Os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 marcam o inicio de uma nova era na história do olimpismo. Foi a primeira edição onde o Comitê Olímpico Internacional (COI) permitiu a participação de jogadores profissionais nas competições. Diversos motivos incentivaram essa mudança: midiatização crescente do esporte televisionado, pressão de marcas esportivas, entrada de grandes empresas no financiamento aos Jogos. E a derrota da equipe de basquete dos Estados Unidos para o Brasil, na final dos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianápolis, ou seja, no próprio Estados Unidos.
Em 1987 o Brasil estava em plena transição para o período democrático, após mais de vinte anos de ditadura militar. Foi neste ano em que foi formada a Assembleia Constituinte que resultou na Constituição de 1988. Em quadra, o time liderado por Oscar Schmidt, falecido no último dia 17 de abril, encarou os donos da casa como quem não aceita o lugar que lhe foi reservado. Não era apenas uma final; era uma disputa sobre quem podia, de fato, escrever a história do basquete. Foi a primeira vez em que a seleção estadunidense perdeu um jogo em seu país, a primeira vez que sofreu mais de cem pontos diante de seus torcedores — o Brasil venceu por 120 x 115.
Naquela noite, Oscar Schmidt marcou 46 pontos e saiu ovacionado como um dos maiores jogadores de basquete do mundo. Cada arremesso seu parecia carregar uma afirmação teimosa de que o talento não reconhece fronteiras impostas. Uma equipe brasileira mostrou que o jogo podia ser outro. Que havia criatividade onde se esperava disciplina, improviso onde se esperava método, e, sobretudo, coragem e determinação. Oscar, que mais tarde recusaria a NBA para permanecer fiel à seleção, tornou-se mais do que um jogador: virou herói. Quem faz o herói não são apenas as vitórias, mas, principalmente, sua trajetória. E a de Oscar, no basquete brasileiro, e mundial, foi inigualável.
O basquete dos Estados Unidos, acostumado a se apresentar como sinônimo de excelência, também carrega outras derrotas. Duas vezes para a União Soviética, primeiro em um jogo polêmico pela medalha de ouro em 1972, no auge da Guerra Fria, e depois nas semifinais de 1988 em Seul. Nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, o Time dos Sonhosformado por jogadores profissionais da NBA em 1992, amargaram mais três derrotas, para Porto Rico no primeiro jogo, para a Lituânia na fase preliminar e para a Argentina nas semifinais, conquistando o bronze.

A vitória de Porto Rico é considerada a maior conquista do basquete porto-riquenho. A derrota estadunidense, com um placar de 92 a 73, não foi apenas inesperada; foi simbólico em um nível difícil de ignorar. Um território que vive sob a órbita colonialista dos Estados Unidos derrotava, em quadra, o próprio centro imperial. O jogo começou quando Carlos Arroyo, armador de Porto Rico, liderou o ataque junto com a lenda porto-riquenha José “Piculín” Ortiz, Larry Ayuso, Rolando Hourruitinier, Eddie Casiano e Daniel Santiago, entre outros. O Time dos Sonhos dos EUA incluía as estrelas regulares da NBA e alguns futuros membros do Hall da Fama, incluindo Allen Iverson, Tim Duncan, Lamar Odom, Dwayne Wade, Lebron James e Amare Stoudemire. Carlos Arroyo se consagrou como um herói porto-riquenho, terminando com 24 pontos, 7 assistências e 4 roubadas de bola, enquanto exibia com orgulho sua camisa com o nome “Porto Rico”. A imagem foi capturada em uma fotografia icônica que percorreu o mundo.
No Brasil, a vitória de 1987 foi considerada uma das maiores conquistas esportivas do país. Em tempos de redemocratização, Oscar jogava com amor e liberdade, com a cabeça erguida e orgulho em ser brasileiro. Já a seleção porto-riquenha de basquete não ganhou uma medalha nos Jogos Olímpicos de Atenas; terminou em sexto lugar no geral. Mas sua vitória contra os Estados Unidos, mais do que qualquer outra coisa, ilustra uma longa lista de pequenas, mas transcendentais conquistas olímpicas de países colonizados em pleno século 20, enviou uma mensagem para todos que vivenciaram e suportaram as variantes da subjugação política e da sobrevivência cultural: uma nação colonial do século 21 pode derrotar dramaticamente seus senhores coloniais em seu próprio jogo.
Essas derrotas não significam o fim da hegemonia estadunidense. Seria ingênuo dizer isso. Mas elas revelam algo talvez mais interessante: que essa hegemonia nunca foi total. Que o basquete, como prática em disputa, sempre escapa, sempre encontra brechas. E há algo de profundamente político nisso. Porque, no fundo, o que está em jogo não é apenas quem vence, mas quem pode imaginar a vitória. E, em noites como aquelas, o jogo deixa de ser propriedade de um país e se torna, novamente, aquilo que sempre foi em potência: um campo aberto, onde diferentes mundos disputam não só pontos, mas sentidos.
Como escreveu Katia Rubio, “o que de fato mobiliza e realiza o esporte olímpico é ainda uma figura histórica chamada atleta. Há que se ressaltar e relembrar, sempre que possível, que o espetáculo esportivo, fosse na Antiguidade ou seja no contemporâneo, não existe sem que o sujeito da ação esportiva protagonize suas habilidades físicas para a realização de um feito sublime e inédito”.
Carlos Arroyo e Oscar Schimidt, obrigado pelos feitos incríveis.
*Michel de Paula Soares é doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, pesquisador do LabNAU/USP, coordenador do Boxe Autônomo e responsável pela coluna Esportes Rebeldes.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

