Por que Comitê Olímpico censurou a luta anticolonial e antirracista do Haiti?

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Uma noite histórica. Na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Milão, dois atletas haitianos participam da cerimônia, levantando a bandeira azul e vermelha do seu país. Suas roupas pintadas à mão, idealizadas pela estilista Stella Jean, já foram destaque em dezenas de manchetes da mídia internacional pela sua originalidade e beleza ímpar.

O desenho pintado é a reprodução de uma obra do artista haitiano Edouard Duval-Carrié, representando um cavalo rubro saindo da mata a galope, com a língua para fora. No entanto, o que mais chama a atenção dos haitianos é outra coisa. Algo que não apenas ofende a identidade de uma nação, mas diz muito sobre a ocultação da história colonial pelas potências — até hoje — imperialistas.

Pois falta um homem em cima daquele cavalo. Esse homem, figura central da obra original, é o general Toussaint Louverture, principal líder e fomentador da Revolução Haitiana, uma revolução que abriu as portas para a abolição da escravidão e para a independência do país que, em 1804, se tornou a primeira república negra do mundo. Até hoje, Toussaint Louverture é considerado um herói nacional no Haiti, guardião de valores de irmandade, justiça e igualdade que inspiraram muitas lutas anticoloniais pelo Sul Global.

Propaganda política

Com essa homenagem, e apropriando-se uma prática muito tradicional no Haiti da pintura em roupas de algodão, Stella Jean quis aproveitar a visibilidade das olimpíadas para enaltecer a cultura do seu povo. Haitiana por parte da mãe, porém nascida e criada na Itália, ela sempre sentiu orgulho das suas raízes. Para ela, reverenciar a história é uma maneira de demonstrar solidariedade nesse momento de profunda crise política, econômica e social que o país atravessa.

“Esses uniformes não são um exercício de estilo. Eles são um ato de responsabilidade. Cada detalhe é intencional. Cada centímetro de tecido carrega a tarefa de contar uma história — e a vontade de continuar. O que você vê não é uma decoração. É visibilidade como forma de sobrevivência”, declara em suas redes sociais.

O Comitê Olímpico Internacional (COI), no entanto, não teve a mesma leitura. Poucas semanas antes da abertura dos jogos, mandou corrigir a arte dos uniformes e retirar a figura surpreendentemente polêmica de Toussaint Louverture. Com justificativa, citou a Regra 50 da Carta Olímpica, pela qual “nenhum tipo de demonstração ou propaganda política, religiosa ou racial é permitida em qualquer evento olímpico, local, ou outras áreas”.

A imagem original do uniforme era semelhante à saia, com a figura de Toussaint Louverture
A imagem original do uniforme era semelhante à saia, com a figura do líder da Revolução Haitiana | Crédito: Stella Jean/Instagram

Diz o ditado popular que, quando João fala mal de Pedro, sabemos mais de João do que de Pedro. No caso, quando o COI considera “propaganda política” a homenagem a um pioneiro da luta antiescravagista e da igualdade entre os povos, isso diz muito sobre os “valores humanistas” que o hemisfério ocidental pretende defender. Haverá algum conflito político em jogo a respeito dos ideais que defendeu a Revolução Haitiana?

Neutralidade ou silenciamento?

Não foi a primeira vez que a política está presente nas Olimpíadas. É inesquecível a imagem de Tommie Smith e John Carlos, atletas estadunidenses que levantaram o punho com luva preta no pódio dos Jogos do México, em 1968, em homenagem à luta das Panteras Negras. Lembramos também do terrível atentado na Vila Olímpica dos Jogos de Munique, em 1972, que trouxe à tona as reivindicações palestinas contra a ocupação israelense. Em 1980, as Olimpíadas de Moscou, em plena Guerra Fria, foram boicotadas pelos Estados Unidos e dezenas de países. Em 2016, no Rio de Janeiro, o evento foi marcado por manifestações políticas cotidianas às margens dos estádios, enquanto o Brasil estava vivendo um golpe institucional aos olhos do mundo. Manifestações que, conforme a exigência da Carta Olímpica, foram ignoradas pela cobertura oficial.

Desta vez, no entanto, parece que o posicionamento político vem muito mais do próprio COI do que de atletas e artistas querendo celebrar a história haitiana. No contexto geopolítico atual, onde o imperialismo dos Estados Unidos assola o Caribe e sua ingerência nos assuntos internos do Haiti é plenamente assumida, não há “neutralidade política” que justifique tal silenciamento, e menos ainda num espaço onde estão em escancarada minoria – quem esperava esquiadores negros, oriundos de um país tropical e pobre, nos Jogos Olímpicos de Inverno?

No caso, censurar a figura de Toussaint Louverture equivale a reduzir a amplitude histórica e humanista da Revolução Haitiana a um simples conflito de interesse entre dois países — que, de fato, não caberia trazer para os Jogos Olímpicos. Segundo Peguy Noël, professor de história e sindicalista em Porto Príncipe, essa postura apenas reproduz a atitude colonial da historiografia francesa. “Durante quase dois séculos de literatura clássica sobre as revoluções modernas, a batalha de Vertières (onde o exército haitiano derrotou as tropas de Napoleão) e a própria Revolução Haitiana foram silenciadas. Isso não foi um acaso. Foi uma estratégia de dominação”, explica ao Brasil de Fato.

Para ele, silenciar a memória dos povos originários e negros é uma ferramenta colonial para impedir sua emancipação. “Ocultar a memória dos povos é uma prática antiga do Ocidente para mantê-los na ignorância, para que não saibam de onde vêm, onde estão e para onde vão, para que não possam construir sua identidade.”

Neste sentido, a luta atual do povo haitiano, travada também pela diáspora à qual pertencem os atletas e artistas que representaram o país em Milão, começa precisamente pela afirmação da sua cultura, memória e identidade. Para Stella Jean, a presença haitiana nos Jogos e a imensa repercussão que tiveram suas obras a nível mundial, com ou sem cavalheiro, já cumpriram esse papel. “Ninguém esteve ausente nessa Cerimônia de L’Ouverture”, ironizou na última linha de uma longa postagem de agradecimentos. De etimologia francesa, o nome Louverture significa “Abertura”. Uma abertura que não foi fácil de encontrar num contexto olímpico tensionado, sim, por muitos interesses políticos.

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