneceu até setembro 1812.
Integrando as tropas revoltosas contrarias ao domínio espanhol, estava o guarani missioneiro de São Francisco de Borja e Santo Tomé Andrés Guasúrari, que em 1811 lutou em Assunção e na Banda Oriental, onde conheceu e fez amizade com o General José Artigas. Os laços de amizade se estreitaram e o General adotou Guasúrari como filho, o qual incorporou no “exército libertador”, com o nome de Andrés Guasúrari y Artigas. Foi precursor indígena em ocupar graduação como oficial em exército regular, passando a ser conhecido como comandante Andresito Artigas.
Em 1813 a Junta das Províncias Unidas do Rio da Prata, convocou para realização em Buenos Aires a Assembleia Geral Constituinte (ou “Assembleia do Ano XIII”) buscando unidade política e territorial de um país independente da Espanha. No entanto a província do Paraguai e de Entre Rios, onde estava Artigas, divergiram por serem contrários ao centralismo e a sujeição ao governo portenho.
Defensores de ideais federalistas, províncias autônomas e de uma reforma agrária com expropriação dos latifúndios e distribuição das terras aos pobres do campo, Artigas e Guasúrari organizaram entre 1814 e 1815 a “Liga de Los Pueblos Libres”(7), conformada pelos territórios de Entre Rios, Santa Fé, Corrientes e Córdoba (as quatro na atual Argentina); das Missões guaranis (terras em parte do Paraguai, Argentina e do Rio Grande do Sul/Brasil) e da Banda Oriental (Uruguai), cujo controle foi assumido militarmente em 1815. Ricardo Ritzel, em artigo dedicado a Andresito, cita fala de Artigas que sintetiza as ideais da nova Liga, uma nação onde “Los más infelices serán los más privilegiados”. Para Andresito a Liga possibilitava a retomada das terras missioneiras, usurpada por portugueses e espanhóis, após as Guerras Guaraníticas e, em suas palavras, “que cada pueblo si govierna por si”. Como avalia Felipe Schulz Praia, este projeto “propunha a subversão de uma hierarquia étnica e social estabelecida durante o período colonial tanto na América espanhola como na América portuguesa ao trazer um discurso baseado no componente do igualitarismo”.
Andresito foi nomeado, em 1815, comandante geral de Missiones, sendo um dos seus objetivos a reunificação dos Trinta Povos, incluindo os Sete Povos da margem esquerda do Rio Uruguai, anexado militarmente a Portugal em 1801.
Em 1815 foi realizado o “Congresso dos Povos Livres”, com representações das províncias formadoras da Liga, reafirmando a independência e o federalismo e rejeitando a participação na centralizadora Províncias Unidas do Rio da Prata. Desta forma, a Liga não compareceu ao “Congresso de Tucumán”, em 1816, que formalizou a independência das Províncias Unidas.
Estimulados por estas cisões nos movimentos de independência platinos e preocupados com a influência política da Liga sobre os guaranis e ações militares comandadas por Andresito em território dos Sete Povos, Portugal retomou suas pretensões de expandir seus limites imperiais até a margem esquerda do Rio da Prata. Em 1816 um exército português de 10.000 homens atacou a Banda Oriental. Após várias batalhas contra as forças comandadas por Artigas e Guasúrari, em 1820, para alegria dos grandes comerciantes e latifundiários orientais, os lusos vencem a guerra, anexando a província ao Brasil, em 1821, com o nome de Provincia Cisplatina.
A Liga manteve o controle sobre suas províncias mais ao norte. Entre 1818 e 1819 Guasúrari comandou a província de Corrientes. Elisa Frühauf Garcia relata episódios deste período que revelam a compreensão e indignação do comandante guarani frente a discriminação vivida pelos indígenas. Um deles, a represália aos sequestros praticados por correntinos (durante confrontos armados) de crianças guaranis, para trabalharem em casas de famílias brancas, Andresito resgatou as mesmas e sequestrou crianças brancas em igual número, devolvendo-as, após um tempo, aos seu pais, lhes dizendo que tal ato era para que as mães brancas “soubessem o que é ter um filho usurpado”. Noutra ocasião moradores brancos de Corrientes desdenharam de uma apresentação festiva de soldados guaranis, se recusando a participarem de “bailes de índios”, o que incomodou Guasúrari, a ponto de obrigar estes moradores a limparem a praça da cidade e as suas filhas e mulheres a bailarem com os soldados guaranis.
A Liga de Los Pueblos Libres contrariou os latifundiários e elites de Buenos Aires, Assunção e do Brasil colônia, cada qual com intenções de ampliarem seus territórios meridionais. Artigas e Guasúrari passaram a enfrentar novas frentes de batalhas contra estas elites. Nos Sete Povos, em enfrentamento militares por disputa do território missioneiro, Guasúrari derrotou tropas luso-brasileiras em Itaqui (1816) e rechaçou (1817) ataque as missões, empurrando as tropas invasoras para as margens do Rio Jacuí.
