Todos os anos, os dias que cercam o 24 de março são marcados por um frenesi vertiginoso. Em toda a Argentina, são incontáveis as diferentes atividades que buscam manter viva a reivindicação de “Memória, Verdade e Justiça”.
A data recorda o episódio mais terrível da história do país: em 24 de março de 1976, teve início o último golpe de Estado cívico-militar argentino. Mais de 600 centros clandestinos de detenção, milhares de pessoas detidas e torturadas sob métodos cruéis e 30 mil desaparecidos são apenas alguns dos números que expressam o horror daqueles anos, nos quais o medo e o terror se tornaram política governamental. O terrorismo de Estado foi a forma concreta pela qual os setores dominantes — o grande empresariado, em coordenação com o imperialismo estadunidense — tentaram pôr fim ao ciclo de lutas revolucionárias na Argentina.
No entanto, apesar do terror imposto, todos os anos, centenas de atividades são organizadas em escolas de ensino médio, bairros populares, antigos centros clandestinos de detenção, sindicatos e centros culturais para lembrar os desaparecidos e exigir que a verdade seja conhecida e a justiça seja feita.
Em meio ao turbilhão da organização da marcha e às ligações telefônicas que não param, a representante da Associação Madres de Plaza de Mayo, Carmen Arias, concedeu uma entrevista exclusiva ao Brasil de Fato sobre os 50 anos do golpe de Estado.
Brasil de Fato: Há meio século do golpe, a data de 24 de março combina a dor pelo vivido com uma persistente construção de memória coletiva. Como as Mães da Praça de Maio vivem este aniversário, entre as lembranças do passado e a continuidade de sua luta ao longo dos anos?
Carmem Arias: É uma data que traz lembranças muito duras, porque começaram a levar nossos filhos há 50 anos. Mas, ao mesmo tempo, significa 50 anos de luta para as Mães. Desde o primeiro momento, nos propusemos a lutar e seguimos fazendo isso. Então, é um monte de lembranças, mas também de luta. Ao longo de todo esse tempo, sempre tivemos muitas coisas contra nós, em diferentes governos — com a única exceção dos de Néstor e Cristina (Kirchner), que nos apoiaram e nos reconheceram. Mesmo assim, mantivemos viva a luta pela memória.
Este ano é, sem dúvida, um aniversário especial. Todos estão muito comovidos: 50 anos é muito tempo. Mas acredito que, para nós, todos os anos foram especiais. É difícil explicar o quanto essa data nos marcou profundamente, por tudo o que significa: as marchas, as atividades em cada canto do país, as milhares e milhares de conversas com jovens, a busca por nossos filhos, a resistência, a tristeza quando uma mãe parte sem ter conseguido saber onde está seu filho, a luta contra a impunidade, a alegria cada vez que encontramos um filho ou um neto.
São muitos anos, e tudo continua presente naquele abraço gigante que é a marcha. Sempre pudemos realizar as marchas e continuaremos fazendo enquanto tivermos forças, enquanto ainda estivermos aqui. E, quando não restar mais nenhuma de nós, outras milhares de pessoas continuarão. Isso é o que construímos ao longo de todos esses anos.
A continuidade da memória também depende das novas gerações que se aproximam, escutam e se envolvem. Qual tem sido o papel dos jovens no acompanhamento às Mães e como vocês percebem seu compromisso diante do contexto político atual?
Felizmente, sempre tivemos jovens que se aproximaram e estiveram ao nosso lado. O tempo passa e muitos deles hoje já são adultos. Mas seguimos recebendo jovens que nos acompanham na praça, que se aproximam e se interessam pelo que aconteceu.
Na verdade, sempre fomos mais desconsideradas pelos diferentes governos do que pelos jovens. Hoje enfrentamos o governo que temos, um governo que reivindica a ditadura genocida que fez nossos filhos desaparecerem. Mas há muitos jovens que entendem o que aconteceu conosco e que nos acompanham. Eles entendem que o que aconteceu conosco, aconteceu com todo o povo.
