O Financial Times (FT) publicou, nesta última quarta-feira, 13 de maio, um caderno especial impresso e digital intitulado “Investing in Rio Grande do Sul”, detalhando os esforços de reconstrução econômica, atração de capital global e os desafios estruturais enfrentados pelo estado sulino.
Ninguém desconhece que o Rio Grande do Sul enfrenta uma crise estrutural há muitos anos. Crise essa que coincide com sucessivas administrações públicas de corte neoliberal. Sempre praticando os ditames socialmente excludentes de: estado mínimo, privatizações, política fiscal contracionista, flexibilização trabalhista, etc.
Por óbvio, nada disso deu certo, e o RS resvala lentamente para um estado de não-retorno.
Sempre é bom lembrar que o Rio Grande do Sul foi pioneiro no processo de modernização comumente chamado de “revolução burguesa”.
Ainda no final do século 19, o movimento castilhista – modernizante, mas autoritário – promoveu grandes, complexas e efetivas ações estruturais. Castilhos, no RS, antecipou por algumas décadas a modernização varguista no Brasil, a partir dos anos 1930.
A recente publicação (paga) no FT representa, pois, um certo sentido de consciência acerca da necessidade de reagir face à decadência evidente do estado riograndense.
Mas a reação, evidentemente, é mais do mesmo, qual seja: ratificar a opção política neoliberal e atrelar o setor público e privado regional à agenda mundial do conservadorismo mais excludente e entreguista.
O contexto da publicação no FT
O FT não foi remunerado pelo setor público do RS. Foi, sim, por empresas locais que tiveram oportunidade de publicar anúncios (pagos) no caderno especial dedicado ao Rio Grande. A legalidade da publicação é incontestável. O ponto a ser contestado é outro.
Cumpre, agora, apontar a totalidade do contexto sócio-político e ideológico do investimento de empresários locais associados ao pífio e anêmico governo Eduardo Leite (ex-PSDB, hoje PSD) no inaudito esforço de retirar o estado da vala em que se encontra.
Os anunciantes do caderno especial do FT sobre o Rio Grande do Sul foram empresas como a Taurus, Marcopolo, bancos como o Banrisul (estatal), Sicredi, e startups de biotecnologia e deep techs ligadas ao Instituto Caldeira e ao programa Cume Sul Brasil foram promovidas para atrair capital de risco (venture capital).
Gigantes do setor de grãos (soja e arroz) e cooperativas agrícolas financiaram anúncios e foram fontes de dados para os redatores ingleses do caderno.
Vinícolas da Serra Gaúcha utilizaram o espaço para posicionar o vinho brasileiro em um patamar de alta qualidade internacional, objetivando o mercado europeu e estadunidense.
Entidades como a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) atuaram na articulação para que indústrias de médio porte também fossem mapeadas e tivessem seus dados agregados nos infográficos do caderno FT.
A publicação coincide com a forte ofensiva internacional do governo Leite e da agência pública estadual “Invest RS” (antiga AGDI, criada no governo Tarso Genro/PT) para captar até R$ 20 bilhões em fundos de investimento estruturais e de deep techs durante eventos globais.
No entanto, se desconhece o resultado efetivo e concreto desse esforço operacional da referida agência de promoção de investimentos.
O orçamento da Invest RS e do governo do estado RS é direcionado para a missão diplomática e eventos paralelos.
Os recursos públicos, por exemplo, financiam: organização de comitivas e rodadas de negócios (como o RS Day em Nova York).
Financiam eventos, seminários e painéis de discussão realizados em conjunto com o grupo FT Live. Bem como a criação de materiais técnicos de apoio para apresentar a carteira de projetos estaduais aos fundos internacionais.
O dinheiro público, portanto, custeia a estratégia de atração de investimentos internacionais (viagens, fóruns e infraestrutura institucional), enquanto o mercado corporativo privado do Rio Grande do Sul financia a existência comercial do papel impresso por meio de anúncios tradicionais.
A política pública do “mais do mesmo” significa fracasso garantido
A aposta – sempre arriscada – do neoliberalismo sulino em eventos de atração negocial em Nova York e, agora, no evangelho neoliberal que é representado pela publicação inglesa Financial Times constituem atos e ações que ratificam políticas públicas regionais que já provaram ser rotundos fracassos.
