Os (des)limites do governo Lula

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O terceiro governo Lula vem apresentando um desempenho macroeconômico muito bom em termos de crescimento, emprego, renda, e mesmo de inflação. Os números, já positivos em termos históricos, se sobressaem ainda mais quando comparados aos registrados entre 2015 e 2022. Contudo, este resultado não tem se traduzido na percepção econômica da população, e tampouco em popularidade para o presidente. As explicações para o fenômeno são várias, e vão desde fatos pontuais até fatores estruturais, abarcando peculiaridades do Brasil e tendências globais.

Desde os anos 1980, o mundo inteiro, salvo raras exceções, vem crescendo menos, concentrando renda, e deteriorando as condições de vida de boa parte da classe trabalhadora. Trata-se de um fenômeno antigo que ganha novas roupagens atualmente, com a reconfiguração global e o desenvolvimento tecnológico, e que é particularmente intenso em economias periféricas como a brasileira.

Nos anos 1990, o Brasil abriu sua economia e adotou um arcabouço macroeconômico que se alinha com essa tendência. O governo abdicou de fazer política industrial, se auto impôs contenção fiscal e vem praticando juros muito elevados. Isto implicou baixo crescimento, concentração de renda e desindustrialização (não custa lembrar que o crescimento industrial dá dinamismo à economia, gera ganhos de produtividade e empregos de qualidade).

O Brasil foi na contramão deste processo, em termos de crescimento e distribuição, justamente no período do PT no poder. Entre 2004 e 2014, em um cenário internacional favorável, o país cresceu mais e distribuiu renda, melhorando de fato a vida da classe trabalhadora. Isto deu força para o retorno de Lula ao poder em 2023, mas também gerou enormes expectativas para o seu novo mandato.

Avanços dos governos petistas — inclusive o atual — são inegáveis, e precisam ser reconhecidos. Porém também é preciso reconhecer que pouco se fez para alterar a estrutura da economia. A contenção fiscal continua (hoje sob a roupagem do Novo Arcabouço Fiscal), os juros continuam estratosféricos (agora sob a gestão de um indicado de Lula), e a desindustrialização prossegue, de modo que boa parte da modesta retomada do crescimento se traduz em empregos precários, de baixa qualificação e com baixos salários.

Neste contexto, dois elementos são normalmente listados para justificar a desilusão com a economia e com Lula, apesar dos resultados macroeconômicos positivos: os preços elevados e o crescimento do endividamento.

Uma questão recorrentemente levantada é que os preços subiram muito nos últimos anos, e, ainda que a inflação tenha caído, os preços não baixaram. Isso é normal. Deflação é um fenômeno extremamente raro e perigoso para a economia. O ponto relevante é a relação entre a renda e a inflação, ou seja, a renda real. E esta vem crescendo, ou seja, a situação vem melhorando. É claro que há produtos que ficam relativamente mais caros (notadamente alimentos), e segmentos sociais que têm perdas — não se pode esquecer do congelamento do Bolsa Família desde 2023, por exemplo. Ainda que a percepção das pessoas não melhore tanto, a renda real vem crescendo, isto é fato.

A questão do endividamento é mais complicada, pois envolve diversas dimensões. Mesmo com a elevação da renda real, observam-se maiores aspirações de consumo, em uma contemporaneidade cada vez mais consumista e ostentatória, processo impulsionado pelas redes sociais. Em paralelo, tem-se a maior bancarização (em especial após o advento do pix), a onipresente financeirização (fenômeno não só não combatido, como reforçado pelo PT), e os juros estratosféricos, além da disseminação descontrolada das bets. Trata-se de uma questão estrutural e delicada, que programas pontuais como o Desenrola aliviam temporariamente, mas não resolvem.

Neste quadro macroeconômico, diversas questões sociais se somam e ajudam na compreensão do descontentamento com o presidente, como a precariedade dos serviços públicos (em especial saúde e educação), a violência urbana, e as desconfianças (amplificadas nas redes sociais) contra diferentes instituições da República. Algumas questões têm relação com o governo federal, outras não, mas acabam sendo a ele associadas.

Para além de ajudar na compreensão do cenário atual, refletir sobre essas questões possibilita vislumbrar outros caminhos para o país. O PT e Lula optaram, hoje e historicamente, por uma aliança com o andar de cima para ampliar (modestamente) o crescimento e promover um processo (parcial e hesitante) de distribuição de renda, mas sem realizar reformas estruturais. Trata-se de uma escolha que impõe limites.

Reconhecer a correlação de forças e agir de acordo com ela para melhorar a vida da população brasileira é importante, mas não basta. É fundamental incidir sobre tal correlação e buscar mudanças profundas na direção de um país mais próspero e justo. Caso contrário, a tendência é que os modestos avanços sociais sejam revertidos, como demonstrou a experiência do país entre 2015 e o retorno de Lula à presidência.

* Luciano Alencar Barros é professor do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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