‘Ocidente racista pensava que o Irã não possuía tecnologia para resistir’, avalia Alastair Crooke

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Alastair Crooke é uma das figuras mais influentes na análise das relações entre o Ocidente e o mundo islâmico. Ex-diplomata britânico e antigo agente de alto nível do MI6 — serviço de inteligência estrangeira do Reino Unido —, Crooke não é apenas um analista de geopolítica, mas um sujeito ativo dela por muitos anos. Desempenhou papel crucial na mediação de conflitos na Irlanda do Norte, na África do Sul e, sobretudo, na Ásia Ocidental. Como conselheiro de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum na União Europeia (1997-2003), Crooke facilitou diálogos diretos com movimentos como o Hamas e o Hezbollah, defendendo a tese de que a paz sustentável exige o reconhecimento e a interlocução com atores que detêm a legitimidade popular, independentemente de como são rotulados pelas capitais ocidentais.

Crooke é também fundador e diretor do Conflicts Forum, em Beirute, e autor do livro “Resistance: The Essence of the Islamist Revolution” (Resistência: A Essência da Revolução Islâmica). Na obra, o ex-diplomata argumenta que a revolução islâmica não foi apenas mais um movimento político do século 20, mas uma profunda rejeição do materialismo liberal ocidental em busca de uma identidade espiritual e comunitária autêntica.

Em conversa com o Brasil de Fato, Crooke não só faz uma análise precisa da dinâmica atual da guerra que EUA e Israel provocaram contra o Irã e de possíveis mudanças na correlação de forças da geopolítica e da economia regional e global, como também traz reflexões profundas sobre o desenvolvimento da revolução islâmica e alguns dos seus avanços mais significativos, bem como desafios para os próximos anos. 

Essa entrevista será publicada em três partes: nesta primeira, Crooke esmiuça a estratégia militar iraniana, repercute a grave situação interna de Israel, traça possíveis cenários da reação xiita na região e analisa a provável participação de China e Rússia no conflito, que pode estar ajudando a consolidar uma poderosa aliança anti-imperialista, há décadas temida pelo Deep State estadunidense.

Segundo Crooke, o Irã aprendeu lições cruciais com a invasão do Iraque pelos EUA em 2003, o que explica grande parte do seu sucesso militar até agora. Por exemplo, se “não podemos ter uma força aérea capaz de desafiar Israel ou os Estados Unidos, (…) o que fazemos? (…) não se deve criar uma força aérea. (…) Os mísseis podem se tornar a força aérea iraniana”.

Da mesma forma, para resistir à supremacia de satélites e informação dos EUA, “não se deixa toda a sua estrutura militar à vista para ser bombardeada (…). O que se deve fazer é (…) enterrá-la profundamente”, no que o Irã obteve inicialmente ajuda da República Popular da Coreia. Finalmente, a criação do chamado “mosaico da resistência” descentralizou o comando militar, evitando que um ataque de “decapitação”, com o assassinato de líderes políticos e militares — como Saddan Hussein e seus generais —, freasse a estratégia de resistência à invasão estrangeira.

Confira a primeira parte da entrevista exclusiva:

Brasil de Fato: Após mais de quatro semanas de guerra, o Irã sofreu inúmeros ataques — com mais de 2 mil mortos e mais de 3 milhões de deslocados. No entanto, há vários sinais de que o Irã está levando vantagem no confronto com os EUA e Israel, controlando o Estreito de Ormuz e fazendo disparar os preços da energia. O país mal começou a usar seus mísseis mais sofisticados e, mesmo assim, já infligiu sérios danos a Israel, além de atacar e/ou destruir cerca de 13 bases estadunidenses na região. O senhor afirmou, em outras entrevistas, que a segunda guerra dos EUA contra o Iraque (2003) proporcionou lições importantes para a estratégia de resistência iraniana. O senhor poderia explicar melhor essas lições? E o que o Irã também aprendeu com as guerras travadas por Israel nos últimos anos? Em resumo, quais são os principais elementos da estratégia de resistência iraniana contra seus atuais adversários e por que ela tem sido tão eficaz?

