A Revolução Iraniana vem sendo objeto de críticas, interesse e muita curiosidade desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o país persa, no final de fevereiro, que deram início à guerra atual, a qual já envolve a maioria dos países da Ásia Ocidental.
Ela ocorreu há 47 anos, em 1979, e levou o Irã a ser governado por líderes religiosos, os aiatolás, que estabeleceram um governo nacionalista e anti-imperialista, rompendo com a dominação e influência britânica e estadunidense. Além disso, virou exemplo em todo o mundo de que uma revolução popular poderia ser bem sucedida.
Mas, afinal, o que foi a revolução iraniana e por que ela importa?
Antes da Revolução, o Irã era uma ditadura brutal. O país era governado por uma monarquia, na figura do xá da Pérsia. Por 26 anos, o xá Reza Pahlevi comandou o Irã com mão de ferro, perseguindo tanto os comunistas como as lideranças religiosas, além de oponentes de todos os campos políticos.
Pior: Reza Pahlevi se aliou aos Estados Unidos, tornando-se um dos maiores aliados de Washington na região, fornecendo petróleo constante e tentando construir uma imagem de país ocidentalizado e supostamente moderno.
Essa “americanização” foi mal vista dentro do Irã por alguns motivos: além das riquezas do Irã não beneficiarem o povo iraniano, os Estados Unidos ajudaram a derrubar, em 1953, o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh que era bastante popular e símbolo mundial da luta anti-imperialista. Eleito como personalidade do ano de 1951 pela revista Tempoele nacionalizou o petróleo iraniano, o que selou sua queda.
Se entre 1953 e 1979 o governo do xá reprimiu rivais e ocidentalizou o Irã, nesse mesmo período, o país, paralelamente, viu o fortalecimento do islã político, que contestava valores ocidentais como sendo moralmente decadentes. Nessa lógica, o islã surgia como a única forma de libertação dos países explorados pelo capitalismo e pelo neocolonialismo.
Claro que o xá não gostava disso e aumentou a opressão religiosa. O mais importante dos líderes islâmicos do país, o aiatolá Ruhollah Khomeini, se exilou no Iraque na década de 1960, mas passou a dar a linha ideológica para os muçulmanos xiitas iranianos e se tornou uma das principais figuras da oposição.
As tensões entre governo e oposição só cresciam e explodiram em 1978. Grandes protestos por mais liberdade política e religiosa foram duramente reprimidos, o que só aumentou a revolta. Para se ter uma ideia, o país praticamente parou no segundo semestre daquele ano, com protestos diários.
Nessa época, o aiatolá Khomeini, mesmo do exterior, era o nome mais respeitado da oposição e unia todos os grupos: liberais constitucionalistas, seculares, comunistas, socialistas islâmicos, entre outros.
Islamismo Xiita
Um ponto importante para entender o Irã e a religião é o ramo do islamismo predominante no país. Eles são xiitas, grupo majoritário somente lá, no Barhein, no Azerbaijão e no Iraque, com presença forte também no Líbano, na Síria e no Iêmen.
A maioria dos países muçulmanos, como Arábia Saudita, Egito, Turquia, Marrocos e Indonésia (maior população islâmica no mundo), são do ramo sunita, que não costumam se dar bem com os xiitas. Mesmo em lugares onde os xiitas são maioria, eles costumavam ser governados por minorias sunitas, como Saddam Hussein no Iraque.
Nos anos 1970, no Iraque, Ruhollah Khomeini ajudou a moldar a forma de pensar a política dos xiitas. Ele defendia tanto a revolta, como o martírio – a morte -, na luta contra a injustiça e a tirania. Tal conceito, que remete ao martírio de Hussein, filho de Ali – fundador do xiismo – e neto do profeta Maomé, faz parte da subjetividade xiita há séculos.
Segundo a ideia, morrer em combate não seria apenas bom, mas parte da religião. Isso explica, em parte, a recusa do Irã atual em se render aos israelenses e aos estadunidenses.
Khomeini defendia que o Irã encontrasse seu próprio caminho, sem influência capitalista, nem comunista. O slogan era: “Nem Oriente, nem Ocidente: República Islâmica!”.
Outro ponto fundamental do pensamento de Khomeini era que a população deveria ser orientada por juristas islâmicos, para impedir o erro moral ou religioso. O aiatolá dizia que isso era o jeito de eliminar pobreza, injustiça e roubo de terras e riquezas muçulmanas por estrangeiros não crentes.
