‘Não podemos eleger políticos negacionistas, como Trump e Milei’, diz Carlos Nobre sobre eleições no Brasil

Publicada em

Carlos Nobre, um dos cientistas e pesquisadores brasileiros mais renomados, foi escolhido, nesta semana, pelo Papa Leão 14, para compor o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. O grupo será composto por 11 especialistas que têm a missão de assessorar o Vaticano em temas que contribuam para a promoção da saúde, direitos humanos, justiça e paz. 

Nobre, que já recebeu o prêmio Nobel da Paz e é membro da Ordem Nacional do Mérito Científico, é o único brasileiro que fará parte da comissão. Ele é climatologista e se dedica ao estudo da Amazônia e das questões climáticas. Ao Conversa Bem Viver, o pesquisador fala sobre a vinculação entre a política institucional e o enfrentamento à crise do clima. 

“Não podemos, nas próximas eleições, eleger políticos negacionistas, como o presidente dos Estados Unidos e o da Argentina. Se isso acontecer, o Brasil seguirá a linha de países que ignoram completamente o risco e aumentam as emissões de gases de efeito estufa”, defende. 

Nobre também explica como a intensificação das guerras e conflitos bélicos provocados pelos Estados Unidos impactam no atual contexto climático. 

“Quando olhamos todos os sistemas militares do mundo, eles representam — sem computar o que está acontecendo agora com essa guerra — a quarta maior emissão de gases de efeito estufa. Muito dessa guerra que está acontecendo agora é influenciada por políticos negacionistas climáticos que querem expandir a exploração de petróleo, gás natural e carvão”, explica. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: O senhor foi o único brasileiro nomeado pelo Papa para integrar o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Como você recebeu essa notícia?

Carlos Nobre: Na segunda-feira, em Roma, o Vaticano anunciou a criação desse dicastério, que vamos chamar de Conselho de Desenvolvimento Humano Integral. Foi realmente uma surpresa ver meu nome entre os 11 membros. Eu sou um cientista da área ambiental, sou o único ali dessa área. Senti-me muito honrado, porque julgo que esse conselho vai trazer para o Papa tudo o que está acontecendo no planeta, no sentido amplo de melhorarmos muito a qualidade de vida de bilhões de habitantes.

Eu pessoalmente vou trazer todos os riscos que a emergência climática está causando. Acho que fui convidado e selecionado por ser um cientista que faz pesquisa sobre a Amazônia; estou há 43 anos fazendo pesquisa sobre a região. Então, acho que vai ser importante levar ao Papa um conselho para ver a emergência de combatermos todos os estragos que estão no planeta.

Lógico que eu vou mais na linha ambiental, climática e de proteção de todos os biomas, mas tenho certeza de que esse grupo também vai trazer ao Papa os riscos que estamos vendo em todo o planeta por esse aumento de guerras. Isso está sendo uma coisa de enorme preocupação mundial. A gente até imaginava que, depois da Segunda Guerra Mundial, nunca mais haveria conflitos; houve vários, mas agora há um grande número de guerras muito preocupantes.

Tenho certeza de que esse grupo vai trazer para o Papa os riscos e o que tem que ser feito para convencer todas as populações do mundo de que não podemos aceitar o risco da emergência climática, nem, de modo algum, os países iniciarem guerras.

Serão reuniões periódicas entre esses 11 membros que depois resultarão em emendas para serem discutidas presencialmente com o Papa? 

Eu ainda não recebi as instruções, um documento dizendo como será o trabalho. Mas haverá, sem dúvida, uma reunião presencial para todos nos conhecermos. Eu, particularmente, ainda não conheci o Papa pessoalmente. 

Depois, certamente, esse grupo vai se reunir de forma virtual na maioria das vezes para começar a discutir tópicos importantíssimos que o conselho levará ao Papa. Vamos instruí-lo com informações seguras e soluções que devem ser buscadas imediatamente para evitarmos um gigantesco risco para o planeta.

Então, acho que é isso o que vai acontecer. Estamos muito satisfeitos, mas, claro, é um desafio. Temos que atuar muito para que o Papa lidere não só no meio religioso — sem dúvida, ele é o líder do catolicismo —, mas que seja visto também como um líder mundial que tem que atuar junto a governos e à classe política para o convencimento de que temos que combater todas essas emergências.

O senhor ainda não conheceu o Papa Leão 14, mas o Papa Francisco sim?

Sim. Eu fico muito feliz, porque o Papa teve uma iniciativa brilhante, que começou em 2018, com a criação do Sínodo da Amazônia. Foi a primeira vez que o Vaticano levou para Roma o Sínodo da Amazônia. O Papa Francisco esteve na Amazônia peruana em 2018 e teve uma belíssima reunião envolvendo um grande número de lideranças indígenas e outras comunidades locais. 

A partir daquela reunião, ocorreu o sínodo em agosto de 2019 e várias pessoas foram convidadas. Havia alguns cientistas — eu era um deles —, muitos líderes indígenas da Amazônia, líderes sociais e até alguns políticos. Foi um debate durante três dias no Vaticano que foi muito produtivo.

