No Dia Mundial da Saúde, o alerta vem do trabalho que adoece

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A saúde mental dos trabalhadores brasileiros se tornou um dos principais desafios sociais, econômicos e organizacionais do país. Os dados mais recentes confirmam uma tendência preocupante: o adoecimento psíquico cresce de forma consistente, impactando não apenas a vida dos trabalhadores, mas também a produtividade das empresas e os custos do sistema previdenciário.

O Brasil já ocupa posições alarmantes em rankings globais de ansiedade e com registros recordes de afastamentos laborais por transtornos como depressão e ansiedade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o país é o segundo mais deprimido das Américas, atrás apenas dos Estados Unidos, e o que tem o maior índice de diagnosticados com ansiedade no mundo.

Esse cenário se materializa de forma contundente no mercado de trabalho. Em 2024, foram mais de 470 mil afastamentos por transtornos mentais. Em 2025, o número saltou para mais de 546 mil licenças concedidas por transtornos mentais e comportamentais, um aumento de quase 16% em relação ao ano anterior, de acordo com o Ministério da Previdência Social. É o segundo ano consecutivo de recorde.

Os diagnósticos mais frequentes revelam o perfil desse adoecimento: transtornos de ansiedade lideram, com 166.489 afastamentos, seguidos por episódios depressivos (126.608). Outros quadros, como transtorno bipolar, estresse crônico, dependência química, esquizofrenia e alcoolismo, também avançam, ampliando a complexidade do problema. Trata-se de uma crise que exige respostas estruturais.

Isso também evidencia um fenômeno ainda subestimado: o presenteísmo. Diferentemente do afastamento formal, o trabalhador presente, mas adoecido, representa um custo invisível e frequentemente maior. A queda de produtividade, o aumento de erros e o desgaste das equipes tornam o presenteísmo um passivo silencioso nas organizações.

Panorama na Caixa Econômica Federal

Os dados da última pesquisa realizada pela Fenae (Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa) ajudam a dimensionar esse problema em um dos maiores bancos públicos do país.

O levantamento, realizado em 2025, ouviu 3.820 empregados da ativa e aposentados da Caixa, de todas as regiões. Mais da metade dos trabalhadores (50%) relatou trabalhar mesmo adoecida, caracterizando presenteísmo. Ao mesmo tempo, 41% afirmaram nunca ter se afastado, mesmo diante de quadros de adoecimento. Entre os que se afastaram, 82% não emitiram o Comunicado de Acidente de Trabalho (CAT), sendo que 37% apontaram medo de retaliação. Os números sugerem subnotificação e indicam que o adoecimento real pode ser ainda maior do que o registrado oficialmente.

Enquanto o índice de afastamento por doenças mentais e comportamentais que motivou a atenção do Ministério do Trabalho gira em torno de 8%, na Caixa esse percentual ultrapassa 50%.

A pesquisa da Fenae mostrou que 58% dos afastamentos na Caixa estão relacionados à saúde mental, superando os afastamentos por causas físicas (53%). Quase dois em cada três trabalhadores já precisaram se afastar por adoecimento psíquico, e, ainda assim, 35% dos empregados diagnosticados e medicados nunca se afastaram, um indicativo de que muitos seguem trabalhando mesmo doentes.

Os fatores organizacionais também aparecem de forma explícita. Para 41% dos empregados da Caixa, o risco de perda de função é uma ameaça constante. Outros 28% não veem sentido no trabalho que realizam, e 55% afirmam sofrer pressão para vender produtos que não consideram adequados aos clientes. Outro dado que chama atenção é o uso de medicamentos.

Um em cada três empregados (32%) recorre a fármacos por questões relacionadas ao trabalho. Além disso, quase 30% dos afastamentos duram seis meses ou mais, o que agrava a sobrecarga sobre os colegas que permanecem em atividade e alimenta um ciclo contínuo de adoecimento. A percepção dos próprios empregados reforça esse diagnóstico: 61% consideram que a Caixa não oferece apoio adequado à saúde mental.

O caso da Caixa não é isolado, mas ilustra com nitidez um fenômeno mais amplo. A intensificação do trabalho, combinada com modelos de gestão baseados em metas agressivas e pressão constante, tem produzido um ambiente propício ao sofrimento psíquico em diversos setores da economia.

*Sergio Takemoto é presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae)

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não expressa necessariamente a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.


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