Alastair Crooke: A primeira coisa a dizer, que é a mais óbvia, é que isso é algo com o qual o Ocidente tem muita dificuldade em lidar. Trata-se de uma guerra assimétrica que vem sendo planejada há décadas. Porque eles estão acostumados à guerra clássica. Essencialmente, duas forças aéreas se enfrentando, e aquela com mais aeronaves vence. Então, o Irã percebeu isso e viu muito claramente o que aconteceu em 2003 em Bagdá. Os estadunidenses fizeram essa guerra clássica, o que eu chamo de “atirar e fugir”. Você lança um ataque aéreo massivo e destrói o comando, as estruturas de comando de Saddam Hussein, suas estruturas militares, em três semanas. E os iranianos analisaram isso em profundidade e pensaram: bem, como evitamos isso? Porque não temos uma força aérea. Não podemos ter uma força aérea capaz de desafiar Israel ou os Estados Unidos. Então, o que fazemos? E assim eles tiveram essa ideia, essencialmente, de que, em termos de força aérea, não se deve criar uma. Não se deve tentar competir com uma. Os mísseis podem se tornar a força aérea iraniana. E foi efetivamente isso que aconteceu. Então, essa foi uma lição a ser compreendida. E o Irã investiu enormes quantidades de reflexão e tecnologia, porque o Ocidente ainda é amplamente orientalista e imagina que o Irã não possui tecnologia moderna.

Na verdade, se você olhar algumas das estatísticas de tecnologia publicadas por algumas revistas especializadas, em cerca de seis ou oito diferentes áreas tecnológicas, o Irã está entre os dez primeiros países e, às vezes, entre os quatro primeiros. Eles possuem excelentes qualidades técnicas e de engenharia. E, assim, investiram muito desse esforço intelectual em seus mísseis, e estão na vanguarda, embora não em todas as áreas relacionadas a mísseis. A Rússia possui uma série de conhecimentos especializados, mas às vezes eles falham, e por isso os chineses respeitam a competência técnica do Irã. Essa foi a primeira lição.

A segunda lição foi que não se deixa toda a sua estrutura militar à vista para ser bombardeada. Isso é estúpido. Portanto, o que se deve fazer é enterrá-la, e enterrá-la profundamente, de modo que, mesmo que seja bombardeada várias vezes, ainda assim não seja danificada nem atacada. E vimos esse efeito nas cidades de mísseis. Temos algumas famosas, a Fortaleza de Saryazd, essa montanha enorme onde os grandes mísseis são gerenciados. E ela foi reforçada com um concreto especial, mas fica a mais de 500 metros de profundidade na montanha. Possui um sistema ferroviário, e esse sistema leva os mísseis até uma espécie de entrada. Há várias entradas de túneis. Os mísseis saem do sistema ferroviário e partem diretamente dele, não são lançadores móveis como os israelenses e estadunidenses estão falando. Eles saem diretamente do sistema ferroviário, e um novo é colocado no lugar. Os israelenses e estadunidenses têm bombardeado Saryazd constantemente nas últimas quatro semanas, e mesmo quando os bombardeios terminam, esses grandes mísseis continuam saindo dos silos, diretamente das profundezas, subindo e saindo. Portanto, enterrem sua infraestrutura.

