No dia 13 de fevereiro, em Nova York, Durante sessão do Conselho de Segurança da ONU sobre o Oriente Médio, a China reafirmou sua posição de que o caminho para a paz no Iêmen passa necessariamente por um diálogo político que inclua todos os atores do conflito, incluindo os houthis (Ansar Allah).
Durante a sessão a China reafirmou sua posição de que somente uma solução política abrangente poderá encerrar anos de guerra civil que deixaram milhões em sofrimento. O representante permanente de Pequim junto à ONU, Fu Cong, destacou que a comunidade internacional deve “redobrar seus esforços e trabalhar em conjunto para promover uma solução política rápida para a questão do Iêmen”, enfatizando que o país asiático apoia a “soberania, a unidade e a integridade territorial do Iêmen”.
“Exortamos todas as partes iemenitas a exercerem calma e moderação, a se absterem do uso da força ou de quaisquer ações que possam reacender o conflito e a preservarem a estabilidade no terreno”, acrescentou Fu Cong,
Fu ressaltou que todas as partes envolvidas no conflito devem “resolver suas divergências por meio do diálogo político”, trabalhar por uma “reconciliação rápida” e pela “retomada imediata da reconstrução econômica”. Ele também apelou para que as facções iemenitas mantenham calma e moderação, se abstenham do uso da força e evitem ações que possam reacender o conflito, reafirmando o compromisso de “Pequim com a estabilidade no terreno e a restauração da paz no Oriente Médio”.
O posicionamento de Pequim surge em contraste direto com a postura dos Estados Unidos, que buscam excluir os houthis das negociações, dificultando a retomada da paz e da estabilidade na região.
Rebatendo os EUA
Durante a mesma sessão, Fu Cong respondeu às declarações do representante dos Estados Unidos, que acusou a China de supostos envios de armas aos houthis. Fu Cong fez questão de sublinhar que a China cumpre rigorosamente todas as resoluções do Conselho de Segurança e suas obrigações internacionais. Ele enfatizou que a abordagem chinesa às exportações militares é “prudente e responsável” e que o controle sobre itens de uso duplo é “rigoroso”. Fu argumentou ainda que empresas chinesas têm o direito de conduzir cooperação comercial normal com outros países, de acordo com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Segundo Fu, “o representante dos EUA, sem apresentar qualquer prova, recorreu a insinuações e acusações infundadas contra a China. Consideramos isso lamentável e rejeitamos tais acusações.” A declaração reforça a posição de Pequim de respeito às normas internacionais, ao mesmo tempo que defende a inclusão de todos os atores iemenitas no diálogo de paz.
Apesar de diversos cessar-fogos e propostas de negociação ao longo dos anos, a guerra no Iêmen continua sem solução clara. A divisão no Conselho de Segurança da ONU reflete as tensões mais amplas entre potências globais: enquanto os Estados Unidos defendem medidas restritivas contra grupos como os houthis, a China aposta em um diálogo político inclusivo para viabilizar paz duradoura e reconstrução.
Sem a participação de todos os atores relevantes e sem uma compreensão profunda das dinâmicas sociopolíticas locais, qualquer acordo de paz corre o risco de ser limitado ou temporário. A guerra no Iêmen, desencadeada há mais de uma década, segue sendo um lembrete da complexidade dos conflitos contemporâneos e da necessidade de soluções políticas abrangentes.
Guerra: Houthis, Arábia Saudita e Emirado Arabes Unidos
A sessão do Conselho de Segurança da ONU foi convocada em meio à guerra civil no Iêmen, em curso desde 2014, quando o movimento houthis iniciou uma ofensiva que culminou na tomada da capital Sana’a em setembro daquele ano, um marco importante no conflito. Desde então, a violência se intensificou, envolvendo forças pró-governo, grupos aliados e intervenções externas, incluindo a coalizão liderada pela Arábia Saudita em 2015.
A continuação da guerra transformou o país em uma das piores crises humanitárias do mundo, com milhões de pessoas precisando de assistência e segurança alimentar. Segundo dados de Agências da ONU, mais de 19 milhões de iemenitas necessitam de ajuda humanitária, e milhares de civis foram mortos ou deslocados desde o início do conflito.
A guerra prolongada no Iêmen deixou um legado devastador de pobreza, deslocamento e insegurança. Mais de 17 milhões de pessoas enfrentam fome e insegurança alimentar severa, segundo a ONU, incluindo mais de um milhão de crianças com desnutrição aguda.
Em muitas áreas, a infraestrutura básica está em colapso. Sistemas de saúde e educação foram amplamente destruídos, deixando grande parte da população sem acesso a serviços essenciais. Mais de 4,5 milhões de pessoas continuam deslocadas internamente e milhões vivem sob constante ameaça de doenças e desnutrição agravada pelos choques econômicos e pela interrupção de cadeias de abastecimento.
A guerra no Iêmen tem um papel impoprtante de agentes externos. Desde 2015, a Arábia Saudita, com apoio dos Emirados Árabes Unidos (EAU), lidera uma coalizão para apoiar o governo internacionalmente reconhecido do país e conter a expansão dos houthis. A coalizão realiza bombardeios aéreos, bloqueios de portos estratégicos e apoio a forças locais, afetando severamente o acesso a alimentos e ajuda humanitária.
As ações da coalizão, incluindo ataques a infraestrutura civil, portos e áreas urbanas, contribuíram significativamente para a crise humanitária e o desgaste do país.
Houthis, Palestina e Israel
O grupo houthis (Ansar Allah) controla partes significativas do norte do Iêmen, incluindo a capital Sana’a, e áreas densamente povoadas onde vive uma grande maioria da população. Estimativas sugerem que cerca de 60% a 70% dos iemenitas vivem em áreas sob controle houthi, apesar de o grupo possuir apenas cerca de um terço do território total do país.
Esse domínio sobre as áreas mais populosas torna os houthis um ator central no conflito político e militar, e sua exclusão das negociações é um dos principais pontos de divergência entre potências internacionais — com a China defendendo sua participação e os Estados Unidos pressionando por restrições.
Nos últimos anos, o conflito no Iêmen ampliou suas ramificações geopolíticas. Os houthis têm promovido ataques com drones e mísseis contra alvos ligados a Israel e a interesses ocidentais no Mar Vermelho, afirmando agir em “solidariedade à causa palestina” diante do genocídio em Gaza desde novembro de 2023.
Esses ataques provocaram respostas militares de Israel e tensões adicionais na região, atingindo portos estratégicos como o de Hodeidah, cuja capacidade de operação caiu drasticamente após os confrontos, comprometendo ainda mais a entrada de ajuda humanitária num momento crítico para a população civil.