E assim prosseguiram os confrontos contra as elites criollas e luso-brasileiras, até 1819, quando as forças da Liga foram derrotadas e Andresito capturado em 24 de julho de1819. De São Borja foi enviado a pé até Porto Alegre e posteriormente transportado ao Rio de Janeiro e encarcerado na Prisão da Ilha das Cobras, na Baia da Guanabara, onde para muitos pesquisadores morreu, porém sem indicação da data de falecimento e local de sepultamento. Por sua vez, em 1820, José Gervasio Artigas e parte de seus soldados, se exilam no Paraguai, onde morreu, permanecendo vivas em terras orientais suas ideias de igualdade para “Los más infelices”.
Recentemente Ricardo Ritzel apresentou, com base em pesquisas dos uruguaios Ricardo Marletti e Anibal Barrios Pinto e do brasileiro Ivo Caggiani, uma nova versão sobre a morte de Andresito. Na Missão de Santo Tomé o jovem Guasúrari foi aluno do padre franciscano português Benedito Urrutia. Em 1821 este padre foi transferido para o Rio de Janeiro, ficando amigo de José Bonifácio(8), na época primeiro ministro de Don Pedro I. Conta Ritzel, que ao final de 1823 Benedito e Bonifácio estavam em uma taverna de Niterói (RJ), no momento em que prisioneiros acorrentados estavam sendo transferidos de prisão, quando o padre reconheceu um deles: Guasúrari. Valendo-se da amizade como primeiro ministro do imperador, viabilizou sob a condição de sigilo a sua liberdade e o acolheu em seu Monastério.
Em 1831 o padre Benedito Urrutia voltou à região do Prata, com destino ao Paraguai, acompanhado de Guasúrari. Passaram pelo Uruguai, onde na cidade de Melo, durante uma “siesta”, Andrés Guasúrari faleceu em decorrência de um infarto inesperado. Foi sepultado como nome falso de André Urrutia.
Morreu segurando uma adaga. Será que o velho comandante guarani de São Francisco de Borja e Santo Tomé, ainda pensava em lutar pelo los pueblos libres?

Considerações finais
Este artigo, com algumas atualizações, é a reunião de escritos produzidos em anos anteriores, que entendi oportuno publicar neste momento, onde as Missões completam 400 anos no Rio Grande do Sul. Além do objetivo principal de destacar o protagonismo dos guaranis neste evento histórico, acho que contribui também para a divulgação de aspectos pouco conhecidos e apagados sobre a formação do Estado, com elementos que contribuem para a conformação da diversificada cultura sul-rio-grandense, notadamente para a gauchesca. Pensando em outros títulos para o artigo, poderiam ser: Missões Guarani Jesuíticas, outros 400 ou Rio Grande do Sul, uma outra história.
(1)O Vice-Reino do Rio Prata (ou Vice-Reino do Prata) foi desmembrado do Vice-Reino do Peru em 1776, sendo desintegrado, nas duas primeiras décadas do século XIX, em decorrência dos processos de independência da Espanha e formação de novos países.
(2) Na literatura o nome indígena de Andresito aparece com diferentes grafias: Guacurari, Guazuarary, Tacuri, Guaykurarí
(3) O cacique José Gabriel Condorcangui, evocando descendência do líder inca Tupac Amaru, assumiu o nome de Tupac Amaru II. Em 1780, no Vice-Reino do Peru, (atuais Peru e Bolívia), com participação de segmentos subalternizados e apoio das elites criollas, liderou rebelião emancipacionista, passando a desobedecer a Coroa Espanhola. O movimento cresceu sob hegemonia popular, mas perdeu o apoio das elites locais, que se sentirem ameaçadas. Condorcangui foi preso, torturado e morto e o movimento duramente reprimido pelas autoridades espanholas.
(4) Por acordo entre as Coroas Espanhola e Francesa, a partir de 1697 a ilha de Saint Domingue passou a ser colônia da França, cuja economia era sustentada pelo trabalho de negros escravizados. Influenciados pela Revolução Francesa (1789 – 1799) os negros se insurgiram em 1791, aboliram a escravatura em 1794 e formaram um governo independente, interrompido pela França em 1802. A luta teve continuidade sob a liderança do liberto Jean-Jacques Dessalines, finalizando com a independência da ilha em 1/1/1804, com o nome de Haiti, primeiro país da América latina a conquistar sua independência.
(5) O Primeiro governo local foi instalado em 25 de maio de 1811, comemorada na Argentina como “Dia da Pátria”.
(6) 15 de maio de 1811, considerado o “Dia da independência” do Paraguai.
(7) Conjunto de províncias confederadas e autônomas.
(8) José Bonifácio de Andrada e Silva, conhecido como o “Patriarca da Independência”.
* Nandi Barrios é engenheiro florestal, com trabalhos em comunidades indígenas e quilombolas.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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