É também o caso de que ela está enterrada no sentido naval. Está enterrada ao longo da costa de Ormuz e ao longo de toda a costa iraniana. De qualquer forma, está repleta de cavernas e áreas, e é um verdadeiro emaranhado de mísseis antinavio. E esses estão nos penhascos. Além disso, eles têm túneis que passam sob o mar e drones submersíveis que podem ser lançados de túneis sob o Estreito de Ormuz. E esses drones têm baterias de lítio, o que lhes dá uma autonomia de quatro dias. Eles são orientados por IA, de modo que podem localizar seus alvos de forma autônoma e atacá-los. Eles podem pairar e esperar por um alvo, e então selecioná-lo e atacá-lo. Eles também têm minissubmarinos. Acho que têm cerca de 25 minissubmarinos. E você diz: “Bem, qual é a utilidade dos minissubmarinos?” O objetivo dos minissubmarinos é que o Estreito de Ormuz não é muito profundo. É por isso que se fala tanto dos canais principais por onde os navios passam, e depois do canal especial que fica perto de Kishinev. E assim os submarinos podem entrar no Estreito de Ormuz. Esse é o objetivo. E eles podem disparar mísseis antinavio enquanto estão submersos. Mais uma vez, invisíveis para satélites, AWACS (Airborne Warning and Control System, Sistema Aéreo de Alerta e Controle) e tudo mais. Então, esse foi outro elemento. Proteger-se dos olhos dos estadunidenses foi outra lição da Guerra do Iraque, e isso se reflete no fato de que, na primeira fase desta guerra, o Irã destruiu todas as estações de radar no Golfo, e várias outras em outros lugares, e ontem mesmo destruiu outra, um dos poucos AWACS que operam na área. Então, eles perderam grande parte de sua capacidade, porque não se trata apenas de ver que um míssil está se aproximando e, portanto, dar o alerta, o que não é mais feito aos israelenses. É apenas um minuto, enquanto antes eram três ou quatro. Se você está limitado na quantidade de interceptores que lhe restam, não tem aquele tempo que os radares lhe dão para decidir e ajustar suas defesas aéreas; então, você não terá muito sucesso na defesa aérea.

Outro aspecto da guerra que eles aprenderam foi o que agora é chamado de “mosaico”, mas é um processo pelo qual eles dividiram todo o Irã em comandos autônomos. Há um pequeno comando central, mas, em última análise, ele foi disperso por todo o país em comandos autônomos. E esses comandos têm planos pré-estabelecidos para continuar a guerra de forma autônoma diante da perda do comando central. E eu vi isso; na verdade, foi testado. Eu estava no Líbano em 2006, durante a guerra lá, e o Hezbollah estava usando isso; o Hezbollah, na verdade, me levou para o sul e eu pude ver o que estava acontecendo. Então, eles tinham esses comandos autônomos e cooperavam uns com os outros. Isso aconteceu no final da guerra, porque não era permitido entrar no meio dela, mas eles deram as ordens. Conversei com alguns dos comandantes, mas eles tinham seus planos para continuar a guerra, mesmo que Beirute já não existisse mais. Então, era assim que as coisas estavam em 2006. Agora, muitos anos depois, é isso que foi implementado. É toda a máquina entrando em ação com base em planos pré-acordados para continuar o conflito. Eles não precisam de permissão, pois têm autoridade para agir por iniciativa própria e possuem seus próprios mísseis e suas próprias forças. Então, essa foi realmente o que chamo de terceira lição da guerra assimétrica que os iranianos desenvolveram como resultado do Iraque e vêm planejando essa guerra há duas décadas contra os Estados Unidos e suas bases na região.

E o Ocidente tem muita dificuldade mental em pensar nisso porque seus processos consistem em “bombardeá-los até o inferno”, como diz Trump. E, de fato, isso não deu certo em 2006, no Líbano, porque me lembro que, em primeiro lugar, os israelenses achavam que seria uma operação militar curta, de menos de uma semana. E, portanto, tinham um banco de alvos para uma semana. E, claro, uma vez que o banco de alvos se esgotou, o que você faz? Bem, você não pode voltar para os comandantes, ou para as elites políticas, e dizer: “Bem, não temos mais alvos, vamos voltar para casa e almoçar”. Isso não dá certo. Então eles continuam bombardeando locais civis, seja lá o que for. E, na maioria das vezes, eles estavam bombardeando manequins e maquetes de lançadores móveis, não os verdadeiros. E eles recolheram esses lançadores móveis de volta para o esconderijo em um tempo muito curto. Quero dizer, literalmente, lembro de algo como 90 segundos; eles simplesmente colocavam de volta e partiam. Muito rápido para os israelenses atacarem. Então, os principais mísseis do Hezbollah estavam em enormes túneis. Eu já estive nesses túneis. Se você fosse até 2011, podia ir lá e ver. Chama-se “Teia de Aranha”. Eles podiam mostrar o que estavam usando. Grande parte desses bombardeios de que temos ouvido falar é o de sempre que ouvimos do Ocidente em todos os países. “Ah, foram realizadas 38 mil missões de combate.” Ouvimos a mesma coisa. Foi a mesma coisa no bombardeio de Belgrado: 38.000 ataques. E, no final, o exército sérvio estava praticamente intacto. Acho que perdeu 40 veículos blindados ou algo assim, mas estava intacto. Eles não foram bombardeados.

