O futebol como trincheira: as seleções que jogam por território e soberania, da Catalunha à Palestina

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O Barcelona é uma seleção? Minha pergunta não se limita à qualidade dos jogadores. Para grande parte da população local, o clube sempre funcionou como a representação legítima de seu país. O sentimento era tão potente que, mesmo sob perseguição política e a proibição de usar a língua oficial, o estádio tornou-se o único reduto onde se podia falar o idioma catalão, driblando a repressão e a violência policial.

Diante de tamanha força cultural e identitária, surge o questionamento: por que essa “seleção” não disputou uma Copa do Mundo?

A resposta para essa lacuna no futebol mundial reside na própria definição de soberania. Todo país sonha em ver sua bandeira tremulando no gramado de uma Copa, mas o que acontece quando uma nação não possui fronteiras reconhecidas ou vive sob ocupação militar estrangeira? Para essas regiões, o futebol deixa de ser sobre títulos ou troféus e passa a ser sobre existir, através de atos de resistência e afirmação política.

É exatamente isso que explica a situação da Catalunha, terra do FC Barcelona. A região, apesar de ter sido uma entidade política independente em certa época, não se consolidou formalmente como um país. O sentimento nacionalista e a relação com o Barça geram repressão há muito tempo. Em 1925, o estádio foi fechado pelo governo espanhol da época e o fundador do clube, Joan Gamper, precisou se exilar. Em 1936, o presidente do clube, Josep Sunyol, foi preso e executado pelas forças franquistas.

Para fazer contraponto a essa opressão, o campo, que hoje se chama Camp Nou, foi utilizado como um “território livre”: o único espaço onde língua e bandeira catalãs eram enaltecidas por 80 mil pessoas. Longe de ser apenas um slogan de marketing, o lema “Més que un club” nasceu dessa necessidade de sobrevivência política, consolidando o clube como o verdadeiro representante de um povo que não se enxerga na seleção espanhola.

Camp Nou lotado para o jogo em que a seleção da Catalunha venceu por 4x2 a Argentina, em 2009
Camp Nou lotado para o jogo em que a seleção da Catalunha venceu por 4×2 a Argentina, em 2009 | Crédito: Jordi Ferrer / Wikimedia Commons

Essa tensão histórica segue até hoje. O conturbado referendo pela independência da Catalunha, em 2017, mostra que a região ainda trava um embate aberto contra Madrid pelo direito de definir a sua própria soberania.

Mas a Catalunha não é o único caso em que o futebol se transformou em território de resistência. Quando a Alemanha nazista anexou a Áustria, em 1938, o objetivo era apagar a identidade austríaca. A Áustria era uma das seleções mais brilhantes da década de 1930, apelidada de Wunderteam (“time maravilha”), semi-finalista na Copa do Mundo em 1934, medalha de prata nos Jogos Olímpicos 1936, vaga garantida na Copa de 1938 — mas o país não pode participar desta porque o time nacional foi dissolvido pela Alemanha, que desejava incorporar os atletas à equipe alemã.

Matthias Sindelar era o craque que conduzia a seleção austríaca. Ele tinha proximidade com os judeus e, apesar da pressão para que jogasse aquela Copa, o atleta deu várias desculpas sobre lesões e a idade, se negando a vestir a camisa da seleção alemã. O gesto provou que, mesmo sob a ocupação totalitária, o futebol continuou sendo um refúgio da honra de um povo. Meses após a Copa, Sindelar foi encontrado morto em seu apartamento em Viena, supostamente intoxicado após um problema no aquecedor da casa. A população austríaca nunca acreditou nessa versão.

Já vimos outro exemplo aqui nesta coluna: o da Frente de Libertação Nacional (FLN), uma seleção que tinha como principal objetivo dar visibilidade à luta traumática e violenta pela independência da Argélia, que estava sento travada contra a colonizadora França, que se recusava a reconhecer a independência da nação africana.

Atacante palestino Wessan Abou Ali celebra gol contra a Jordânia nas eliminatórias para a Copa de 2026
Atacante palestino Wessan Abou Ali celebra gol contra a Jordânia nas eliminatórias para a Copa de 2026 | Crédito: Mohd Rasfn / AFP

Converter o esporte em grito político não só é possível, como necessário. Quem já entendeu isso foi Lamine Yamal. Natural de um bairro de imigrantes e craque de um clube que carrega a resistência em seu DNA, ele não hesitou: durante a festa do título do Barcelona no Campeonato Espanhol de 2026, o jovem ergueu a bandeira da Palestina.

O gesto é um lembrete urgente: enquanto o mundo assiste ao futebol, a Palestina trava uma disputa histórica por território, soberania e pela própria existência. Na fase classificatória para esta Copa, o país conseguiu um feito histórico, chegando pela primeira vez à fase final das eliminatórias asiáticas. Essa é uma vitória imensa, conquistada enquanto a equipe nem sequer tem o direito de jogar em casa, obrigada a mandar seus jogos em países neutros. Para treinar, precisam superar fronteiras bloqueadas e zonas de conflito.

Está acontecendo um genocídio. A região enfrenta uma das crises humanitárias mais graves da história. Sob bloqueios prolongados e restrições militares que forçam famílias a abandonarem seus lares, a população sofre com a falta de energia e um sistema de saúde em colapso. Além disso, a escassez severa de água e a crise de fome têm vitimado centenas de pessoas.

Mesmo com tantas dificuldades, a presença da seleção nessas competições funciona como um ato diplomático. Cada jogo é um grito de soberania, um território simbólico onde ninguém pode impedir que o hino toque e a bandeira seja hasteada. Assim, eles provam ao mundo oficial, tantas vezes desumano, que, independentemente das tentativas de silenciamento e da violência, a nação palestina existe e resiste.

Seleção palestina celebra gol durante as eliminatórias para a Copa do Mundo 2026. A Palestina chegou à fase final, mas não conseguiu garantir a vaga na Copa
Seleção palestina celebra gol durante as eliminatórias para a Copa do Mundo 2026. A Palestina chegou à fase final, mas não conseguiu garantir a vaga na Copa | Crédito: Karim Jaafar / AFP

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