Recentemente, uma imagem circulou pelas redes sociais de Donald Trump, na qual o presidente dos EUA figurava como uma entidade messiânica, curando enfermos sob a proteção de anjos, aviões de caça e tanques de guerra. Para o observador racional, a cena beira o ridículo. Mas, para a militância do movimento MAGA (Make America Great Again), os evangélicos e grupos como o QAnon, aquela imagem não é uma farsa; mas uma representação consolidada em seu inconsciente.
O silêncio das lideranças evangélicas diante de tal heresia tem uma explicação política: elas sabem que, para seus seguidores, Trump não governa apenas um Estado; ele habita o imaginário de seus seguidores como um Salvador. O movimento que o reconduziu à Casa Branca não é apenas uma coalizão eleitoral. É uma simbiose entre o aparato tecnológico do Vale do Silício e narrativas milenares de dominação.
A idade de ouro: o futuro no retrovisor
O imaginário que sustenta o trumpismo não nasce do vácuo; ele repousa sobre estruturas míticas ancestrais que operam no inconsciente coletivo.
Na Grécia antiga, essa arquitetura mental começa com o historiador poeta Hesíodo, que cristalizou a ideia de que nos primórdios dos tempos, os homens viviam como deuses, com corações livres de ansiedade. Não havia velhice e a terra dava frutos espontaneamente, sem necessidade de trabalho, época a qual ele chama de Idade de Ouro.
Dessa era à era atual, só decadência: a Idade do Ferro e a era da decadência absoluta, onde a harmonia da Idade de Ouro foi substituída pelo peso do trabalho braçal, pela angústia e pela injustiça. Ela representa o momento em que a humanidade abandona a “grandeza trágica” para mergulhar na “miséria moral”. É a queda final antes do colapso.
Foi o poeta latino quem deslocou a Idade de Ouro de um passado nostálgico para uma promessa de retorno futuro. Virgílio profetiza que essa perfeição pode ser restaurada na terra através de um líder providencial que apagará os vestígios do mal.
A Nova Jerusalém e o paraíso reconquistado
A fusão entre a mitologia greco-romana e a escatologia judaico-cristã cria uma das ferramentas mais potentes de controle do imaginário ocidental.
Nessa fusão, o pessimismo de Hesíodo — que vê a humanidade degradar-se da pureza do Ouro até a brutalidade do Ferro — encontra seu correlato bíblico na vida edênica inicial e na queda do Paraíso pelo pecado. Assim, o mundo moderno é lido, simultaneamente, como a “Idade de Ferro” clássica e como a “Babilônia” corrompida. O presente deixa de ser um espaço de construção para se tornar um lugar de condenação, onde a única saída é a destruição total.
A promessa de Virgílio de que um líder providencial traria de volta a Justiça e a Idade de Ouro funde-se, então, com a figura messiânica do Cristo Triunfante. O O novo líder romano e o messias bíblico tornam-se um só: o líder político é ungido com a aura de quem não apenas governa, mas “redime” a nação. A política deixa de ser o campo da negociação para ser o palco do Armagedom.
O salvador e a aura da infalibilidade
Para que a humanidade saia da decadência e recupere o paraíso perdido, o mito exige um agente de ruptura: o Salvador. No entanto, a adesão a essa figura não é apenas política, é de uma permissividade absoluta.
Uma vez que o seguidor acredita que o líder é providencial e “vê além” dos mortais comuns, estabelece-se uma relação de entrega cega. Todos os seus atos, mesmo os mais desastrados, contraditórios ou violentos, são assimilados como frutos de uma sabedoria oculta, parte de um plano mestre que a “gente comum” não consegue alcançar. Essa mística anula a crítica: o erro do líder é lido como estratégia, e sua crueldade como coragem necessária.
A “Barbárie Purificadora” e o impulso apocalíptico
A pesquisa histórica nos mostra que o mito da decadência não é apenas um lamento; ele é um motor de destruição. No fascismo e no nazismo do século 20, a crença no esgotamento da civilização levou ao desejo pela “barbárie purificadora”. Acreditava-se que só um fim catastrófico poderia limpar o mundo.
Trump e seus aliados operam nessa fronteira. Suas narrativas conspiracionistas, como as do QAnon, flertam constantemente com o caos. Se o sistema está “podre”, qualquer ataque às instituições é lido como uma “limpeza necessária”. É a política do suicídio coletivo em nome de uma ressurreição mítica.
O mito como agente do caos: um chamado à razão
É urgente que os setores de mídia, o empresariado e as instituições de Estado recuperem a racionalidade política antes que o ponto de não retorno seja ultrapassado. A história nos ensina que, quando o mito assume o volante da história, a previsibilidade econômica e a estabilidade institucional são as primeiras vítimas. O que Donald Trump comanda hoje, através de narrativas apocalípticas e da incitação a guerras culturais e comerciais, não é apenas um estilo de governo, mas um convite à ruptura sistêmica.
Se a efervescência do mito continuar a ser alimentada em busca de cliques ou de ganhos políticos imediatos, o risco de uma crise global sem precedentes torna-se inevitável. O “Salvador” não presta contas a balanços financeiros ou a tratados internacionais; sua única fidelidade é com a manutenção do transe místico de seus seguidores, mesmo que isso signifique o aprofundamento de conflitos que geram apenas instabilidade e destruição.
Enfrentar essa onda exige mais do que a simples checagem de fatos. Exige desmascarar o mecanismo do mito e apontar que a “Idade de Ouro” prometida é uma ficção que esconde a exploração mais bruta, sendo o “Salvador” apenas o gerente de um projeto de poder das elites que, ironicamente, ele pode acabar também destruindo.
Dimas Antônio de Souza é professor de ciência política do Instituto de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas)
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Leia outros artigos de Dimas Antônio de Souza em sua coluna no Brasil de Fato MG
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