E então a questão é: esse bombardeio foi eficaz? Não quantas bombas foram lançadas, porque sabemos que muitas dessas bombas, especialmente agora, são lançadas pelos israelenses. Estou citando aqui as fontes iranianas sobre o assunto, mas os iranianos dizem que 20 hospitais foram atingidos em Teerã. 20 hospitais foram atingidos e, no que diz respeito a crianças feridas, cerca de 600 escolas foram bombardeadas, e mais de mil crianças ficaram feridas. Não devemos nos surpreender. É isso que Israel faz em Gaza. É isso que faz no Líbano. É isso que eles consideram pressão. Há pressão sobre o Irã para que capitule, para desmoralizar o povo. Mas isso não funciona. Os estadunidenses, na verdade, sabem disso, mas às vezes essas mensagens ficam presas no meio do caminho. Porque eles sabem que nunca houve um caso em que se conseguisse criar uma chamada mudança de regime apenas com poder aéreo. Eles citam Belgrado, mas não foi esse o caso. O governo caiu posteriormente por outras razões, mas não por causa do bombardeio. Portanto, não há dúvida de que o bombardeio israelo-estadunidense é destrutivo, mas não é eficaz. 

E, obviamente, o Irã tem um plano. E é uma fase. E a outra coisa que aprenderam com aquela guerra em 2003 foi que os estadunidenses geralmente só têm capacidade logística para uma força de curto prazo. Portanto, a resposta é: fazemos um trabalho de longo prazo, e bem feito. E é isso que estão fazendo. E assim, os mísseis são lançados com muita cautela. Portanto, a intenção é que, em algum momento — não sabemos exatamente quando, de acordo com o plano deles —, isso chegue a um clímax com o lançamento de mísseis mais avançados. Para começar, os iranianos estavam usando mísseis do lote de produção de 2012-2013, basicamente para testar os sistemas de defesa, ver onde eles estão e esgotar a capacidade de interceptação. Então, essas foram as ideias que orientaram o planejamento. E então, é claro, havia todo o planejamento para contingências e outras coisas que precisam ser feitas, dependendo de qual será a reação subsequente dos Estados Unidos e de Israel.

De acordo com o último boletim do seu Conflicts Forum, a situação em Israel parece estar caminhando para um desastre. O ex-ombudsman geral das Forças de Defesa de Israel (IDF), Yitzhak Brik, afirmou: “O que aguarda Israel na próxima fase (da guerra) é assustador” e “Israel não está estrategicamente preparado para uma guerra em várias frentes que ameaçará a nossa própria existência”. O país construiu, nos últimos anos, a narrativa da superpotência das Forças de Defesa de Israel (IDF) — um exército muito eficiente para matar mulheres e crianças desarmadas, aliás —, mas agora parece que tudo está desmoronando. Nesta semana, tanto os iemenitas da Ansarallah quanto a Resistência no Iraque aderiram à guerra e já lançaram ataques contra Israel. Quais são as perspectivas para Israel nas próximas semanas, se a guerra se prolongar? 

Isso está surtindo efeito, porque parte da imprensa israelense, que acompanhamos, analisamos e publicamos em detalhes (no Substack do Conflict Forum), vem reportando isso. Temos generais de alto escalão dizendo que “não podemos continuar”. O chefe do Estado-Maior do Exército foi à reunião do gabinete (de segurança) nos últimos dias e disse: “Isso é uma crise”. Ele gritou com eles: “Não podemos continuar! Precisamos recrutar mais 400 mil homens. Estamos perdendo gente. Todo o plano está desmoronando!” Eles estavam dizendo isso. A crise também está acontecendo no Líbano, porque o Hezbollah tem, nos últimos dias, destruído 21 tanques Makarov em um único dia. E, na maioria das vezes, suas tripulações também foram atingidas. Alguns conseguiram escapar, mas a maioria foi morta. Os israelenses admitiram que estavam tendo que limitar o tipo de resposta a esses ataques a apenas 12 mísseis antitanque por dia, porque é tudo o que eles têm para racionar munição. Mas a guerra é muito maior. E acho que isso faz parte do plano. Além disso, estamos passando também por uma enorme mudança no Iraque.

