João Pessoa, década de 1980. Para quem gostava de pop, punk, hardcore, heavy metal e outras vertentes do gênero, o sábado era sagrado. Todos em alerta para sintonizar a Rádio Universitária FM e ouvir o lendário programa Jardim Elétrico. Com a curiosidade latente de qualquer adolescente, me chamava atenção uma voz feminina, segura, forte, inglês impecável. Era Olga Costa. Com seu arqui-amigo, o ator Everaldo Pontes, e auspiciada por Carmélio Reynaldo, ela fez do Jardim Elétrico uma marca. Logo, virei fã de carteirinha. Olhando para trás, jamais imaginaria que ficaríamos melhores amigas e que estaria tão presente nos últimos anos de sua vida, nos últimos dias.

Sua personalidade marcante vem desse período em que era uma – se não a única – das poucas mulheres que conviviam num universo muito masculino, uma época em que não havia mulheres no público dos shows de rock – ela dizia. Opinião própria, vestia o que queria, falava com maestria sobre música. Não há dúvida: Olga estava muito à frente de seu tempo. Isso a coloca como uma referência para muitas mulheres que hoje estão no front desse mundo underground. Seja escrevendo, produzindo, tocando em bandas, foi ela quem mostrou que, sim, isso era e é possível.

A jornalista, fotógrafa, radialista, produtora, roteirista, diretora de selo, editora de fanzine, cantora e compositora, Olga Costa poderia ter escolhido seguir o caminho da advocacia, faculdade onde também se formou. Até tentou. Era comum encontrá-la pelo centro da cidade: ela com um blazer, vestimenta exigida nos fóruns e tribunais e, por baixo, uma camisa do Rush, Beatles, Stray Cats, Ramones, Ratos do Porão. A cultura do rock sempre esteve em alto volume em sua vida. Ela a escolheu para fazer uma bela e necessária trajetória e somos imensamente gratas por essa escolha que não foi fácil.
Em tempo de tanto apagamento de mulheres que fizeram e fazem história, não vamos deixar que ela seja mais uma esquecida. Afinal, coube a Olga Costa um espaço que não consigo mensurar, tamanha a importância dela para o nascimento, crescimento e fortalecimento de um cenário para a música de rock independente em João Pessoa. Ela abriu portas para que mais mulheres pudessem atuar nesse lugar, na maioria das vezes, misógino e machista.
Olga partiu em 21 de janeiro deste ano, aos 63 anos, lutando da forma que escolheu contra um câncer bem severo. Mesmo com a debilidade que a doença impõe, lá estava ela sempre ligada nos últimos lançamentos de bandas, discussões acaloradas sobre as plataformas capitalistas, que financiam guerras, falava sobre o papel das bandas nesse contexto, sempre ativa e certeira em seus comentários, pronta para qualquer conversa. Tem cadeira cativa no templo dos roqueiros que é a loja Música Urbana, onde deve ficar um pouco de suas cinzas. Era seu lugar predileto, sempre rodeada de música, conversas e gargalhadas com amigas e amigos de velhos e novos tempos.
Entre 2024 e 2025, começamos a trabalhar em um material de 2005, período em que ela morou em São Paulo e teve uma banda chamada Chandler. Tomei para mim a missão de tirar esse projeto da gaveta. Era um material inacabado, mas a voz, as letras, as melodias dela estavam lá em estado bruto.

Composições belíssimas divididas com o guitarrista Anderson Nascimento. Muitos ficaram surpresos com Olga no vocal, mas ela já tinha assumido o microfone em bandas como a Volks 69 e Nailspop. O músico e compositor Robson Feoli, que teve a honra de conhecê-la, ficou à frente da mixagem e masterização, Ana I, cineasta, diretora de arte e integrante do coletivo Las Luzineides fez o encarteZine. Tudo no modo “Faça Você Mesmo”, como Olga queria que fosse. Chandler é um lançamento póstumo, está disponível na plataforma Bandcamp e pode ser ouvido aqui.

Não acabou! Beatriz Jarry (Mortífera Mag) e Jorja Moura (Morcegona Prod) estão assinando a produção do festival Grito de Olga, que vai acontecer no dia 6 de março, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. O evento será realizado no Caravela Cultural e tem, na programação, bandas formadas por mulheres como a FlauFlau, Matriarcaos, Long Way Home e Halfway Dead. Já considero um marco! Um festival feito por mulheres e só com bandas de mulheres. Que venha o matriarcado!

Em tempo: o documentário da realizadora Ana Isaura sobre o Coletivo Las Luzineides, que reunia garotas que atuavam em várias frentes da produção cultural de João Pessoa entre 1990 e 2000, será dedicado a ela. Nada mais justo, já que o coletivo teve Olga como inspiração. Ela, inclusive, participa do documentário.
É, Olga, acho que aprendemos muito com você. É papel nosso fazer com que uma mulher sempre puxe outra para cima. Creio que esse seja um dos tantos legados que você nos deixa e vamos cuidar dele com muito carinho, assim como teremos sempre sua risada no coração. Até breve, baby girl.
*Rogéria Araújo é jornalista, pesquisadora para audiovisual e produtora cultural.
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