MST lança primeira fábrica de leite em pó em SP: ‘Temos que continuar ocupando o latifúndio’

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O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lançou, nesta segunda-feira (27), a construção de uma fábrica de leite em pó em Andradina, no interior de São Paulo. O ato ocorreu na Cooperativa de Produção Agropecuária dos Assentados e Pequenos Produtores da região Noroeste do Estado de São Paulo (Coapar), que reúne mais de mil famílias assentadas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que passou por procedimentos médicos na última sexta-feira (24), não compareceu ao evento.

Segundo o MST, trata-se da primeira indústria de leite em pó no estado e será instalada no complexo da cooperativa. A expectativa é ampliar a captação de matéria-prima, aumentar a produção e gerar empregos diretos e indiretos. “Vai ser a primeira aqui na Coapar”, afirmou o dirigente do MST, Gilmar Mauro.

Mauro disse que o projeto está ligado à trajetória do movimento na disputa por terra. “Nós entendemos, e isso é preciso dizer, que se hoje nós estamos produzindo comida para o povo brasileiro em todo o Brasil e somos bem-vistos nas nossas feiras, é sempre bom lembrar de uma coisa: tudo isso começou com a ocupação do latifúndio. Porque, se não tivéssemos ocupado o latifúndio, não teríamos hoje uma Coapar. E é obrigação ética nossa. Enquanto existir uma família sem terra, o MST tem que continuar ocupando o latifúndio”, disse.

O dirigente ainda citou a disputa por terras no Pontal do Paranapanema, região marcada por conflitos fundiários desde a década de 1990, com áreas classificadas como terras devolutas que são reivindicadas por movimentos sociais e também ocupadas por fazendeiros. “Tem 500 mil hectares de terras devolutas”, afirmou.

Descontos para fazendeiros

O Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar, nas próximas semanas, o programa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) que permite a venda de terras públicas a fazendeiros com descontos que chegam a 90%. Autor da ação, o PT afirma que as áreas estão sendo vendidas por valores baixos e que deveriam ser destinadas à reforma agrária.

“É terra do povo que está sendo comprada por apenas 10%. E nós queremos essas terras para a reforma agrária, porque nós não queremos só o leite. Nós queremos, nessas terras, fazer a agrofloresta, reflorestar e produzir comida saudável para o povo brasileiro”, disse Gilmar Mauro.

A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, também defendeu a política federal de acesso à terra e criticou a condução estadual em São Paulo. “O governo do Brasil está promovendo a reforma agrária popular, levando terra para quem precisa e quer produzir”, disse. Ao citar números, afirmou que houve ampliação recente da política. “Já assentamos 230 mil famílias e destinamos 27 mil lotes”, declarou.

A chefe da pasta disse ainda que a cadeia do leite envolve 1,15 milhão de famílias no país e que 950 mil são da agricultura familiar. “O leite é, portanto, uma cadeia constituída majoritariamente nas pequenas propriedades, nos assentamentos da reforma agrária e nos lares da agricultura familiar. São esses os estabelecimentos rurais que garantem essa produção de leite que chega e se transforma, como vimos aqui na Coapar, na manteiga saborosa, no queijo coalho, no queijo frescal e no iogurte que estava sendo produzido, enfim, nessa diversidade de produtos que alimenta e leva nutrição para nossas famílias e para nossas crianças”, afirmou.

Ela afirmou que o Pronaf Mais Leite busca elevar a produtividade com melhoramento genético do rebanho por meio da transferência de embriões. “Conseguimos sair de uma produção de três a oito litros e chegar a 20, 25, até 30 litros por vaca”, disse. Segundo a ministra, a política combina tecnologia e assistência técnica. “O objetivo é democratizar o acesso ao melhoramento genético”, afirmou. Ela também relacionou o aumento de produtividade à renda das famílias. “É a mesma quantidade de alimento gerando mais renda para as famílias”, disse.

A ministra também citou a estrutura da produção de leite no país e o papel da agricultura familiar no abastecimento. “São esses estabelecimentos que garantem essa produção de leite que chega às famílias”, afirmou. Segundo ela, a política pública busca ampliar a produção e a organização produtiva. “Queremos uma reforma agrária produtiva”, declarou.

Durante o evento, o governo federal anunciou a implantação de 300 mil embriões ao longo de dois anos para rebanhos da agricultura familiar e uma nova linha de crédito para cooperativas do setor.

O evento também teve entregas do programa Terra da Gente, que reúne instrumentos como desapropriação e outras formas de obtenção de áreas para assentamentos. Segundo o governo, nos últimos três anos, foram criados e reconhecidos 144 assentamentos e pagos R$ 1,7 bilhão em crédito de instalação para 78 mil famílias. “Estamos fazendo a reforma agrária popular”, afirmou a ministra.

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