Em 2013 o professor Guilherme Delgado escreveu um artigo explicando por que o projeto do agronegócio seria impensável numa democracia real. Basicamente, seus argumentos demonstravam que o conjunto da sociedade estava financiando o enriquecimento de um número relativamente pequeno de empresários que se beneficiavam da articulação entre os interesses relacionados aos mercados financeiro e de comodities agrícolas, às custas do Brasil como um todo. Ele acreditava que, em base a decisões democráticas e bem-informadas, jamais um pais aceitaria financiar aquela expansão de manchas de degradação racionalmente inaceitáveis e comprometedoras do presente e do futuro de sua população. E como sabemos, o controle de informações por parte das mídias corporativas a serviço do movimento neocolonialista não apenas viabilizou a consolidação daquela realidade como continua impedindo que a sociedade tome ciência do que mais a ameaça, no momento atual.
Em 2015, 2023 e 2025 , chamando atenção para nossas responsabilidades em relação à saúde do planeta, Luiz Marques mostrou que o avanço de políticas contrárias ao desenvolvimento do Brasil estão contribuindo para o colapso ambiental global. Em termos objetivos o nosso agronegócio, impulsionado pelo governo e glamourizado pela mídia corporativa, se revelava como o principal responsável pela destruição de nossos biomas e suas consequências.
Com o empoderamento das bancadas do agro e com a desestruturação de atividades e comunidades rurais ambientalmente amistosas e voltadas ao mercado interno, sobrevieram o envenenamento das águas, a redução na fertilidade dos solos, a destruição da biodiversidade e dos serviços ambientais entre outras tragédias literalmente financiadas pela transferência de recursos públicos e subsídios gigantescos, para sustentação deste modelo de agronegócio ineficiente AQUI ENTRA ESTE HIPERLINK à https://agroecologia.org.br/wp-content/uploads/2013/10/revista-abra-agronegocio-e-realidade-agraria-no-brasil.pdf e ecocida. As implicações de longo prazo sobre a saúde do planeta podem ser vistas entre nós, pela tragédia ambiental que afetou o RSem 2024.
Foi desta forma que (em que pesem esforços de resistência por parte de organizações da sociedade civil, e mesmo de alguns momentos de esperança ao longo dos governos Lula-Dilma) o bloco pró-agronegócio cresceu, se consolidou e alcançou a condição de força hegemônica que hoje opera em todos os poderes da República. Resultou disso que, sob domínio da ignorância negacionista, a nação brasileira parece ter desistido dos seus antigos sonhos e projetos de soberania.
O posicionamento dos senadores que nesta quarta-feira impediram a indicação de Jorge Messias, ao STF demostra o novo significado do sucesso (em termos de articulação política) e anuncia o que devemos esperar de congressistas dispostos a garantir o recuo do Brasil em direção ao cabresto de interesses alheios às necessidades de todos.
Como que antecipando esta realidade, no mês passado, durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos tivemos oportunidade de ouvir, no painel intitulado “A luta contra o negacionismo climático e pela reforma agrária no contexto da crise ambientalque ou bem interrompemos essa queda livre civilizatória, e avançamos em direção à construção de bases para retomada da consciência popular, ou o caos será inevitável. Isso, que tem tudo a ver com aquelas análises de Guilherme Delgado e Luiz Marques, que nos ajudam a entender o forte nexo entre o fim da democracia, a concentração de poder e riquezas, e os avanços da crise climática, sob o controle de informações que impulsionam o negacionisenfrentandomo.
Para citar alguns pontos: Michael Löwy apontou a agroecologia, a reforma agrária, a busca de soberania alimentar em circuitos curtos e o ecossocialismo, como “eixos estruturantes” de uma alternativa ao modelo de agronegócio que vem se revelando (não apenas entre nós) como um dos principais vetores da destruição ambiental e de sustentação ao avanço do fascismo.
Nesta visão, a destruição da democracia estaria diretamente conectada à subordinação do Brasil à interesses responsáveis pelo agravamento de tragédias que se abatem especialmente sobre populações vulneráveis (conforme prometido no programa do filhote do coiso) que, paradoxalmente, constituem a base eleitoral de extrema direita.
E tudo isso vem funcionando com base na distorção de informações que afetam o inconsciente coletivo, mantendo a população inerte e distraída. Vejam que não há reação ao fato de que, a um só tempo, a Fiocruz relaciona o avanço da temperatura à fragilização do sistema imunológico, agravando fragilidades e doençase o Candidato Filho do Bolsonaro anuncia intenção de cortes no sistema de saúde. Enquanto os apoiadores do F do B trabalham pela destruição de legislações protetivas ao ambiente, a mídia desfaz a importância dos anúncios de El Niño intenso, até 2026. E em Porto Alegre, por exemplo, o prefeito Melo prepara seu plano de ação contra enchentes apoiado na crença de “serem pequenas as chances de uma cheia como a de maio de 2024”. Se baseia em consultoria que, olhando previsões do passado, acredita que enchentes como a de 2024 só ocorrem uma vez a cada 200 anos. Assim, desprezando os dados da realidade, os negacionistas ignoram agendas preventivas e oferecem às futuras vítimas o consolo de que, no presente, percebem como pequena, a chance do caos.
