Muniz Sodré: ‘Política de deportações de Trump é um fato nazi-racista evidente’

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Muniz Sodré é, certamente, o principal pensador brasileiro vivo sobre comunicação, raça e poder. Sua obra não apenas interpreta o Brasil, ela ajuda o Brasil a se enxergar, a se nomear e a se compreender em suas zonas mais profundas de conflito, contradição e invenção.

Minha formação intelectual é atravessada, desde muito cedo, pelos seus escritos. Já em Televisão e Psicanálisepublicado em 1987, Sodré antecipava discussões hoje centrais ao falar da tecnologia das relações, analisando como a televisão molda comportamentos, desejos, afetos e formas de pertencimento. Depois vieram A comunicação do grotesco, Claros e escuros, Antropológica do espelho, As estratégias do sensíveeu, Sociedade Incivil, O fascismo da coralém de inúmeros outros livros seminais no campo acadêmico, romances, ensaios e intervenções intelectuais que compõem uma das obras mais vastas e consistentes da vida cultural brasileira contemporânea.

Trata se de um pensamento que atravessa disciplinas, linguagens e registros, combinando teoria social, crítica da comunicação, reflexão sobre cultura, análise do racismo, filosofia política e escrita literária. Um pensamento que, com rara eloquência e profundidade, apresenta o brasileiro a si mesmo e ao mundo, revelando as tramas simbólicas, raciais, políticas e sensíveis que estruturam nossa vida social.

Foi a partir desse legado intelectual que formulei as quatro perguntas desta entrevista. Elas não partem de uma curiosidade conjuntural, mas de um esforço de leitura do Brasil de agora, um Brasil de fato, em um cenário atravessado por crises globais, avanço da extrema direita, centralidade das Big Techs, reconfigurações geopolíticas e recrudescimento do racismo como projeto político.

Dialogando com o conceito de Maioria Minorizada, as questões buscam compreender se as dinâmicas contemporâneas tendem a reforçar a hegemonia de uma minoria branca, ocidental e dominante, ao mesmo tempo em que reatualizam processos históricos de subalternização das maiorias sociais. As respostas de Muniz Sodré, como se verá, não oferecem conforto nem atalhos, elas nos devolvem um retrato duro, crítico e profundamente lúcido do tempo presente, um tempo em que a política já não se joga apenas nas instituições, mas no campo do sensível, do imaginário, da tecnologia e do racismo sistematizado.

Mais do que uma entrevista, este diálogo é também um exercício de escuta intelectual, ouvir quem há décadas vem nos ensinando que compreender a comunicação é, no fundo, compreender as formas contemporâneas do poder.

1. Geopolítica, Trump, multilaterais e democracia no século 21

Brasil de Fato: Em Sociedade Incivilo senhor analisa como a erosão dos vínculos sociais e a captura comunicacional do político produzem formas de governança que esvaziam o sentido clássico da democracia liberal. À luz dessa leitura, como o senhor interpreta o papel dos Estados Unidos no atual sistema internacional — especialmente sob lideranças como Donald Trump, e políticas de segurança e imigração fortemente coercitivas, como as protagonizadas pelo ICE, no processo de enfraquecimento das instituições multilaterais? Em que medida essas dinâmicas contribuem para a disseminação de modelos iliberais de poder que afetam, direta ou indiretamente, democracias periféricas como a brasileira?

Muniz Sodré: O trumpismo me soa como um sintoma evidente do declínio da superpotência americana que, embora ainda ocupe uma posição de centralidade no tabuleiro geopolítico mundial, já divisa, tanto no plano externo quanto interno, os limites de seu império. Ao mesmo tempo me parece uma afetação particular da máquina metafísica do fascismo, que nunca esgotou suas possibilidades nas historicizações europeias, modelizadas pela Itália e pela Alemanha. A expressão “metafísica” não deve nos espantar, pois ela remete ao termo “transpolítica” (caro a pensadores críticos da cultura, como Baudrillard) como significado último da política, que deixa ver, ao lado do solo político, outras forças e linguagens. De fato, o confronto com o nazifascismo se estende a um plano mais profundo, onde se cotejam matéria e espírito. Do subsolo da grande ficção democrática conhecida como América, Trump emerge como esgoto destampado, com moções regressivas que ligam a superpotência de hoje diretamente à ditadura nazifascista do passado europeu. Exemplo é o projeto de desenraizamento demográfico. A política de deportações é um fato nazi-racista tão evidente quanto foi o deslocamento de populações de um lado para outro da Europa no Terceiro Reich. O motor é o mesmo racismo: “eles envenenam o nosso sangue” (Trump). Evidentemente, tudo isso repercute sobre as dinâmicas iliberais de países periféricos, como o Brasil, onde cresce o extremismo de direita.

2. Democracia estética, Big Techs e novas gramáticas do poder político

Em As estratégias sensíveis, o senhor formula o conceito de democracia estética para explicar como a política contemporânea se organiza cada vez mais pela gestão das imagens, das emoções e das tecnologias de mediação, deslocando o eixo da representação racional para o campo do sensível. Considerando o cenário atual, como o senhor analisa a emergência de lideranças fortemente midiáticas e digitalizadas, como o jovem líder de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, cuja projeção política e internacional se constrói em grande medida pelas redes sociais, ou ainda o caso de Donald Trump, que governa e disputa hegemonia simbólica por meio das plataformas digitais, inclusive tendo criado sua própria rede social? No Brasil, como compreender também as recentes reconfigurações institucionais na Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal, voltadas a reposicionar a imagem do Estado diante da centralidade das Grandes tecnologias e da lógica algorítmica? Esses movimentos indicariam uma intensificação da democracia estética ou uma mutação mais profunda nas formas de exercício do poder, da legitimidade política e da própria esfera pública?