Na América Latina, as ditaduras deixaram um saldo comum de repressão, mas nem todos os países desenvolveram processos de memória com a mesma força. O que você acha que a luta por memória, verdade e justiça na Argentina pode ensinar às lutas latino-americanas?
Houve assassinatos e desaparecimentos em diferentes países da América Latina por causa do tristemente famoso Plano Condor. Mas em poucos lugares houve lutas por memória, verdade e justiça como as que ocorreram aqui, onde as Mães da Praça de Maio, desde o primeiro momento, saíram às ruas para lutar. Acho que essa é uma experiência valiosa da qual devemos nos orgulhar.
Nunca foi fácil. Naqueles anos, fomos presas, criticadas e tentaram nos deter muitas vezes com ações terríveis, mas seguimos sempre na luta para que isso não volte a acontecer — não apenas na Argentina, mas no mundo —, para que não se repita o que aconteceu conosco com o desaparecimento de nossos filhos e filhas. Porque sempre dizemos que a única luta que se perde é aquela que se abandona; portanto, nunca a abandonamos.
O governo de Javier Milei é o primeiro da democracia argentina que faz uma reivindicação explícita da última ditadura. Como vocês, das Mães, interpretam as políticas atuais?
Este é um governo que é uma cópia dos militares, um governo alinhado a eles. Inclusive, comenta-se que tentam conceder liberdade ou prisão domiciliar aos repressores que estão presos — algo inaceitável: depois de tantos anos de luta, não vamos permitir que deixem os genocidas em liberdade.
Desde o primeiro momento, esse governo nos atacou. Uma das coisas mais duras que fez conosco, assim que assumiu, foi tirar de nós a universidade que tínhamos. Temos uma universidade há 25 anos: primeiro foi Universidade Popular, depois Instituto Universitário Nacional e, desde 2022, é a Universidade Nacional Madres de Plaza de Mayo. Quando este governo chegou ao poder, poucos dias depois, retirou absolutamente todo o orçamento que lhe corresponde como universidade nacional e, em seguida, a interveio, nomeando um reitor interventor, que é quem a dirige agora. Eles mantiveram o mesmo nome — Universidade Nacional Madres de Plaza de Mayo —, mas nos tiraram o controle. É uma vergonha total.
Tenho fé de que poderemos recuperá-la. Quando conseguirmos mudar de governo, poderemos fazê-lo, porque realmente é uma aberração o que fizeram. É algo absolutamente ilegal: eles não tinham nenhum motivo para fazer o que fizeram conosco, a não ser nos atacar.
Faz parte de um ataque a todo o povo. As pessoas não têm trabalho, estão destruindo o emprego. É um governo que ataca as pessoas com deficiência, os aposentados e a saúde pública; o que fizeram com o Hospital Garrahan… tudo o que fazem é contra o povo. É terrível o que estão fazendo no país.
Muita gente diz que estão vendendo o país; eu não acho que seja isso: o que estão fazendo é entregar o país aos mais ricos e às potências estrangeiras.
A luta pela memória dos desaparecidos também é uma luta por um projeto de sociedade. O que significa hoje reivindicar os 30 mil desaparecidos?
Nossos filhos eram revolucionários e, por isso, foram desaparecidos. Eles levaram nossos filhos porque estavam lutando para que todos nós tivéssemos um país melhor, para que todos nós tivéssemos um mundo melhor. Não falo de partido político, mas da construção de um mundo melhor para todos: para os pobres, os trabalhadores, os camponeses e as mulheres, como queriam os nossos. Para que nenhuma criança ou idoso fique sem comida, educação ou saúde.
Eles sonhavam com um mundo muito diferente do que temos hoje. Cada vez que tenho a oportunidade de conversar com jovens, procuro escutá-los. Nesse caminho da juventude, é importante que se interessem, que investiguem o que realmente aconteceu no país: por que aconteceu, como aconteceu. Essa é a forma de compreender para que lado devem seguir, para que todos possamos construir um país e um mundo melhor. Acho que todos temos muito a aprender com os nossos, com aqueles que levaram, com seus sonhos e suas lutas.

