Morre Raimundo Pereira, o maior dos jornalistas, por Breno Altman

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A morte de Raimundo Rodrigues Pereira, neste 2 de maio de 2026, aos 85 anos, nos obriga a olhar para trás e reconhecer a dimensão de uma trajetória rara no jornalismo brasileiro — talvez a maior de todas.

Expulso do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, Raimundo fez um movimento pouco convencional: deixou para trás a engenharia e escolheu o jornalismo como trincheira. Essa transição não foi apenas profissional, mas profundamente política. Em vez de cálculos e projetos técnicos, passou a lidar com a matéria viva da sociedade brasileira, buscando compreendê-la e transformá-la pela palavra.

Sua passagem pelas revistas Realidade e Veja marcou uma geração. Em Realidadeparticipou de um dos momentos mais criativos e ousados da imprensa nacional, ajudando a construir uma linguagem inovadora, investigativa e profundamente conectada com o país real. Em Vejaatuou em sua fase inicial, quando a revista ainda buscava um jornalismo mais analítico e ambicioso, antes de se transformar em outra coisa ao longo dos anos.

Mas foi sobretudo na imprensa alternativa, sob a sombra da ditadura, que Raimundo Rodrigues Pereira deixou sua marca mais profunda. Foi um dos fundadores do jornal Opinião, espaço decisivo de resistência intelectual e política. Em seguida, teve papel central na criação do Movimento, que se tornaria um dos mais importantes veículos de oposição ao regime militar, reunindo vozes críticas e ajudando a manter acesa a chama do debate público.

Sua inquietação jamais cessou. Raimundo também esteve à frente de projetos como o Retratos do Brasil e a revista Reportagemsempre com o mesmo objetivo: compreender o Brasil em profundidade, dar voz aos silenciados e oferecer ao leitor instrumentos para pensar criticamente a realidade.

Mais do que os veículos que ajudou a fundar ou dirigir, foi sua postura que marcou época. Raimundo nunca se rendeu ao jornalismo acomodado, nem à falsa neutralidade que tantas vezes serve para mascarar interesses. Sua escrita era clara, firme, ancorada em princípios. Ele sabia de que lado estava — e nunca fez disso um segredo. Tampouco cedia na ferramenta que escolhera: o jornalismo rigoroso, bem apurado, colado nos fatos, sem concessões à propaganda.

Para quem teve o privilégio de acompanhar sua trajetória, fica a impressão de que Raimundo Rodrigues Pereira não apenas atravessou a história recente do Brasil, mas ajudou a moldá-la. Seu legado não está apenas nos textos ou nas publicações, mas na ideia de que o jornalismo pode ser, ao mesmo tempo, rigoroso e comprometido, crítico e transformador.

Durante muitos anos tive a honra de partilhar projetos com esse grande mestre. Convidei-o a participar em empreendimentos sob meu comando, como as revistas Página Aberta e Atenção!e fui seu colaborador em empreitadas como a revista Reportagem. Foram tempos de ensinamentos inesquecíveis.

Sua morte encerra uma vida, mas não apaga sua presença. Ao contrário: em tempos de desinformação e de crise no jornalismo, sua trajetória se torna ainda mais necessária. Lembrá-lo é, também, assumir o compromisso de seguir adiante com sua missão.

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