O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) esteve com cerca de 150 militantes na sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), no centro do Rio, nesta quarta (15). O movimento apresentou uma ampla pauta de reivindicações, dentre elas a desapropriação de terras para criação de um assentamento para 376 famílias do Acampamento 15 de Abril, em Campos dos Goytacazes.
“Nós decidimos trazer uma representação robusta das famílias assentadas porque de nada adiantaria um grupo pequeno ocupar o Incra. Nossa lógica é a da luta coletiva. Essa é uma ação da nossa Jornada Nacional de Lutas, em que vários estados estão organizando marchas, atividades nas superintendências do Incra e ocupações de terras improdutivas”, explicou Amanda Matheus, integrante da coordenação nacional do MST no Rio de Janeiro, que explicou que o grupo também enviou um integrante a Brasília para articular demandas do movimento na capital federal.
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A principal urgência do movimento é a situação das 376 famílias do Acampamento 15 de Abril, em Campos dos Goytacazes. As famílias aguardam há dois anos por uma definição do poder público.
“É um processo quando um acampamento se torna um assentamento. Porque um assentamento é quando a posse dessa terra passa do setor privado para o poder público e só então é possível executar as políticas de Reforma Agrária, o reconhecimento formal, o acesso a créditos, etc”, explicou Lara Miranda, dirigente do setor de Direitos Humanos do MST no Rio de Janeiro.
O movimento também reivindica a destinação, para a Reforma Agrária, de terras pertencentes a grandes devedores. O foco principal está nas fazendas atreladas à antiga Usina Barcelos (Grupo Othon), cuja dívida com a União chega a R$ 1,7 bilhão, segundo o MST, e às terras da Usina Sapucaia.
Essas reivindicações integram a jornada do Abril Vermelho, uma mobilização que busca tirar a agricultura camponesa da invisibilidade e destacar seu papel essencial na produção de alimentos saudáveis para as cidades fluminenses.
Massacre de El Dorado dos Carajás
No próximo dia 17 de abril, também são lembrados os 30 anos do massacre de El Dorado dos Carajás, no Pará, quando policiais militares mataram 21 trabalhadores rurais sem-terra e feriram dezenas durante uma marcha pela reforma agrária.
A data é referenciada no Calendário Oficial do Estado do Rio de Janeiro por meio da Lei 10.73725, da deputada Marina do MST (PT), que criou a Semana de Luta pela Reforma Agrária e de Promoção da Cultura da Paz e Resolução de Conflitos.
“Essa lei visa resgatar e manter as histórias da luta da reforma agrária no Brasil e no Rio de Janeiro, além da violência sofrida por trabalhadores rurais e urbanos, fortalecendo iniciativas de mediação de conflitos, promovendo o direito à manifestação e ao acesso à terra”, declarou.
A deputada ainda assinou, junto aos assentados, um protocolaço na Assembleia Legislativa (Alerj) com quatro projetos de lei relacionados ao fortalecimento da pauta: um que destina terras de grandes devedores de impostos para a Reforma Agrária; o que determina a criação do Orçamento da Segurança Alimentar e Nutricional no Estado do Rio; que cria o Programa Trator Amigo de Fortalecimento da Mecanização da Agricultura Familiar; e o cria a Política Estadual da Cultura do Abacaxi no Norte Fluminense.
Créditos habitacionais
Além da obtenção de novas terras, o MST apresentou quatro demandas principais para fortalecer a Reforma Agrária no Rio de Janeiro. O movimento pede que o Incra libere créditos habitacionais e de fomento (voltados para mulheres, jovens e meio ambiente) que estão bloqueados, e cobra parcerias com as prefeituras para levar infraestrutura básica, como estradas, água e energia, aos assentamentos.
Para apoiar a produção ecológica, os agricultores ainda pedem investimentos na construção de agroindústrias, compra de maquinário e logística de transporte, além da contratação urgente de técnicos especializados para orientar as famílias no campo.
“No estado, há uma falta de ação coordenada nos assentamentos e a nossa pauta envolve créditos para a produção e habitação, além da construção de estradas e pontes, a eletrificação, afinal muitos assentamentos vivem sem luz elétrica”, explicou Lara.

O Rio de Janeiro, estado com 98% da população concentrada em áreas urbanas, abriga hoje cerca de 1.600 famílias organizadas pelo MST em 20 assentamentos e um acampamento.
A superintendente regional do Incra, Maria Lúcia Pontes, reconheceu a legitimidade das cobranças do movimento e encaminhou uma reunião com representantes da União.
“A gente sabe da dificuldade da burocracia, da demora. Muitas das demandas já vínhamos tratando e outras delas são novas, como a fiscalização de áreas que possam estar como grandes devedores, que a gente ainda não tem esses contatos. Os processos, às vezes, são muito burocráticos. Então, é muito importante que o movimento venha, apresente a sua demanda e nos coloque nessa situação de buscar as respostas. Eu não tenho todas as respostas hoje, mas vou buscar todas, inclusive vamos marcar uma reunião com a Procuradoria da Fazenda Nacional, a Procuradoria do Incra, para respostas mais claras e concretas”, declarou.
Jura 2026
Nesta sexta-feira (17), o Armazém do Campo recebe uma programação especial da Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária Popular (Jura), que marca três décadas do Massacre de Eldorado dos Carajás.
O ponto alto será um debate com o fotógrafo documental João Roberto Ripper, que registrou os desdobramentos imediatos do massacre em 1996. Ripper compartilhará sua vivência na cobertura de temas sociais e o contexto das imagens de Carajás que se tornaram símbolos da denúncia contra a impunidade.
Às 18h, a programação segue com a exposição “30 Anos Esta Tarde” e a exibição do curta-metragem “Acampamento”, obras que conectam o passado de luto ao presente de luta pela Reforma Agrária.
Serviço
30 Anos do Massacre de Eldorado dos Carajás
Data: 17 de abril de 2026
Horário: A partir das 15h
Local: Armazém do Campo (Av. Mem de Sá, 135, Lapa, Rio de Janeiro)
entrada livre
Programação
15h – Debate com João Roberto Ripper
18h – Exposição “30 Anos Esta Tarde” + Exibição do curta “Acampamento”
19h- Forró Mulher

