Por que a Suécia está voltando ao papel e ao lápis? Entenda mudança

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A Suécia, um dos países mais digitalizados do mundo, está reconstruindo a sala de aula em torno de um objeto que parecia cair no esquecimento havia mais de uma década: o livro impresso. O movimento, que ganhou força a partir de 2023 e se intensifica em 2026, marca uma virada na política educacional sueca, historicamente associada à vanguarda tecnológica e à substituição precoce de materiais físicos por dispositivos eletrônicos.

A transformação começou ainda no final dos anos 2000. A partir de 2009, escolas suecas passaram a incorporar computadores em ritmo acelerado, e, por volta de 2015, cerca de 80% dos estudantes já tinham acesso individual a um notebook ou tablet. Em 2019, o uso de tablets entrou formalmente no currículo da pré-escola, consolidando um modelo em que o ensino digital deixou de ser complemento e se tornou eixo central da aprendizagem.

Não há Pirls que silencia ou debate

O ponto de virada veio com os resultados do Pirls (Estudo Internacional de Progresso em Leitura)exame que mede a compreensão de leitura de alunos do quarto ano do ensino fundamental, geralmente entre 9 e 10 anos. Entre 2016 e a edição seguinte, a pontuação sueca recuou de 555 para 544 pontos. O número ainda ficava acima da média europeia, de 528 pontos, mas representou queda suficiente para acender um alerta dentro do Ministério da Educação.

A então ministra Lotta Edholm classificou o resultado como sintoma de um problema estrutural. “Estamos em risco de criar uma geração de analfabetos funcionais”, afirmou, ao justificar a suspensão do plano de digitalização que a Agência Nacional de Educação havia aprovado meses antes.

A decisão não partiu de um único gabinete: foi precedida por um processo de consulta iniciado em 2023, que reuniu pesquisadores acadêmicos, organizações de ensino, agências públicas e municipalidades, além de relatórios técnicos elaborados por mais de 60 especialistas em tecnologia educacional, incluindo pesquisadores do Instituto Karolinska, em Estocolmo.

O que muda na prática nas escolas suecas

Mudanças concretas se acumularam a partir de então. Desde 2025, as pré-escolas suecas não são mais obrigadas a usar ferramentas digitais, e crianças menores de dois anos não recebem mais tablets como parte da rotina escolar.

Para 2026, está prevista a entrada em vigor de uma proibição de telefones celulares dentro das escolas, regra que vale inclusive para usos classificados como educacionais, um sinal de que o governo não está apenas reduzindo o tempo de tela recreativo, mas também restringindo aplicações pedagógicas baseadas em smartphones.

Em paralelo, o governo já destinou mais de 2,1 bilhões de coroas suecas, o equivalente a cerca de US$ 200 milhões, em subsídios para a compra de livros didáticos e produção de guias de apoio para professores.

A meta é que essa transição esteja consolidada institucionalmente até 2028, quando deve ser publicado um novo currículo nacional estruturado em torno do ensino com base em livros impressos, abrangendo leitura, escrita e cálculo em formato analógico.

“Estamos tentando nos livrar das telas”, diz ministério

À frente da pasta da Educação está hoje Joar Forsell, porta-voz de educação do Partido Liberal e integrante da coalizão governista liderada por Ulf Kristersson.

Para ele, a prioridade é reduzir ao máximo a presença de telas nas fases iniciais da escolarização. “Na verdade, estamos tentando nos livrar das telas ao máximo possível”, disse Forsell, ao detalhar a estratégia do ministério. Segundo o porta-voz, a régua não é igual para todas as idades: “com os estudantes de mais idade, você pode usá-las um pouco mais, mas, com os mais jovens, acho que não devemos usar tela nenhuma”, completou, sinalizando uma gradação por faixa etária em vez de uma proibição uniforme.

Autonomia do professor entra no centro da discussão

A leitura sobre o papel das ferramentas digitais, porém, não é unânime nem dentro do próprio sistema educacional sueco. Peter Karlberg, diretor da Agência Nacional de Educação, defende que a questão central não é eliminar a tecnologia, mas devolver autonomia pedagógica aos professores para escolher o recurso mais adequado a cada momento da aula.

Já do lado da neurociência, pesquisadoras como Sissela Nutley, do Instituto Karolinska, vêm reforçando o argumento de que o ambiente digital em sala de aula compete diretamente com a atenção dos estudantes.

Estudos conduzidos por sua equipe apontam que alunos tendem a perder a concentração ao acompanhar o que colegas fazem em outras telas, e que a leitura em dispositivos digitais pode exigir um esforço cognitivo diferente (e, em muitos casos, menos eficiente) do que a leitura em papel, especialmente para crianças em fase de alfabetização.

Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em 2026, ofereceu uma camada adicional de evidência ao debate. O documento reconhece benefícios gerais do uso de ferramentas digitais em contextos pedagógicos específicos, mas aponta alta incidência de distrações nas salas de aula suecas e estabelece uma correlação entre uso intensivo de dispositivos durante aulas de matemática e desempenho mais baixo nessa disciplina. A organização recomenda metas pedagógicas claras para o uso de tecnologia, em vez de adoção genérica.

Críticas: mercado de trabalho e divisão digital

Nem todos os setores da sociedade sueca recebem a mudança com entusiasmo. A associação sueca de Edtech tem alertado que o recuo no uso de plataformas digitais pode comprometer a preparação de estudantes para um mercado de trabalho cada vez mais dependente de competências tecnológicas, em um argumento que ganha peso em um país que abriga ecossistemas de startups de bilhões de dólares, como o caso da Spotify, originada em Estocolmo.

Outro ponto de atenção envolve a inteligência artificial. O governo sueco quer que o ensino médio passe a abordar formalmente riscos e oportunidades do uso de IA, mas pesquisadoras como Linnéa Stenliden, do Departamento de Ciências do Comportamento da Universidade de Linköping, argumentam que essa formação não pode ficar restrita aos anos finais da educação básica.

Segundo ela, sem orientação desde cedo, crianças de famílias com mais recursos e pais mais capacitados para ensinar o uso responsável dessas ferramentas, tendem a sair em vantagem, ampliando o que especialistas chamam de divisão digital entre estudantes.

Um modelo observado de fora

O caso sueco tem despertado interesse internacional justamente por inverter uma trajetória que outros países ainda perseguem: a digitalização acelerada da educação básica.

Enquanto sistemas educacionais em diferentes partes do mundo discutem como ampliar o acesso a tablets e plataformas online, a Suécia testa o caminho inverso, recalibrando o equilíbrio entre papel, tela e aprendizagem com base em evidências coletadas no próprio sistema público. O resultado dessa recalibração só poderá ser medido nas próximas edições de avaliações internacionais de leitura e matemática, mas já reposiciona o país como referência em um debate que extrapola suas fronteiras: até que ponto a tecnologia, por si só, melhora (ou prejudica) o aprendizado infantil

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