O capitalismo ainda cava sua própria cova?Contradições e lutas no Brasil hoje

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A afirmação de que “o capitalismo cava sua própria cova”, consagrada por Karl Marx e Friedrich Engels em O Manifesto do Partido Comunista, longe de se tratar de uma previsão determinista ou de uma profecia revolucionária, inscreve-se no centro do método materialista histórico-dialético, expressando a dinâmica contraditória e destrutiva do modo de produção capitalista, partindo do reconhecimento de que o capital, ao desenvolver as forças produtivas, aprofunda suas próprias contradições internas, especialmente a contradição entre capital e trabalho, e, ao fazê-lo, cria as bases objetivas e subjetivas para sua superação histórica.

No centro dessa formulação está a percepção de que o capitalismo, em sua busca incessante pela ampliação da mais-valia e pela expansão do valor, acaba por corroer os fundamentos que garantem sua reprodução social: a força de trabalho, a natureza, a coesão social e a própria legitimidade política. Essa dinâmica não conduz automaticamente sua ruína, mas cria crises cíclicas, rupturas e brechas que podem ser canalizadas em direção à transformação social, desde que haja sujeitos políticos organizados capazes de atuar estrategicamente nas fissuras do sistema. Como bem resume a célebre sentença do Manifesto, “o que a burguesia produz, antes de tudo, são os seus próprios coveiros”.

Ao longo dos séculos 19 e 20, essa tese encontrou ressonância em diferentes conjunturas históricas, sendo mobilizada para compreender crises econômicas, guerras, revoluções e contrarrevoluções. Contudo, nas últimas décadas, assistimos a um processo de reestruturação do capitalismo global, marcado pela hegemonia do capital financeiro, pela fragmentação das formas de trabalho e pelo esvaziamento das instituições clássicas de organização da classe trabalhadora, tornando esse novo estágio do capitalismo como “financeirização”, que reorganiza as relações de exploração e cria novos desafios teóricos e políticos para a crítica marxista.

No Brasil, a partir das reformas neoliberais implementadas desde a década de 1990, intensificadas no pós-golpe de 2016, com a Reforma Trabalhista de 2017, e as novas alterações das Normas Regulamentadoras (NR), com Bolsonaro, em 2018, observa-se uma crescente desestruturação dos vínculos laborais formais, influenciando na reconfiguração das relações de trabalho hoje. Dados recentes do IBGE (2023) apontam que apenas 12% da população economicamente ativa possui emprego formal com carteira assinada, já o restante da força de trabalho está submetida a formas de ocupação marcadas pela instabilidade, ausência de direitos e remuneração instável e oscilante. No entanto, essa realidade, ao contrário de indicar o fim da classe trabalhadora, evidencia sua reconfiguração em um cenário de maior dispersão e precarização.

Nesse novo contexto, emergem formas de resistência que escapam das tradições sindicais e partidárias consolidadas no século 20, como é o caso dos movimentos como o Breck dos Appsmobilizações pelo fim da escala 6×1 e o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) expressam demandas por dignidade, tempo livre, saúde mental, entre outros. Embora tais lutas não assumam, de imediato, um discurso anticapitalista, elas podem ser compreendidas como expressões materiais das contradições contemporâneas do capital, e a esse respeito, é fundamental recuperar a distinção metodológica entre conteúdo e forma da luta de classes, presente na obra de Marx. Na obra Para a Crítica à Economia PolíticaMarx apresenta o conteúdo da luta enquanto os interesses objetivos da classe trabalhadora: sobrevivência, redução da jornada, melhores condições de vida, autonomia, vida sem patrões, acesso à riqueza socialmente produzida. Já a forma, por sua vez, diz respeito à maneira como essas lutas se expressam historicamente. Portanto, construir essa mediação é central para compreender que nem toda luta que não se apresenta como anticapitalista está desvinculada de um potencial antissistêmico, ao contrário, muitas vezes, as revoltas populares se manifestam sob formas ideologicamente dominadas, porque estas são as únicas linguagens disponíveis aos sujeitos subalternizados.

Assim, ao retomarmos a tese de que o capitalismo cava sua própria cova, não o fazemos como um gesto de nostalgia ou de fé na “inevitabilidade” da revolução, e sim que o que está em jogo é a compreensão de que, ao ampliar suas contradições, o capital abre brechas que podem ser convertidas em caminhos de transformação. No entanto, essa conversão exige mediação política, projeto histórico e organização popular, em que a fragmentação das lutas, a dispersão dos sujeitos e a hegemonia do individualismo neoliberal são obstáculos que só podem ser enfrentados com uma prática política enraizada nas experiências concretas da classe.

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