Poemas do épico em solidão: Auto de incineração, de Dércio Braúna

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No Ceará, existem nomes que têm desenvolvido grandes realizações no âmbito da poesia. Um desses nomes é o de Dércio Braúna, que tem construído obras literárias notáveis. Isso se dá, principalmente, porque, quando tem sido escassa a articulação de forma e de conteúdo para construção de obras literárias, no contexto da denominada literatura brasileira contemporânea, ele utiliza, com maestria, esses recursos (e tantos outros possíveis e necessários) para desenvolver suas obras.

Dos títulos (sempre criativos e instigantes) aos textos, enriquecidos pelo uso consciente dos mecanismos sonoros, morfossintáticos e semânticos pertinentes à construção poética, Dércio Braúna mimetiza um universo complexo, lírico e dedicado à percepção aguda da realidade, como podemos perceber pela leitura dos livros: O pensador do jardim dos ossos (2005), A selvagem língua do coração das coisas (2006), Metal sem húmus (2008), Como um cão que sonha a noite só (2010), Aridez lavrada pela carne disto (2015), Como cavalos fatigados abrindo um mar (2017), Escrevivências: livro de vidas imaginografas (2017, em parceria com Joel Neto), Esta solidão aberta que trago no punho (2019), Auto de incineração (2021), Eu talvez desejasse matar poetas (exercícios barrocos) e Conteúdo-carcaça: livro das consumações (2026), dentre outros.

Conheci a obra de Dércio Braúna através de Mailson Furtado (outro nome relevante da literatura produzida no Ceará). O primeiro livro de sua autoria que li foi Como cavalos fatigados abrindo um mar, que me impressionou de imediato pela capa (uma das mais líricas e belas que eu já encontrei em um livro) e pelo título. Depois, lendo e relendo os poemas presentes nele, fiquei certo de que estava diante de um arquiteto minucioso na arte de escrever poesia. A propósito, na introdução desse livro, ele pontua que: “A poesia que entendo é, assim, espanto e cólera. Nasce da paz que não temos. Não canta, grita; urra como há de urrar um pobre diabo qualquer a quem lacem uma corda ao pescoço que lhe tire o respirar. A poesia, como entendo, é da ordem da necessidade. Se faz sobre o contundente ossário de tudo isso: tudo isso que somos e temos sido, tudo isso que gritamos por ser”.

Os livros do autor confirmam essa observação sobre o que é a poesia: a necessidade de expurgar, irrefreadamente, os gritos do espírito aprisionado em um corpo que, por sua vez, está imerso nas tensões do século XXI (este século que nasceu, como tenho enfatizado, dos escombros do famigerado século XX que, na linha de debates de Hannah Arendt (1999), flagrou a banalidade do mal usar suas lâminas contra existências que não puderam vislumbrar esperança de futuro em um mundo lastreado por guerras e cerceamentos de liberdade).

Nessa perspectiva, dentre os livros do autor, discorrerei, com maior ênfase, sobre: Auto de incineração. Este livro foi publicado em 2021, quando estávamos perplexos: pela proximidade com a devastadora pandemia de Covid-19, pela experiência nefasta da extrema direita no poder executivo, pela desvalorização crescente da ciência e da democracia e pela amplitude das fake news propagadas pelo mundo tecnológico em pleno e acrítico desenvolvimento.

O título da obra concentra amplo horizonte polissêmico, sobretudo pelo uso do termo auto (que pode remeter à peça teatral de cunho religioso nascida na Idade Média ou a determinados documentos oficiais). Nesse sentido, é possível considerar que: 1) auto de incineração corresponde a um tipo de documento comprobatório da destruição de produtos apreendidos em contexto judicial e, também, pode remeter a um 2) auto inquisitorial que, no contexto da Igreja Católica, sob a égide do Santo Ofício, via um indiciado por “heresia” como culpado e, em certos contextos, submetia-o ao fogo para, com isso, vê-lo purgar seus pecados. O Santo Ofício, com seus autos inquisitoriais, ateou fogo (incinerou) em vários corpos tidos como hereges.

No século XXI, contexto de reflexão e de publicação da obra, a incineração dos corpos parece ocorrer (diante de um controle neoliberal que atinge contornos estratosféricos) não só pela recente pandemia de Covid-19, mas pela exaustão autoimposta, pela incapacidade de pensar criticamente e pelas relações desenvolvidas em meio ao caos e aos escombros de um cotidiano desolador. Nesse livro, Dércio Braúna percebe que, assim como o corpo foi submetido, ao longo da história, às múltiplas formas de incineração, também o espírito tem sido forçado a viver processos absurdos de incineração simbólica. O poeta e a poesia não têm sido vítimas desse processo devastador?

Auto de incineração, em seu todo, é um livro poético difícil de ser definido — e quem disse que o fazer poético necessita de definição? Apesar disso, digo que estamos, sim, diante de um épico moderno. Dentro desse processo de construção épica, surge uma voz lírica solitária, atormentada e reflexiva. Essa voz (que aparece às voltas com procelas de incineração) aceita poemas alocados em sua trajetória rebelada. Assim, ele admite mais um questionamento: quem sofre o “arder” do fogo quando tudo parece desdobramento aflitivo de fogaréu e chamas, neste século XXI desafiador?

Dércio Braúna nasceu em Limoeiro do Norte–CE e atua como bancário. É graduado, mestre e doutor em História, com estudos voltados para História e Literatura (sua tese de doutoramento, orientada pelo Prof. Dr. Francisco Régis Lopes Ramos, reúne essas duas áreas e foi publicada, em 2023, com o título: Tentações de sapateiro: o cerco da História na operação ficcional de José Saramago). O autor dispõe de vários livros voltados para a pesquisa acadêmica e para a produção literária, de modo que estamos diante de um intelectual e de um escritor notável que merece ser conhecido e reconhecido amplamente em âmbito nacional.

*Émerson Cardoso é doutor, mestre, especialista e graduado em Letras. Pesquisador em Literaturas de Língua Portuguesa e Francesa, Professor e Escritor. Publicou, dentre outras obras, os livros: O baile das assimetrias (2022), Jornadas (2023) e Romanceiros (que recebeu o I Prêmio Literário Demócrito Rocha de 2024). Organizou Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (2024).

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

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