O Paquistão bombardeou, nesta sexta-feira (27), várias cidades do Afeganistão, incluindo a capital, Cabul, e declarou “guerra aberta” ao país vizinho, em um agravamento da crise após vários dias de confrontos. Este é o último episódio de uma tensão crescente envolvendo os dois países vizinhos, com potencial para inflamar a Ásia Central, tragando outras nações.
“Nossa paciência chegou ao limite. A partir de agora, é uma guerra aberta entre nós e vocês”, afirmou o ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, na rede social X. Poucas horas depois, o porta-voz do governo afegão, Zabihullah Mujahid, expressou em uma entrevista coletiva o desejo de que “o problema seja resolvido por meio do diálogo”.
Durante a manhã, jornalistas da AFP ouviram explosões e viram caças sobrevoando Cabul e Kandahar, grande cidade do sul do Afeganistão e berço do Talibã, grupo fundamentalista islâmico que governa o país desde que voltou ao poder em 2021.
O porta-voz afegão afirmou aos jornalistas que ainda havia aviões paquistaneses “sobrevoando o espaço aéreo do Afeganistão”. Antes, ele disse que os ataques não provocaram vítimas. Na noite de quinta‑feira (26), as forças afegãs lançaram uma ofensiva na fronteira contra as tropas paquistanesas em resposta, segundo Cabul, aos bombardeios paquistaneses do fim de semana passado.
O ministro do Interior do Paquistão, Mohsin Naqvi, afirmou que os ataques de sexta‑feira e outros recentes na província de Paktia são uma “resposta adequada” às ações do país vizinho. Desde quinta-feira, os dois países apresentam versões contraditórias sobre a situação.
O porta-voz afegão Mujahid afirmou que “dezenas de soldados paquistaneses morreram”, “vários também ficaram feridos e outros foram tomados como prisioneiros”, e mais de 15 postos avançados do Paquistão caíram.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, desmentiu a versão afegã: “Nenhum posto paquistanês foi tomado ou danificado”, enquanto os paquistaneses infligiram “graves perdas” aos afegãos. O bombardeio das forças afegãs ocorreu após vários ataques aéreos paquistaneses no fim de semana passado nas províncias de Nangarhar e Paktia, após “recentes atentados suicidas” no Paquistão.
Ex-aliados próximos
O Paquistão foi um dos únicos países, ao lado de Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos a reconhecer o Talibã como governo legítimo do Afeganistão quando este assumiu o poder em 1996. À época, o grupo chocou a comuidade internacional ao impor uma versão radical do islamismo, proibindo mulheres de circularem sem burkas completas e de trabalhar, por exemplo.
Por se recusar a entregar Osama Bin Laden, responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, Washington declarou guerra ao grupo, invadindo o país ainda naquele ano. Combates entre o Talibã e forças estadunidenses se estenderam pelas duas décadas seguintes, até a saída dos EUA em 2021 e a retomada do poder pelo grupo.
Inicialmente, quando o Talibã retornou ao poder em 2021, analistas políticos esperavam que o Paquistão liderasse o processo de reconhecimento do governo talibã como o governo oficial do Afeganistão, melhorando as relações bilaterais que haviam se deteriorado sob os governos pró-Ocidente destes 20 anos.
Mas as relações se tornaram hostis, com o Paquistão acusando repetidamente o Talibã de permitir que grupos armados anti-Paquistão, como o Talibã paquistanês (TTP), operassem em território afegão, acusações que o Talibã nega. Além disso, a deportação de dezenas de milhares de refugiados afegãos pelo Paquistão nos últimos anos tensionou ainda mais os laços entre os dois países vizinhos.
O fator Índia
Pouco antes de declarar “guerra aberta”, o ministro da Defesa do Paquistão acusou o Talibã de tornar o Afeganistão uma “colônia da Índia”, outra potência nuclear, rival paquistanesa. Em outubro passado, ele havia dito que “a Índia quer se envolver em uma guerra de baixa intensidade com o Paquistão. Para conseguir isso, eles estão usando Cabul.”
Naquele mês, combates provocaram mais de 70 mortes dos dois lados. A Índia criticou os ataques paquistaneses, reforçando suspeitas de aliança entre Nova Déli e Cabul.
Paradoxalmente, entre 1996 e 2021, a Índia era abertamente hostil ao Talibã, a quem acusava de ser um fantoche do Paquistão. Mas com a deterioração das relações entre o Paquistão e o Talibã devido aos grupos armados que o Paquistão acusa o Afeganistão de abrigar, a Índia começou a dialogar com o Talibã.
Em 2022, a Índia enviou uma equipe de “especialistas técnicos” para administrar sua missão em Cabul e reabriu oficialmente sua embaixada na capital afegã em outubro do mesmo ano. Nova Déli também permitiu que o Talibã operasse consulados afegãos nas cidades indianas de Mumbai e Hyderabad.
Nos últimos dois anos, autoridades de Nova Déli e do Afeganistão também realizaram reuniões no exterior, em Cabul e em Nova Déli. Praveen Donthi, analista sênior do International Crisis Group, disse à Al Jazeera que “com as relações cada vez mais tensas entre o Paquistão e o Afeganistão, a lógica de ‘inimigo do meu inimigo’ está servindo como um elo entre Cabul e Nova Déli”, disse.
Ele acrescentou que, apesar de o governo indiano se opor a organizações islamitas, “a necessidade estratégica de conter o Paquistão o levou a se engajar proativamente com o Talibã”.
Índia e Paquistão são rivais com armas nucleares que se envolveram em um conflito de quatro dias em maio de 2025, após rebeldes armados matarem turistas indianos em Pahalgam, um popular ponto turístico na Caxemira administrada pela Índia, em abril do ano anterior. Nova Déli acusou o Paquistão de apoiar combatentes rebeldes, acusação que o país negou veementemente.
Mediação
Após um cessar-fogo inicial negociado pelo Catar e pela Turquia, várias rodadas de conversações foram organizadas, mas um acordo duradouro não foi alcançado. Preocupados, Irã e China se apresentaram como possíveis mediadores do conflito.
O governo do Irã, que compartilha uma fronteira ao leste com Afeganistão e Paquistão e está, por sua vez, envolvido em negociações para evitar um conflito com os Estados Unidos, se ofereceu para “facilitar o diálogo”.
As autoridades chinesas pediram às partes que mantenham a calma e atuem com moderação, para “alcançar um cessar‑fogo o mais rápido possível e evitar mais derramamento de sangue”.

