Em 16 de maio de 2006, Paulo Alexandre Gomes saiu para ir à casa da namorada, na zona leste de São Paulo, e nunca mais foi visto pela família. Jovem negro de 23 anos, Paulo se tornou uma das vítimas de maio de 2006 — uma onda de violência que, duas décadas depois, ainda não teve o número total de mortos oficialmente reconhecido pelo Estado.
Quem investigou o caso foi a irmã dele, Francilene Gomes Fernandes, que depois se tornou integrante do Movimento Independente Mães de Maio. Francilene morreu em setembro de 2024, aos 44 anos, sem respostas.
O caso abre “De 1964 a 2006”, segundo episódio do podcast “Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora”, produzido pela Ponte Jornalismo em parceria com o Brasil de Fato. O podcast tem apoio do Instituto Procomum e da Open Society Foundation.
Neste episódio, os repórteres Mariana Rosetti e Paulo Batistella contam como familiares das vítimas, pesquisadores e entidades de direitos humanos precisaram reconstruir aquilo que o Estado nunca consolidou: quantas pessoas morreram naquele maio.
Apagamento das vítimas
Entre 12 e 21 de maio de 2006, enquanto a imprensa acompanhava os ataques atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC), centenas de civis eram assassinados nas periferias paulistas. Muitas dessas mortes foram registradas como “resistência seguida de morte”, expressão usada na época para indicar supostos confrontos com policiais.
Mas levantamentos posteriores e análises de laudos apontaram outro cenário. O episódio recupera estudos produzidos pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV-Uerj) e pela ONG Justiça Global em parceria com pesquisadores da Universidade de Harvard, dos Estados Unidos.
A narrativa também mostra como as investigações foram dificultadas por ocultação de laudos, adulteração de cenas de crime e ameaças a testemunhas.
Ao longo do episódio, o podcast conecta maio de 2006 à herança da ditadura militar brasileira. A partir de entrevistas com a jornalista e então presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), Rose Nogueira; com Sandra Carvalho, da Justiça Global; e com o pesquisador em direitos humanos, psicologia social e tenente-coronel aposentado da Polícia Militar Adilson Paes de Souza, o episódio mostra como a lógica do “inimigo interno” e a impunidade de agentes públicos atravessaram décadas e seguem presentes na segurança pública brasileira.