O que está acontecendo no Iraque neste momento? Quais são algumas das repercussões dentro da comunidade xiita na região?

O assassinato do Líder Supremo, líder do islamismo xiita e figura religiosa muito admirada, inflamou o xiismo em todos os lugares, especialmente no Iraque, e as Hashad (A-Shaabi, uma frente de 50 a 70 milícias populares, que foram incorporadas às forças armadas regulares, mas respondem a três outras organizações) vêm se preparando, e vários aiatolás dos Mujahideen clamaram pela jihad, uma jihad obrigatória e legítima. Não acho que tenha chegado a esse ponto ainda, porque acho que no Iraque eles estão falando de jihad defensiva, mas acho que você verá no período que se aproxima. Porque, no Iraque, há uma zona cinza entre as forças militares formais e as Hashad — os estadunidenses as chamam de PMF (Forças de Mobilização Popular, da sigla em inglês). Mas elas estão na fronteira do Kuwait agora. E estão atacando em Erbil. Acho que você vai vê-las avançando ainda mais. Acho bastante provável que tomem o Kuwait e que o Irã tome o Bahrein. Não sei, ninguém me disse isso em particular, é apenas a minha interpretação da situação no terreno. Eu diria que é para lá que as coisas estão caminhando. Portanto, temos um tipo de guerra diferente daquela que os Estados Unidos pensavam que estariam enfrentando.

Eu estava conversando com um amigo que trabalha para a mídia iraniana, e ele me disse que, aparentemente, essa tecnologia de túneis profundos no subsolo, os iranianos aprenderam com a Coreia do Norte. Você sabe sobre isso?

Acredito que eles tenham prestado assistência ao Irã nessa área e na área de mísseis. Acho que o Irã recebeu assistência de outras partes.

Considerando os conceitos de “guerra assimétrica” e “mosaico de resistência”, você descreveu uma estratégia militar brilhante do Irã. Você acha que os iranianos podem estar inaugurando um novo capítulo na história das estratégias militares modernas?

Sim, pode-se atribuir grande parte disso a Qasem Soleimani e às suas iniciativas. Mas o mesmo tem acontecido na Ucrânia. As inovações que os russos vêm introduzindo, especialmente no que diz respeito a mísseis e drones, são fruto dessa troca, pois os drones Shahed foram emprestados à Rússia, que aprimorou alguns deles e os devolveu. Mas não acho que os iranianos diriam que isso é exclusivamente deles. Acho que os iranianos fizeram muito por iniciativa própria, o que é extraordinário. Mas eles não reivindicam tudo. Seus mísseis têm características, especialmente o Fatah-2 e outros, que provavelmente surpreenderam a China e a Rússia também. Isso foi feito por meio de invenções no próprio Irã, não copiado de outro lugar. Mas sim, é um novo tipo de guerra. O que isso vai significar? Significa que todos os conceitos antigos que ainda persistem — muitos militares ocidentais ainda falam sobre a Tempestade no Deserto —, todas essas grandes doutrinas, estão realmente acabados agora.

Há muitos debates sobre o apoio da China em termos de radares, o navio Ocean One, e aparentemente também há rumores sobre apoio russo ao Irã, também em inteligência, ou talvez outras coisas que não sabemos, e algumas das quais talvez nunca venhamos a saber, na verdade. No caso da China, seria algo inédito em muitas décadas. Mas qual é a sua avaliação sobre isso? Você acha que a China e a Rússia estão realmente fazendo a diferença nesta guerra? Por exemplo, há relatos de autoridades estadunidenses dizendo que ficaram surpresas com a eficiência de alguns dos ataques iranianos em comparação com a Guerra dos 12 Dias. E se for assim, se a China e a Rússia estão realmente ajudando e apoiando o Irã, poderíamos dizer que talvez o pesadelo de (Zbginiew) Brzezinski — que disse, em O Grande Tabuleiro de Xadrez, que uma aliança entre China, Rússia e Irã seria insuportável para os Estados Unidos — esteja se consolidando como uma espécie de linha de frente da luta anti-hegemônica?

