Na FAO, Lula diz que armas destroem produção de alimentos e que ONU ‘está cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras’

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, nesta quarta-feira (4), que o dinheiro gasto com armamentos e conflitos poderia ser destinado ao combate à fome e criticou a condução internacional diante das guerras. Ele discursou na abertura da Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para a América Latina e o Caribe, no Palácio do Itamaraty, em Brasília.

A cerimônia marca o principal fórum regional da FAO para definir prioridades de 2026 e 2027, com foco no combate à fome e à má nutrição. O encontro reúne ministros, autoridades e representantes de países latino-americanos e caribenhos e contou com a presença do diretor-geral da FAO, Qu Dongyu.

Além de Lula, discursaram o chanceler Mauro Vieira, o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, e o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, entre outras autoridades. Nas falas, integrantes do governo defenderam políticas brasileiras para a agenda de segurança alimentar e destacaram a saída do Brasil do mapa da fome, apontada como resultado de um conjunto de ações retomadas no terceiro mandato de Lula e reconhecida pela FAO.

Vieira enfatizou o papel da conferência como espaço de prioridades regionais e disse que a fome é uma escolha política, ao citar o brasileiro Josué de Castro. Paulo Teixeira defendeu que a agricultura familiar e políticas de acesso à terra devem integrar as estratégias para enfrentar a fome, mencionando a retomada da reforma agrária e o reconhecimento de territórios quilombolas, além de afirmar que soberania alimentar depende também de paz.

Já Fávaro destacou o papel da ciência, da Embrapa e da agenda de bioinsumos, além de apresentar programas e crédito rural como parte de um modelo que, segundo ele, amplia produção, recupera áreas degradadas e sustenta o combate à fome.

Guerra x alimentos

A fala do presidente, porém, concentrou-se em críticas à corrida armamentista e no que chamou de falta de prioridade política para enfrentar a fome. Lula citou números para comparar o gasto global com guerra e a população em situação de fome.

“Se nós pegássemos o dinheiro que foi gasto ano passado em armamentos, em conflitos, o equivalente a 2 trilhões e 700 bilhões de dólares, e dividíssemos entre os 630 milhões de seres humanos que, no planeta, passam fome, daria para a gente ter distribuído 4.285 dólares para cada pessoa”, disse.

Na sequência, sustentou que a escalada militar agrava o problema alimentar. “Tudo isso não é feito para construir ou para produzir alimento. Isso é feito para destruir e para diminuir a produção de alimentos ou destruir aquilo que já está plantado”, afirmou, ao defender que o Conselho de Segurança da ONU deveria se mobilizar para um esforço de paz.

Lula sugeriu que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia) façam uma reunião remota para discutir o rumo das decisões globais. “São apenas cinco pessoas que poderiam fazer uma teleconferência para fazer uma discussão muito clara se o que vai resolver o problema da humanidade é mais guerra ou mais paz”, declarou.

O presidente também atribuiu a persistência da fome à desigualdade e à falta de pressão política. “A fome mexe muito pouco com o coração dos governantes do mundo”, disse. Ele acrescentou que isso ocorre porque os famintos muitas vezes são invisíveis aos ricos. Ele explicou que, por conta da condição extrema vulnerabilidade, “os famintos não protestam”, “não estão organizados em sindicatos” e “estão longe muitas vezes do centro de poder”, o que, segundo ele, ajuda a explicar por que “para isso nunca tem dinheiro”.

Na mesma linha, Lula associou a fome à concentração de riqueza e disse que o problema não pode ser empurrado para depois. “Esse alimento não chega a casa das pessoas porque as pessoas não têm dinheiro e não têm dinheiro porque têm muita concentração de renda”, afirmou. Em outro trecho, citou a disparidade entre grandes empresas e países: “Algumas empresas de plataforma (de petróleo) conseguem ganhar mais dinheiro por ano do que o PIB (Produto Interno Bruto) de muitos países. Esse dinheiro é concentrado na mão de poucos”.

Ele criticou a idéia de tratar o combate à fome como assunto secundário. “A gente não pode tratar a questão da fome como se fosse uma questão de ONGs. Como se fosse assim: ‘se sobrar, tem. Se não sobrar, não tem’. Tem que ser tratado como uma questão de prioridade. Prioridade zero”, disse. “É um direito sagrado. Todo mundo tem que tomar café, almoçar e jantar todo dia.”

Em defesa de decisões orçamentárias voltadas à população mais pobre, Lula afirmou que o enfrentamento da fome depende de “determinação política”. “Quando tirar um pouquinho de cada área do governo e coloca um pocão para os pobres”, disse, ao sustentar que a mesma lógica deveria orientar governos ao redor do mundo.

Na parte final, Lula voltou a criticar a condução internacional e disse que “a ONU está ficando desacreditada”. “A ONU está cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras e não tem espaço para os senhores da paz”, afirmou. Em outro trecho, comentou a devastação em Gaza e criticou a normalização do horror: “Muitas vezes a gente vai ficando impassível. E se a gente não gritar, se a gente não falar, se a gente não se mexer, nada acontece”.

O presidente também ponderou sobre limites e desafios internos, apesar do avanço no combate à fome, ao dizer que o país ainda enfrenta problemas graves. “Aqui no Brasil, companheiros, aqui no Brasil, nós temos muitos problemas ainda”, afirmou. “Vai dar décadas para resolver. Mas se a gente não começar, a gente nunca resolve.”

Janja recebe título da FAO e fala em “compromisso moral” contra a fome

Na abertura do evento, a primeira-dama Janja Lula da Silva recebeu o título de embaixadora da boa-vontade contra a fome da FAO, entregue por Qu Dongyu, e discursou logo depois. Ela afirmou que pretende usar a visibilidade do posto para “fortalecer os diversos esforços para a erradicação da fome no Brasil, na América Latina e no mundo”.

Janja também disse que “combater a fome não é apenas uma opção política, é um compromisso moral” e defendeu que a fome não seja tratada como instrumento de conflito. “Não importa se você é uma pessoa refugiada, migrante ou que vive em um país de conflito, a fome jamais deveria ser usada como arma de guerra”, afirmou. Ao final, disse que terá “um olhar mais atento para mulheres e meninas”, por serem as mais atingidas pela fome e pela insegurança alimentar.

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