Perdemos Zé Martins, músico e arte-educador militante da cultura popular latino-americana

Publicada em

Há vozes que permanecem ecoando mesmo quando o silêncio chega. É assim com José Carlos Martins, o Zé Martins. Cantor, compositor, artista plástico, educador popular, professor e militante da cultura, Zé morreu na manhã deste sábado (27), em Novo Hamburgo (RS), aos 64 anos, após sofrer uma parada cardíaca no ateliê onde vinha, nos últimos anos, vivendo e desenvolvendo a arte dele, espaço que mais amava.

Zé deixa dois filhos, Tobias Martins Filho e Gabrielle Martins. As informações sobre a despedida, incluindo velório e sepultamento, ainda não estão definidas e serão divulgadas assim que houver confirmação.

A partida representa uma perda imensa para a cultura popular brasileira e latino-americana, mas a obra dele seguirá viva nas canções, nas pinturas, nas esculturas, nos processos educativos e também na história do próprio Brasil de Fato RScuja canção-tema foi composta por ele.

Natural de Porto Alegre, nascido em 17 de setembro de 1961, Zé escolheu a Lomba Grande, em Novo Hamburgo, como lugar de vida, criação e pertencimento. Licenciado em Educação Artística, bacharel em Artes Plásticas e pós-graduado em Educação, Estética e Arte pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), construiu uma trajetória em que conhecimento acadêmico, educação popular e criação artística caminharam sempre lado a lado. Também era um dos integrantes do Comitê Gestor do Ponto de Cultura Cantalomba, na Lomba Grande.

Grupo Unamérica

Ao lado de Dão Real, Protásio Prates, já falecido, e Luis César de Oliveira, Zé Martins foi idealizador e fundador do Grupo Unamérica. Iniciando as atividades no início dos anos 1980, ainda sob os ares da repressão e da violência da ditadura militar, o Grupo Unamérica nasceu da inquietação de jovens artistas ligados ao movimento estudantil que compreendiam a cultura como instrumento de transformação social. As atividades se mantiveram até o tempo atual, representando um projeto artístico pioneiro que rompeu as fronteiras impostas pelos nacionalismos estreitos para afirmar a identidade latino-americana.

Zé Martins foi fundador do Grupo Unamérica, projeto artístico dedicado à integração latino-americana pela música e pela cultura popular
Zé Martins foi fundador do Grupo Unamérica, projeto artístico dedicado à integração latino-americana pela música e pela cultura popular | Crédito: Katia Marko

Inspirado pela Nueva Canción Latinoamericana e por artistas como Mercedes Sosa, Violeta Parra, Víctor Jara, Daniel Viglietti, Alfredo Zitarrosa e Atahualpa Yupanqui, o Unamérica percorreu, durante mais de quatro décadas, universidades, sindicatos, escolas, movimentos populares, teatros e festivais, fazendo da música um instrumento de integração entre os povos do continente. O grupo levou aos palcos não apenas canções, mas uma visão de mundo baseada na solidariedade, na democracia, na justiça social e na convicção de que as fronteiras políticas jamais seriam maiores do que os laços culturais que unem os povos da América Latina.

Brasil de Fato RS

Casado com a editora do Brasil de Fato RS, a jornalista Katia Marko, Zé manteve uma ligação também profundamente afetiva com o jornal. Além de conceder entrevistas, participar de debates e colaborar com iniciativas culturais do jornal, Zé foi o autor da canção que há anos acompanha a identidade sonora do Brasil de Fato RS. A música tornou-se parte da memória do veículo, ajudando a anunciar, todos os dias, um jornalismo comprometido com os direitos humanos, a democracia e os movimentos populares.

Em uma entrevista concedida ao próprio Brasil de Fato, em 2020, ao refletir sobre a caminhada do Unamérica, Zé Martins resumiu o sentido de toda a obra: “Nós nunca nos preocupamos muito com a música, ela nunca foi a nossa prioridade, a letra sim. O que nos chamava atenção era poder dar o recado, poder dizer que tinham coisas erradas, que nos inconformávamos com algumas coisas que vinham acontecendo”. A postura acompanharia Zé Martins até os últimos dias e trazer este registro talvez seja a melhor despedida.

Nos últimos anos, Zé Martins também aproximou a vida cotidiana da agroecologia, assumindo no próprio dia a dia a militância por uma nova forma de produzir, consumir e se relacionar com os alimentos. Para ele, o cuidado com a terra, o respeito à natureza e a valorização da sociobiodiversidade não eram temas separados da arte, da educação e da cultura, mas parte de uma mesma busca por modos de vida mais justos, sensíveis e integrados. Esse horizonte também atravessou a aproximação com espiritualidades vinculadas aos povos andinos, em especial a reverência à Pachamama — dimensão que encontrou expressão poética e musical na canção “Gracias Pachamama”.

Atuação política

A defesa da cultura também se expressou na gestão pública. Entre 2005 e 2008, foi secretário municipal de Cultura de São Leopoldo (RS), período em que trabalhou pelo fortalecimento das políticas culturais, pela valorização dos artistas e pela ampliação do acesso da população à produção artística. Na sequência, entre 2013 e 2016, atuou como coordenador de Cultura da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), contribuindo para a construção e o fortalecimento das políticas públicas de cultura em âmbito municipal em todo o estado.

Em todas essas frentes — como músico, artista plástico, educador, gestor público e militante — Zé Martins manteve a mesma convicção: a cultura não é um privilégio, mas um direito; não é mercadoria, mas patrimônio coletivo; não é apenas entretenimento, mas uma dimensão essencial da democracia e da cidadania.

Artista completo

Como artista plástico, Zé Martins desenvolveu uma obra igualmente comprometida com a memória, a identidade e a cultura popular. Como educador, ajudou a formar gerações de artistas e estudantes. Como militante cultural, esteve presente nas lutas pela valorização dos trabalhadores da cultura, pelo fortalecimento das políticas públicas e pela democratização do acesso à arte.

Zé Martins jamais fez da arte um fim em si mesmo. Fez da arte um modo de educar, de resistir, de aproximar povos e de semear esperança. Fica a imagem de um irmão de vida e luta, de fé e ideal que como poucos soube dar-se como parte de um mundo novo que acreditou ser possível sonhar e construir. O Brasil de Fato se despede de um artista que ajudou a contar a história da América Latina em canções e que, com a própria música, também passou a fazer parte da história deste jornal.

Obrigado, Zé. Presente, hoje e sempre.

Source link