Equívocos continuados que exibem a exaustão inglória de uma elite desligada do real e do contemporâneo.
O FT é o intelectual orgânico do neoliberalismo como bloco histórico global. Ele não apenas reflete os interesses do capital financeiro – ele os elabora, universaliza, doutrina e defende ativamente, exatamente como Gramsci descreveu o papel do partido revolucionário, só que a serviço da ordem. Neste caso, do capital financeiro.
Ou, dito de forma mais direta: se houvesse um “Partido do Capital Global”, seu jornal oficial seria o Financial Times, e seu catecismo, o editorial da segunda-feira, com as suas orientações didáticas de como as finanças devem prevalecer sobre a produção, sempre.
O Rio Grande necessita projeto de neoindustrialização, já
Notem que o RS não é um estado com hegemonia do capital financeiro, não somos uma praça bancário-especulativa.
O PIB do Rio Grande é de dominância do capital produtivo, seja primário (o agro), seja industrial, incluindo setores novos como da tecnologia digital.
Neste caso, o neoliberalismo, aqui, é um projeto fora do lugar. O RS – bem como o Brasil todo – necessita um projeto viável e urgente de neoindustrialização, gerador de emprego e renda.
Ora, todos sabemos que o neoliberalismo só nos proporciona especulação para poucos e pobreza para os demais.
Se para Gramsci o partido revolucionário era o “príncipe moderno” que forma intelectuais orgânicos da classe trabalhadora para construir hegemonia alternativa, o FT opera exatamente com a mesma lógica, mas com o sinal trocado: é o intelectual orgânico da grande burguesia globalizada e do capital financeiro.
O que o Rio Grande tem a ganhar com isso? Absolutamente, nada.
Gramsci observou que, nas sociedades ocidentais avançadas, o poder não se mantém apenas pela coerção (polícia, exército), mas principalmente pela hegemonia – direção intelectual e moral consentida e pactuada.
O FT é um dos aparelhos privados de hegemonia mais eficazes porque não precisa ameaçar, basta convencer que a política fiscal contracionista, a flexibilização trabalhista e a abertura comercial são técnicas, jamais ideológicas.
O FT fala a linguagem da neutralidade, gráficos, dados, análises “isentas”, quando na verdade os pressupostos são profundamente normativos e impositivos, não-democráticos.
O FT seleciona e forma quadros, jovens economistas que publicam no FT são convidados a bancos centrais, fundos de investimentos especulativos (jamais produtivos), consultorias, governos de direita, etc.
O exemplo concreto está estampado no caderno do RS.
Sob a ótica gramsciana, aquele caderno pago não é apenas propaganda. É um ato de formação de consenso ativo: mostra o RS como bom para negócios, induz governantes locais a seguir a cartilha vinda de cima.
Empresas locais (Taurus, Marcopolo, vinícolas) tornam-se agentes dessa hegemonia, pagam para que a imagem do estado seja alinhada aos interesses do capital.
O leitor estrangeiro (hipotético investidor) absorve a mensagem como verdade jornalística, não como peça paga.
O caso FT e o processo eleitoral de 2026
A corrida eleitoral do segundo semestre de 2026 deve pautar estas contradições e oferecer propostas que não só denunciem a armadilha neoliberal, mas que aporte propostas exequíveis de atração de investimento produtivo e gerador de emprego e renda. São pontos de pauta inegociáveis.
A esquerda e setores de centro não comprometidos com o neoliberalismo de resultados devem pautar o tema acima sugerido.
Ao mesmo tempo em que se proponham a denunciar e apontar os graves equívocos e embustes dos neoliberais sulinos.
É preciso confrontá-los com a contradição antagônica na qual operam política e eleitoralmente, qual seja, o RS é uma região produtiva, tradicional celeiro do Brasil (pelo menos até os anos iniciais do golpe militar de 1964) e com tradição consagrada em ensino público de altíssima qualidade e alcance social (vide governo Brizola), fato esse que se origina no castilhismo pré-1930, continua com Vargas e se alarga generosamente até os idos de 1964, quando recai a ditadura civil-militar, e o Brasil mergulha na escuridão de 21 longos anos.
Nossos candidatos devem expor esses fatos históricos e, assim, politizar o debate com fatos, e não com opiniões pessoais e de grupos ilegítimos.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