Vejam que aqui se aplica tanto o conceito de infocraciareferido na coluna da semana passada, como as informações trazidas por Diorge Konrad, no texto agnotologia- a ignorância como projeto .
Essencialmente ambos afirmam que as dúvidas podem ser construídas de forma a estimular o descaso/a negação de credibilidade a informações que causam desconforto na medida em que reclamem mudanças de atitude. Simples assim: o controle de informações veiculadas de forma massiva acaba conferindo (pela repetição) validade a mentiras e desinformações propositalmente disseminadas. Isso oferece oportunidades de alívio psicológico, eliminando inseguranças e reforçando a autoestima daqueles que, capturados pelos argumentos da mídia, “decidem” rejeitar a necessidade de alterações de comportamento em relação a situações angustiantes.
E os algoritmos, ao oferecerem “soluções sob medida” especificamente dirigidas a cada tipo de dissonância cognitiva, acabam provocando reações de afirmação ou negação às informações que pretendem reforçar ou anular.
Através desses mecanismos, os donos da comunicação de massa têm conseguido ocultar os impactos negativos do agronegócio e as ameaças do aquecimento global, transformando o debate sobre o que precisamos fazer para enfrentar os problemas em discussões sobre a veracidade, falsidade, urgência ou irrelevância do que a ciência aponta como real. Algo semelhante levou à contabilização de 700 mil mortes durante a Covid, em decorrência da divulgação de falsidades sobre a importância das vacinas, semeando dúvidas que expandiram a ignorância pública a respeito de um problema real.
Em outras palavras, a dúvida vendida como produto em meios de comunicação de massa instaura a hesitação como comportamento social e isso dificulta reações apoiadas na consciência coletiva. Por isso negacionismo é a regra dominante entre nossos líderes subordinados ao império em decadência (que sabota acordos contra o aquecimento global). Mas esta não é uma condição inevitável, que se oferece como única. Na china comunista a realidade é outra. Lá, onde vivem 1,4 bilhão de pessoas e apenas 13% do território é agricultável, as políticas de estado estão sendo orientadas para recuperação de solos e combate à desertificação. Desde o final dos anos 70 os chineses já recuperaram o equivalente a 30 milhões de hectares. E desde 2018 a restauração dos ecossistemas, como requisito para o desenvolvimento faz parte da constituição federal daquele país, que mobiliza governos municipais (com metas ecológicas por comunidades) para a execução de políticas nacionais de longo prazo.
O ponto aqui é esse: como fugir do negacionismo e enfrentar dramas gigantescos como aqueles que provocados pelas causas do aquecimento global?
Através de guerras, incêndios e injustiças climáticascolocando todos contra todos, ou em concertos animados pela solidariedade para enfrentamentos coletivos?
Anulando as capacidades dos governos, com privatizações e cortes de gastos em perspectiva de curto prazo, ou mobilizando os estados nacionais para direcionamento de suas economias, considerando que o futuro depende do presente?
A resposta parece fácil, mas sua implementação exige uma conscientização social que, como mostram as pesquisas eleitorais, estamos longe de alcançar.
Por este motivo (e com esta esperança) os jornais Sul21 e Brasil de Fato promoverão (dia 4 de maio, no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul) debate sobre os dois anos das enchentes no RS, perguntando simplesmente, “Para onde vamos?”.
A atividade se propõe a ajudar a sociedade gaúcha a recuperar convicções e a estimular atitudes coerentes com responsabilidades que incluem a avaliação do modelo de sociedade em que vivemos, considerando suas fragilidades, perspectivas e necessidades.
Se trata de entender o que está em jogo e decidir o que fazer em relação à possível eleição de representantes da extrema direita negacionista, corrupta, patrocinadora da crise ambiental e comprometida com nosso retorno à condição de colônia extrativista, neste ano de 2026.
Se trata de encontrar caminhos para enfrentamento dos mecanismos que viabilizam a pilhagem climática caracterizada pelo fato de que o império controlado pelos Estados Unidos, sozinho, já é responsável por 40% da crise climática deste mundo onde um indivíduo do grupo dos 0,1% mais ricos produz mais poluição, em um dia, do que dois indivíduos, dos 50% mais pobres, em meio ano.

Será possível um mundo diferente deste, onde (de 1990 até agora) enquanto as emissões dos 0,1% mais ricos aumentaram 32%, as dos 50% mais pobres foram reduzidas em 3%? O que o agronegócio tem a ver com isso? E o que nos cabe pensar e fazer a respeito disso?
Aí está uma pergunta que não pode ser respondida individualmente.
Uma última frase, agora que a corja de golpistas derrubou o veto à dosimetria, impondo derrota à democracia, à dignidade do Congresso e ao Lula, só me ocorre uma coisa: o Lula é maior do que todos eles juntos. Não apenas a história, no futuro, dirá isso. E desde agora, a vergonha dos 49 senadores e 318 deputados capturados pelo fascínio da corrupção marcará o papel daqueles que entram fedendo na história universal da infaâmia.
Uma música sobre o relógio do dia final, e nossa parte no que será que virá?
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