Acho que ainda não está consolidado. Essa é uma questão diferente, que é muito importante. Mas vou apenas dizer algo sobre a primeira. Acho que, há algum tempo, os iranianos perceberam que sua dependência do GPS estadunidense estava sendo usada contra eles. E então, em primeiro lugar, eles migraram para o sistema russo, o Glonass. E depois migraram para o sistema Beidou, dentro daquele acordo de parceria de 25 anos com a China. A China concedeu-lhes os direitos de usar a forma militar mais sofisticada desses dados. E, claro, a China possui os satélites. Acredito que a China tenha estabelecido conexões via satélite com o Irã para que eles possam ter acesso a isso. Então, é bastante óbvio. Não estou revelando nenhum segredo, porque o Irã sabe quando os B-1 decolam da base aérea na Grã-Bretanha e a hora exata. Portanto, eles têm uma visão completa. Na guerra na Rússia, as estruturas de IRS (Intelligence, Reconaissance, Surveillance, ou Inteligência, Reconhecimento e Vigilância) dos Estados Unidos, os satélites, a capacidade de ter um mapa integrado da linha de frente e de alvos a partir de radares, de AWACS, tudo se unindo em um sistema integrado, foi realmente a principal contribuição da OTAN para a guerra contra a Rússia.

Os russos sempre reclamavam das AWACS: “De onde vieram esses dados?” Bem, não vieram dos ucranianos, porque é ultrassecreto, etc. Então, o que você está vendo agora é, na verdade, o oposto. Parece que o Irã possui esse sistema de campo de batalha IRS para enfrentá-los contra os Estados Unidos. Assim, enquanto os estadunidenses o implementariam contra a Rússia, talvez a Rússia tenha algumas restrições. Sempre há essa questão na Rússia, mas por que eles não derrubaram o AWACS que sobrevoava o Mar Negro ou algo assim? Eles não o fizeram, de qualquer forma. Mas o Irã está fazendo isso. E, portanto, acho que houve uma enorme mudança na guerra, na capacidade do IRS. Não sei a extensão disso. Não tenho informações especiais sobre isso.

Mas é o que acho que tem acontecido. Então, isso tem apoio. Acho que tanto a Rússia quanto a China estão felizes em apoiar nos bastidores. Elas não querem colocar equipamentos chineses no terreno, onde possam ser vistos pelas pessoas. Mas você não consegue ver os fluxos de dados. Você não consegue ver que eles fazem fluxos de dados, sejam eles provenientes, por exemplo, do navio Ocean One, que é chinês. É um navio complexo, que faz interceptação, opera com radar e também atua debaixo d’água. Portanto, está combatendo submarinos na área. E, assim, está em estado de guerra. E acho que o que é diferente nesta guerra é que, de um lado, do lado dos EUA, não há restrições. Legalidade, questões de direitos humanos, as Nações Unidas, tudo isso desapareceu. O poder é a razão. E é assim que as coisas são.

No entanto, o Irã continua a não seguir esse padrão. Eles seguem um padrão de escalada. Se forem atacados em um determinado tipo de alvo, então revidam e, ao mesmo tempo, intensificam a ação. Portanto, é um passo e uma escalada para dissuadir os Estados Unidos e Israel de seguirem por esse caminho. Essas coisas são certamente uma grande diferença e mudança na guerra. Um pouco assustador. Sem regras, um turbilhão, genocídio, todas essas coisas. O sequestro e o assassinato de líderes, a decapitação, o homicídio. Quero dizer, há muito tempo, as guerras eram, de certa forma, muito mais um ritual. As pessoas se alinhavam, havia regras e alguém dizia: “Ok, a batalha começa”. Passamos para o outro extremo.

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