1979
Se 1978 terminou com as tensões em alta, com protestos de milhões nas ruas, incluindo militares, a situação explodiu no começo do ano seguinte. Os Estados Unidos cogitaram outro golpe militar, pró-monarquia, mas entenderam que a mobilização popular era grande demais para isso.
Em janeiro, o xá Reza Pahlevi fugiu para o Egito e dias depois Khomeini voltou ao país, saindo da França, onde estava exilado. Em 11 de fevereiro, os militares declararam neutralidade, ou seja, não se oporiam a um governo do aiatolá e essa virou a data oficial da Revolução Iraniana.
Em abril, um plebiscito aprovou de maneira expressiva, com 98% dos votos, a ideia de que o Irã viraria uma república islâmica, governada por Khomeini. Nesse primeiro ano de revolução, outro acontecimento crucial foi a invasão da embaixada estadunidense por um grupo de estudantes islâmicos, que mantiveram 52 pessoas como reféns por 444 dias e aprofundou a hostilidade de Washington contra Teerã.
Décadas seguintes
Nesse ponto, o Irã mudou de principal aliado para inimigo mortal dos Estados Unidos. E mais: todo o mundo islâmico passou a olhar o país com medo de que o exemplo fosse seguido por suas populações, e esses governos alinhados ao Ocidente caíssem. Alguém tinha que fazer alguma coisa.
E quem fez foi Saddam Hussein, que invadiu o Irã em 1980, iniciando uma guerra sangrenta e inútil que durou oito anos. Na época, Saddam Hussein era amigo dos Estados Unidos e apoiado militarmente por Washington. O Irã, por sua vez, deu início a uma parceria militar com a China, que passou a ser o maior fornecedor de armas do país.
Khomeini morreu em 1989, sendo substituído por Ali Khamenei, que era o presidente. Khamenei permaneceu como líder supremo até ser assassinado no primeiro dia desta guerra, em um ataque israelense em 28 de fevereiro de 2026.
Aqui vale explicar como o país se organizou: as instituições democráticas, como a presidência e o Congresso são supervisionadas tanto pelo líder supremo como pelo Conselho de Guardiões, um grupo de aiatolás que tem, de fato, poder sobre as Forças Armadas, o Judiciário e a política externa.
Outro ponto importante é o Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana, uma espécie de exército paralelo totalmente leal à revolução.
Nos anos 1990, Saddam assumiu o papel de grande inimigo visível do Ocidente enquanto o Irã passou a financiar grupos em outros países, para aumentar sua influência. Assim, foram fortalecidos o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, na Palestina.
Essa política, apelidada de “eixo da resistência”, tem por objetivo se contrapor ao expansionismo sionista e defender a causa do povo palestino.
Nesse século, o Irã se beneficiou das invasões desastradas dos Estados Unidos nos vizinhos Iraque e Afeganistão, países nos quais Teerã passou a ter mais influência. A partir de 2011, também passou a apoiar a Síria e os rebeldes houthis no Iêmen. Assim, o Irã se consolidou como uma das principais forças anti-imperialistas do mundo, merecendo ser nomeado por Washington como um dos integrantes do “eixo do mal”.
Críticas
Apesar de estar na ponta de lança da luta anticolonial e anti-imperialista, e ajudar resistências em vários lugares, o Irã é criticado por inúmeros motivos. Muitas dessas críticas vêm do choque cultural que se sente em sociedades mais ocidentalizadas, como a nossa, que acreditam em valores universais, como igualdade entre os gêneros e liberdade de expressão e política.
A forma como a revolução islâmica enxerga esses temas são diferentes da nossa. Vale ter em mente, no entanto, que os conceitos e os valores são distintos. Onde vemos uma mulher coberta pelo hijab, muitas iranianas são a favor desse código de vestimenta.
Mas muitas outras são contra e sofrem punições duras por contestar essa lei. Essa é apenas uma das contradições dentro da revolução, que sofre, ao mesmo tempo, pela asfixia causada por centenas de sanções econômicas impostas há 47 anos pelos Estados Unidos.
Além de maior liberdade, muitos protestos no Irã exigem melhores condições de vida. O próprio governo reconhece que muitas dessas reclamações são legítimas, mas há provas de que muitos dos protestos do ano passado foram infiltrados por agentes estrangeiros – o Mossad, agência de inteligência israelense, confirmou isso publicamente -, para criar um clima de caos no país.

