Participantes de seminário realizam manifestação em apoio a quilombo ameaçado de despejo em Foz do Iguaçu (PR) — Brasil de Fato

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A programação do Seminário Internacional “O Caminho Sagrado do Peabiru”, que aconteceu na última entre os dias 22 e 24 na Universidade da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu (PR) foi interrompida em seu segundo dia para uma manifestação de apoio dos participantes ao Quilombo “Horta do seu Zé e da Dona Laíde”, que está sob ameaça de reintegração de posse por parte da Prefeitura de Foz do Iguaçu.

Inicialmente prevista para ser apenas uma manifestação de apoio aos quilombolas ameaçados e de cobrança à prefeitura e ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), dentro do espaço acadêmico, a atividade estendeu-se por iniciativa dos participantes do encontro até a Avenida Tancredo Neves, em frente ao Campus Integração, gerando interrupções no trânsito com arranca contínuo por cerca de uma hora, ao final da tarde de quinta-feira (23).

O território, já reconhecido pela Fundação Palmares como área remanescente em 14/11/2024 está aguardando a demarcação por parte do Incra. Localizada na Vila C, a área é considerada o primeiro quilombo do município. “Nós pedimos encarecidamente para que as autoridades do município venham conhecer nosso Quilombo, ver tudo o que fazemos para preservar a natureza, a memória e as tradições do nosso povo”, declarou dona Maria Serrate dos Santos, líder quilombola que participou de um dos painéis do seminário.

Ato de apoio iniciou em um dos inervalos da programação do Seminário, na Unila, depois seguindo para a frente do Campus por iniciativa dos participantes. Foto: Marcos Antonio Corbari / BdF

No mesmo dia, durante a manhã, um grupo de participantes do seminário que está mobilizando estudantes, pesquisadores, movimentos sociais e diferentes representações de povos originários de diversas regiões do Brasil e também de países vizinhos visitaram o território ameaçado e conheceram a realidade da comunidade quilombola local. “Na escola há professores que ensinam a leitura dos conteúdos formais, mas aqui, no quilombo, nós ensinamos a história e as tradições, nós compartilhamos nossos saberes”, afirmou dona Maria Serrate.

Surpreendida pela manifestação espontânea do final do dia, mostrou-se grata e emocionada: “Nós nos fortalecemos na luta e quando recebemos o apoio de tanta gente, que veio de tantos lugares distantes, primeiro para conhecer nosso território e nossa história, e depois para somar com a gente fazendo um ato tão forte e tão bonito, nos sentimos mais fortes para seguir em frente”.

Maria Serrate afirmou ainda que a comunidade não quer conflito, que são famílias preocupadas em preservar suas casas e seu modo de viver. “Insistimos que as autoridades da prefeitura venham nos visitar, nos conhecer, e que retirem essa ação de reintegração de posse”. O apelo da líder também se direciona ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para que agilize a parte que lhe cabe no processo, providenciando a demarcação da área, o que traria segurança para as famílias.

“A gente vai lutar para permanecer porque os nossos descendentes vão estar aqui para fazer permanecer a nossa cultura e as nossas memórias. A gente enfrenta muito conflito, muito preconceito, mas a terra que nos mantém vivos”, completou. Ao final do ato ela agradeceu: “Hoje eu tenho orgulho de dizer que somos quilombolas em um território reconhecido pela Fundação Palmares, mas vai chegar o momento em que teremos a alegria de receber vocês novamente e com o documento na mão dizer: essa é uma terra demarcada!”.

A reportagem do Brasil de Fato PR entrou em contato com o Incra, Fundação Palamares e prefeitura de Foz do Iguaçu (PR). Confira os posicionamentos recebidos:

Incra

A assessoria de comunicação do Incra enviou uma nota relatando como está acompanhando o processo: “Em 27/12/2024, foi instaurado o processo administrativo nº 54000.169774/2024-69, com vistas à regularização fundiária da comunidade, em consonância com o Decreto nº 4.887/2003 e a Instrução Normativa INCRA nº 57/2009, que disciplinam os procedimentos administrativos de reconhecimento e titulação de territórios quilombolas. Trata-se do 41º processo de regularização fundiária de comunidades quilombolas em trâmite nesta Superintendência. Desde então, a Divisão de Territórios Quilombolas do INCRA/PR, em conjunto com a Conciliadora Agrária desta Regional, vem participando de audiências de mediação realizadas no âmbito do Tribunal de Justiça do Paraná, no processo nº 0024935-66.2018.8.16.0030, que discute a reintegração de posse ajuizada pelo município de Foz do Iguaçu. É relevante destacar que a comunidade está situada em área declarada como Parque Natural Municipal (Parque Córrego Brasília). Nesse contexto, em audiência pública de 17/12/2024, foi apresentada pelo Instituto Água e Terra (IAT) a proposta de recategorização da unidade de conservação para Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), mecanismo previsto no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei nº 9.985/2000). Essa medida compatibilizaria a presença das famílias quilombolas com a preservação ambiental, além de garantir ao município a continuidade do recebimento de ICMS Ecológico. O INCRA/PR ressalta que, embora os processos de regularização fundiária quilombola demandem etapas complexas e recursos orçamentários específicos — atualmente limitados na Ação Orçamentária 210Z (Reconhecimento e Indenização de Territórios Quilombolas) —, a autarquia permanece empenhada em buscar soluções administrativas e institucionais que assegurem a proteção dos direitos constitucionais da comunidade. Por fim, esta Superintendência reafirma seu compromisso com o devido cumprimento da legislação vigente, com o respeito às comunidades quilombolas e com a construção de soluções dialogadas entre os entes envolvidos, de modo a garantir a permanência digna das famílias em seus territórios, em consonância com a Constituição Federal e a Convenção 169 da OIT.”

Fundação Cultural Palmares

Em comunicado emitido para o BdF, a Fundação Palmares relata a articulação interinstitucional, junto à Superintendência Regional do INCRA no Paraná, a qual sustentou a competência federal para a regularização dos territórios quilombolas, requerendo o deslocamento do julgamento para a Justiça Federal, em virtude da certificação emitida pela Fundação Cultural Palmares. Outrossim, o comunicado afirma ainda que “cabe destacar a prerrogativa da FCP de garantir assistência jurídica aos territórios de quilombos titulados, conforme o Decreto n.º 4.887/2003, a Procuradoria Federal junto a FCP foi prontamente acionada para analisar as medidas judiciais cabíveis na defesa da comunidade, mesmo que não seja uma comunidade Titulada, a Palmares tem prestado a mesma assistência às comunidades Certificadas”. O comunicado afirma ainda que a FCP está em contato com a liderança da Comunidade e a Defensoria Pública do Estado para agendar uma reunião conjunta. O objetivo é aprofundar a compreensão da situação e definir a estratégia de auxílio que a fundação poderá prestar à comunidade neste momento. “A Fundação Cultural Palmares reitera seu compromisso institucional em zelar pela proteção e integridade do território das Comunidades Remanescentes de Quilombo”, finaliza o comunicado.

Prefeitura

A prefeitura de Foz do Iguaçu ainda não se manifestou a respeito do ato. Apuramos que a Ação de Reintegração de Posse, ajuizada pela Prefeitura está em trâmite na 1ª Vara da Fazenda Pública daquela comarca e que a municipalidade fundamenta a ação na alegação de que a área é de domínio público e está reservada para a construção de equipamentos urbanos. Seguimos tentando um posicionamento e a reportagem será atualizada quando houver a manifestação do poder executivo municipal.

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