Os jogos da Copa do Mundo e a presença da seleção brasileira têm mobilizado o espírito nacionalista do brasileiro como há muito tempo não acontecia. Contudo, o caráter financeiro do torneio acaba por tornar nebuloso o genuíno espírito esportivo e de orgulho da seleção.
Em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de FatoAira Bonfim, historiadora e autora do livro “Futebol Feminino no Brasil”, afirma que o esporte, com destaque para o futebol, não está separado de outros processos da composição da sociedade.
“O processo capitalista vai atravessar esse torneio e transformar em um espetáculo de mercado. A gente tem visto isso nos últimos dias”, diz Bonfim. “A gente não quis se associar à seleção brasileira em relação a um processo político envolvendo a extrema direita, dentro de um contexto de jogadores que pouco nos representavam, e acho que neste ano estamos tendo uma oportunidade de buscar novamente essa identificação”, afirma.
“Existe uma relação democratizante e popular, mas o evento Copa do Mundo tem uma estrutura mercadológica. Existe um cunho muito claro de relação de consumo. A cada quatro anos, as expectativas não são colocar as pessoas dentro do estádio, mas o quanto você consegue ganhar dinheiro. E, quando você vê os EUA sediando esse evento, você tem esse combo. E, quando você vê a Copa do Catar, que foi a Copa mais cara até a atualidade, dentro de um contexto sem tradição nenhuma em relação ao esporte futebol, as expectativas de lucro sobre o evento que está acontecendo nos EUA, Canadá e México são de ganhar três vezes mais do que naquele território”, afirma. “A Copa do Mundo é uma lição diária sobre o capitalismo.”
Para Bonfim, a edição deste ano da Copa é uma oportunidade de buscar o retorno a essa identificação. “O processo capitalista vai atravessar esse torneio como nunca antes, a partir da década de 1980, transformando esse futebol mundial num produto, um espetáculo de mercado. Eu acho que a gente tem observado isso nos últimos dias de forma muito clara e também como uma identificação política, que também vai sendo transformada ao longo do tempo. E eu acho que nesse ano a gente está tendo uma oportunidade de buscar de volta. Seja essa camisa, algum tipo de identificação, de esperança, porque isso também faz parte do jogo, ao mesmo tempo em que a gente vive um torneio extremamente globalizado”, destaca.
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