Essa questão aflorou primeiro para mim em Antropológica do Espelhodepois em As Estratégias Sensíveis e também em A Sociedade Incivilno quadro mais amplo da hipótese de uma “democracia eletrônica”, definida pela introdução das tecnologias digitais nos diversos procedimentos (recrutamento de candidatos a postos legislativos, sufrágio, gestão dos serviços públicos, participação cidadã nas decisões de administração etc.) ligados ao funcionamento do regime democrático. Por trás dessa hipótese se pode detectar um racionalismo inequivocamente neoliberal, no sentido de contrapor a moderação pragmática, característica da gestão, ao horizonte da militância política. Nela transparece, entretanto, o núcleo problemático da democracia na modernidade: a vitória numérica (aritmética) de uma maioria pelo voto perde a sua mais-valia decisória no instante (político) de execução das decisões. A isso compete cada vez mais a organização, administração ou gerência realizada pelos aparatos burocráticos de Estado. Numa suposta “democracia eletrônica”, os algoritmos (não mais a aritmética grega) são gerenciais e não políticos. As tentativas de reposicionar a imagem do governo Lula no âmbito das grandes tecnologias perseguem essa orientação, mas sem realmente apreender a dinâmica do processo.

3. Eleições de 2026 e os limites da democracia brasileira

O Brasil se aproxima das eleições de 2026 em um contexto global marcado pela polarização extrema, pelo uso intensivo das tecnologias digitais na disputa política e pela fragilização dos consensos democráticos. Considerando sua reflexão sobre a crise da representação e o esvaziamento do comum, quais seriam, a seu ver, os principais riscos e desafios colocados à democracia brasileira neste novo ciclo eleitoral? O senhor acredita que o país dispõe de condições institucionais, comunicacionais e culturais para evitar que esse processo aprofunde ainda mais as desigualdades políticas e simbólicas?

A expressão pós-modernista “morte da política” (crise da representação, esvaziamento do comum) é o sintoma da impossibilidade de retomada daquilo que Augusto Comte chamou de “política positiva”, homóloga à historicidade da ordem e do progresso. Ela deixa transparecer o enfraquecimento institucional da delegação diante do fortalecimento de organizações econômicas (bancos, grupos de finanças, exportação, agronegócio etc.) e midiáticas, mas não significa realmente extinção da luta sociopolítica pelo controle do Estado, suficientemente institucionalizada para que se negociem as diferenças sociais e se reacomodem os efeitos do poder de Estado. Em outras palavras, as instituições nacionais têm demonstrado uma surpreendente resiliência democrática. Não significa também extinção do movimento agregativo (cooperação, solidariedade, amizade, espírito crítico), que implica política (no sentido originário do termo), tanto no plano das relações impessoais quanto dos vínculos caracterizados por afetos, portanto, no plano da sociedade institucionalizada para que se negociem as diferenças e se reacomodem os efeitos do poder de Estado. Ou seja, o fenômeno político pode ser redescrito, para além da inércia ou da corrupção parlamentar, como um potencial de transformação civil, ainda que a destruição e a violência possam estar desenhadas no horizonte dessa passagem. Mas tenho as minhas dúvidas quanto à possibilidade de que isso venha a ser realizado por partido politico. A classe política atravessa uma fase de apodrecimento.

4. Racismo, extrema direita e regressão de direitos

Em O fascismo da coro senhor analisa o racismo como estrutura sistêmica profunda da sociedade brasileira e como elemento funcional à reprodução das desigualdades e das formas autoritárias de poder. Diante dos recentes episódios de regressão de direitos como as tentativas de proibição de políticas de cotas raciais em universidades estaduais, a exemplo do caso de Santa Catarina, recentemente suspenso pelo Judiciário , como o senhor avalia o avanço das agendas da extrema direita no campo racial? De que modo essas iniciativas reatualizam o racismo e operam politicamente para conter ou reverter conquistas históricas da população negra, reforçando a subalternização da Maioria Minorizada no Brasil contemporâneo?

Bem… Santa Catarina de Alexandria, a mártir católica  erigida como padroeira daquele estado, que venha em seu socorro! Que deixem de rezar pelo catecismo da santimônia! Que chamem o Chico César para cantar sobre a maldade das pessoas ditas boas! De fato, é um contexto existencial refratário à solidariedade das ações afirmativas, por se vangloriarem elites e dirigentes políticos de que seus habitantes de pele branca são numericamente superiores a qualquer outro estado do país. Também sabem, embora não alardeiem, que é o estado com maior número de células neonazistas. Ali, o fascismo da cor deitou raízes mais fundas.

*Richard Santos é escritor, pesquisador, docente e extensionista da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde atua como professor nos Programas de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais e em Estado e Sociedade. Possui Pós-doutorado em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Mestrado em Comunicação pela Universidade Católica de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo. Diretor Regional Nordeste da INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Autor do livro “Maioria Minorizada: um dispositivo de racialidade”.

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