A Polícia Federal (PF) deflagrou, nesta quinta-feira (16), a quarta fase da Operação Compliance Zero, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro voltado ao pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos. A ação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e inclui dois mandados de prisão preventiva e sete de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo.
Entre os alvos estão o ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, e o advogado Daniel Monteiro, apontado como operador financeiro ligado ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Ambos são investigados por atuação em operações que envolvem a relação entre o BRB e o Master, incluindo a tentativa de compra da instituição privada e a negociação de carteiras de crédito sob suspeita. Costa foi preso em Brasília (DF), e Monteiro, em São Paulo (SP).
Segundo a PF, Monteiro teria redigido contratos fraudulentos, administrado fundos e estruturado empresas para dificultar o rastreamento de valores. Ele também é suspeito de coordenar mecanismos para ocultar recursos e obter ganhos a partir das práticas investigadas. Já Costa é investigado por suspeita de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, com indícios de que teria recebido seis imóveis como contrapartida, quatro em São Paulo e dois em Brasília, avaliados em cerca de R$ 146,5 milhões. Parte desse valor já teria sido paga, de acordo com a apuração.
As investigações envolvem a atuação do BRB na tentativa de compra do Banco Master e na aquisição de carteiras de crédito da instituição. O Banco Central (Bacen) vetou a operação ao apontar riscos ao banco público e falta de viabilidade econômica. A PF apura se houve falhas nos processos de análise e aprovação das operações e se os ativos foram adquiridos sem documentação adequada.
‘Negócio do presidente’
Uma auditoria independente entregue à PF indica que as operações com o Master eram tratadas internamente como “negócio do presidente” do BRB e realizadas sob pressão. O relatório aponta que carteiras foram fragmentadas para evitar aprovação do conselho e que aquisições bilionárias foram decididas e analisadas no mesmo dia. Em alguns casos, as negociações ocorreram sem entrega de relatórios exigidos contratualmente.
Entre 2024 e 2025, cerca de 83% das operações do BRB envolveram ativos ligados ao Master. O banco público adquiriu aproximadamente R$ 21,9 bilhões em carteiras, sendo que cerca de R$ 12,3 bilhões apresentam indícios de inconsistências, ausência de lastro e problemas documentais. Há ainda suspeitas de contratos inadimplentes e registros em nome de pessoas mortas.
A investigação também aponta a entrada de investidores ligados ao Master no capital do BRB. Em 2024, o banco realizou operações de aumento de capital que resultaram na participação de associados de Vorcaro em cerca de 23,5% da instituição. A auditoria aponta suspeita de operação estruturada para permitir a participação de fundos que não poderiam integrar a rodada.
A PF também investiga a suspeita de que carteiras foram adquiridas para sustentar o Banco Master, que não teria recursos para honrar títulos emitidos. Parte desses papéis teria sido produzida por consultoria sem pagamento e posteriormente revendida ao banco público.
Paulo Henrique Costa presidiu o BRB entre 2019 e 2025 e já era alvo da investigação desde a primeira fase da operação, quando foi afastado do cargo. Em depoimentos, ele negou irregularidades e afirmou que decisões no banco eram colegiadas e que não havia evidências de problemas nas carteiras.
De acordo com a PF, são investigados crimes financeiros, além de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A operação é um desdobramento de fases anteriores, que já resultaram em bloqueio de bens e outras medidas judiciais. As investigações seguem em andamento.