O Papa entendeu perfeitamente tudo o que está acontecendo na Amazônia e como temos que protegê-la. Eu, particularmente, entreguei um documento ao Vaticano que dizia: “A Amazônia está muito próxima do ponto de não retorno. Precisamos imediatamente salvá-la e zerar os desmatamentos”. Vários outros líderes indígenas levaram pontos muito importantes. O Papa Francisco foi o primeiro papa que defendeu totalmente a Amazônia em todos os sentidos, e isso teve uma repercussão mundial.

Aquele foi um momento muito bom. Tive poucos minutos, uns cinco minutos, para conversar diretamente com o Papa. Foi muito positivo. Eu não falo espanhol perfeitamente, mas falei “portunhol”. Como o Francisco vinha da Argentina, ele entendeu. Conversamos uns cinco minutos e coloquei para ele toda a urgência que temos em salvar a Amazônia. Ele foi muito positivo e trouxe esses pontos todos nos seus discursos. Foram três dias históricos na minha vida.

A opinião pública e o senso comum entendem que a igreja e a ciência sempre foram conhecimentos antagônicos. Parece-lhe que estamos conseguindo evoluir no sentido de encontrar mais debates e diminuir o hiato entre essas duas áreas?

Sem dúvida, esse é um desafio muito importante e eu vejo com bons olhos. O Vaticano já fez vários eventos em que cientistas estavam presentes. É muito importante que nós, cientistas, também possamos trazer para os religiosos o que a ciência diz sobre a evolução do nosso planeta, de todos os nossos biomas, da biodiversidade e da questão climática. É muito importante trazermos isso para os religiosos também. Vamos torcer para que isso funcione muito bem.

O que está acontecendo agora, com guerras e bombardeios diários, traz um impacto no aceleramento das mudanças do clima e na emissão de carbono? 

Quando olhamos todos os sistemas militares do mundo, eles representam — sem computar o que está acontecendo agora com essa guerra — a quarta maior emissão de gases de efeito estufa, depois de China, Índia e Estados Unidos. Há uma enorme emissão de gases nessas atividades militares. É lógico, não há como não trazer isso. Três desses 11 membros desse conselho que o Papa criou vêm dos Estados Unidos; vamos torcer para que eles tragam essas questões.

Muito dessa guerra que está acontecendo agora é influenciada por políticos negacionistas climáticos que querem expandir a exploração de petróleo, gás natural e carvão. É um risco enorme para o planeta, principalmente vindo dos Estados Unidos, que é o país que mais emitiu gases de efeito estufa historicamente: 25% de todas as emissões. Atualmente é o terceiro, mas é uma questão muito importante. 

Essas guerras são terríveis pelo desastre que causam, pelo número de vidas tomadas e também pelo aspecto ambiental, porque podem induzir a não reduzirmos rapidamente o uso de combustíveis fósseis. Hoje, 75% das emissões vêm da queima de combustíveis fósseis. A guerra traz um enorme risco para a vida e para o combate à emergência climática. Temos que acabar com todas as guerras.

Estamos no início de abril, às vésperas de completar mais um ano da tragédia no Rio Grande do Sul em 2024. O Rio Grande do Sul e o país aprenderam as lições? 

Nós, cientistas climáticos, estamos chamando a atenção para esses eventos extremos — chuvas excessivas, secas, ondas de calor, incêndios florestais — há muitas décadas. Por exemplo, o evento climático que mais levou a mortes no Brasil ocorreu em janeiro de 2011, na região serrana do Rio, com 918 óbitos.

O episódio no Rio Grande do Sul em maio de 2024 afetou mais de 90% do estado. Milhões de gaúchos foram afetados, dezenas de milhares de casas foram destruídas por deslizamentos ou inundações, houve 184 mortes e ainda há desaparecidos. A partir daquele evento, notamos que a maioria dos brasileiros se tornou muito mais preocupada com as mudanças climáticas. Aquilo foi simbólico; culturalmente, os brasileiros ficaram muito mais alertas.

O El Niño foi o terceiro mais forte e teve muito a ver com a chuva excessiva no final de 2023 na Bacia do Rio Taquari. Em maio de 2024, ele já tinha desaparecido, mas foi o aquecimento global que causou o sistema meteorológico que segurou as frentes frias sobre o Rio Grande do Sul e causou quase 900 milímetros de chuva em poucas semanas. Tudo tem a ver com o aquecimento global. Muita preocupação e muita atenção.

O governador do Rio Grande do Sul criou um centro de ciência e tecnologia para adaptação às mudanças climáticas. Eu faço parte desse conselho, junto com inúmeros cientistas do Brasil e do estado. Esse conselho está dando um caminho muito importante para a adaptação aos eventos extremos e para a preparação. Então, estamos sentindo que isso está melhorando no Brasil.

Agora, há um enorme risco. Não podemos, nas próximas eleições, eleger políticos negacionistas, como o presidente dos Estados Unidos e o da Argentina. Se isso acontecer, o Brasil seguirá a linha de países que ignoram completamente o risco e aumentam as emissões de gases de efeito estufa. Eu não quero citar nenhum candidato específico, não faço isso, mas, por favor, brasileiros: não elejam políticos negacionistas de qualquer partido.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Conversa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 8h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Source link